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Jornada múltipla
Conselheiros
do MEC prestam assessoria
a universidades que deveriam fiscalizar
Consuelo
Dieguez
Selmy Yassuda

Estácio de Sá, no Rio, campeã de crescimento: ex-reitor no Conselho
Nacional de Educação |
O Provão
e o Enem são os dois principais termômetros da qualidade
do ensino no Brasil. São estratégicos na política
educacional do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O Ministério da Educação entregou a organização
dos dois testes à Fundação Cesgranrio, que
tem o professor Carlos Alberto Serpa como presidente. Trabalhador
incansável, Serpa tem outras atribuições. Dá
consultoria a universidades privadas que passarão pela avaliação
do Ministério da Educação. Já seria
estranho o organizador do Provão dar qualquer tipo de assessoria
a instituições particulares de ensino. Mas tem mais.
Serpa é também membro do Conselho Nacional de Educação
(CNE), órgão ligado ao MEC, que tem, entre outras
prerrogativas, a de avaliar a qualidade dos cursos. Ou seja, com
uma das mãos Serpa julga as escolas. Com a outra, presta
serviços a elas. Esse não é o único
caso de conflito de interesses no CNE. As atividades de pelo menos
três outros conselheiros (veja
quadro) fazem do órgão responsável
pelas principais decisões relativas ao ensino superior um
emaranhado de ligações perigosas.
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No
documento reproduzido acima, o presidente de uma entidade
de escolas privadas indica seu irmão para o conselho
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O
ministro da Educação, Paulo Renato Souza, se disse
surpreso com o relato feito a ele por VEJA. "Eu não tinha
conhecimento desses fatos. Isso é tráfico de influência",
afirma o ministro. A saga da ascensão de Serpa é mesmo
espantosa. Ele conseguiu assento no Conselho Nacional de Educação
depois que o Ministério da Educação credenciou
uma entidade a Academia Brasileira de Educação
(ABE) para indicar conselheiros. Serpa é o presidente
da tal academia, que tem entre seus membros o chefe de gabinete
do ministro Paulo Renato, Edson Machado. Em 1999, atuando na dupla
função de reitor da Universidade Gama Filho, do Rio
de Janeiro, e conselheiro do CNE, Serpa conseguiu, por meio de uma
liminar na Justiça, autorização para que a
Gama Filho abrisse em Fortaleza, capital do Ceará, 2.000
vagas de cursos seqüenciais, um tipo de formação
superior com apenas dois anos de duração. Apesar de
proibir o funcionamento desses cursos fora da sede da universidade
que os criou, o MEC teve uma resposta tímida. Por meio de
um comunicado mostrou sua insatisfação à direção
da Gama Filho e ficou nisso. Animada com o precedente, a
Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, a instituição
que teve mais cursos aprovados no ano passado, seguiu caminho idêntico.
Abriu 2.000 vagas para cursos seqüenciais
na mesma Fortaleza, amparada também por uma liminar. O MEC
poderia, autorizado pela lei, paralisar todos os processos para
a abertura de novos cursos dessas universidades. Nada foi feito.
Tanto
a Gama Filho como a Estácio de Sá realizaram uma segunda
façanha. Obtiveram a condição de entidades
filantrópicas junto ao Ministério da Previdência
Social. A Fundação Cesgranrio também descolou
essa vantagem. É um negócio da China. Com isso, duas
das maiores e mais caras universidades do país e uma fundação
gigantesca deixam de recolher à Previdência os 20%
equivalentes à contribuição patronal, sob alegação
de que são instituições sem fins lucrativos.
"É o fim da picada elas serem consideradas filantrópicas",
indigna-se o ministro Paulo Renato, que pretende agora iniciar um
processo para tirá-las dessa condição. Curiosamente,
um representante da Estácio de Sá tem assento garantido
no Conselho Nacional de Educação. Trata-se de Lauro
Zimmer, ex-reitor e até hoje funcionário da universidade.
Zimmer, assim como Serpa, foi eleito para o CNE com os votos da
tal Academia Brasileira de Educação.
Na
esteira das relações perigosas há pelo menos
mais um conselheiro. Trata-se de Éfrem Maranhão, que
chegou ao Conselho Nacional de Educação com o apoio
de uma entidade chamada Associação Nacional dos Centros
Universitários (Anaceu), cujo presidente é o irmão
de Éfrem, Magno Maranhão. Ou seja, o presidente de
uma associação que representa os interesses de escolas
privadas indicou seu próprio irmão para membro de
um conselho que tem como função fiscalizá-las.
A série de conflitos de interesses estende-se ao chefe de
gabinete do ministro, Edson Machado. Sua mulher, a educadora Eda
Machado, conseguiu aprovação do ministério
para abrir o Instituto de Educação Superior de Brasília
(Iesb). Eda argumenta que nunca precisou do marido e que abriu o
curso graças a sua competência profissional. No entanto,
embora o curso de engenharia do Iesb tenha sido reprovado pela comissão
de especialistas do MEC, ele foi autorizado a funcionar.
Outro
episódio nebuloso envolvendo o casal Machado ocorreu em 1994.
Nessa época, Eda era funcionária da Secretaria de
Educação Superior do MEC, enquanto Edson era da Câmara
de Ensino Superior do extinto Conselho Federal de Educação.
Ainda assim, ambos prestaram consultoria à Faculdade da Cidade,
do Rio de Janeiro, pertencente ao empresário Ronald Levinsohn.
A Faculdade da Cidade pretendia se transformar em universidade
o que não acabou ocorrendo. É, hoje, um centro universitário,
o que a desobriga de fazer pesquisas e manter um número mínimo
de mestres e doutores. "Não há nada de errado em nossa
consultoria. Fazíamos parte de um conselho de notáveis
ao qual a Faculdade da Cidade recorreu", justifica Eda Machado.
Cabe agora ao ministro Paulo Renato investigar a fundo até
que ponto interesses privados interferem no trabalho do Conselho
Nacional de Educação.
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LIGAÇÕES
PERIGOSAS
Carlos
Alberto Serpa - Integrante do Conselho Nacional de Educação
(CNE) e ex-reitor da Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro.
É presidente da Fundação Cesgranrio,
entidade que aplica o Provão e dá consultoria
a universidades privadas. Serpa também dirige a Academia
Brasileira de Educação. Foi indicado para o
CNE pela academia, que tem entre seus membros Éfrem
Maranhão e Lauro Zimmer, também do CNE, e Edson
Machado.
Éfrem
Maranhão - Conselheiro do CNE. É irmão
de Magno Maranhão, presidente da Associação
Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), que reúne
instituições de ensino superior privadas. A
entidade dirigida por Magno Maranhão foi credenciada
pelo MEC para indicar conselheiros para o CNE. Entre os três
nomes apontados pela Anaceu está o de Éfrem.
Edson
Machado - Chefe de gabinete do ministro da Educação,
Paulo Renato Souza. Foi membro do Conselho Federal de Educação,
extinto em 1994 pelo então presidente Itamar Franco
por suspeitas de corrupção. Naquele ano, deu
consultoria à Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro,
que pleiteava a transformação em universidade.
Sua mulher, Eda Machado, conseguiu, em 1998, autorização
do MEC para abrir o Instituto de Educação Superior
de Brasília (Iesb) com seis cursos de uma só
vez.
Lauro
Zimmer - Conselheiro do CNE. Foi reitor da Universidade
Estácio de Sá, da qual é funcionário
até hoje. Já relatou processos em favor daquela
instituição. Seu filho, Lauro Cavallazzi Zimmer,
juntamente com Rafael Bornhausen, filho do senador Jorge Bornhausen,
é o advogado que conseguiu junto ao Ministério
da Previdência o título de entidade filantrópica
para as universidades Gama Filho e Estácio de Sá
e para a Cesgranrio. As três deixaram de recolher a
contribuição patronal de 20% ao INSS.
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