Universidades
Diploma na berlinda
De 410 cursos avaliados pelo MEC, 95 são
tão ruins que podem ser fechados
Eduardo Nunomura
Os quarenta alunos recém-aprovados no vestibular para
engenharia elétrica do Centro Universitário da Cidade,
UniverCidade, no subúrbio carioca de Madureira, foram
surpreendidos na semana passada com uma péssima notícia.
A qualidade de ensino oferecida ali é tão ruim que, se
não melhorar, o curso pode vir a fechar antes que eles
recebam o diploma. É ruim porque, dos 29 professores,
apenas cinco têm título de doutor. Dispõe de apenas 200
computadores, disputados por mais de 2.000
alunos dos onze cursos oferecidos pela instituição. O
laboratório de máquinas elétricas está mais para oficina
de fundo de quintal que para centro de estudos. A carga
horária dos alunos não ultrapassa três horas diárias.
Um desastre educacional que custa caro (mensalidades de
594 reais) e ameaça o futuro do estudante. A engenharia
elétrica do UniverCidade não é um caso isolado. Entre
agosto e outubro do ano passado, 3.000
professores contratados pelo Ministério de Educação passaram
o pente-fino em 410 cursos de economia, jornalismo e engenharia
elétrica e mecânica em todo o país. A engenharia elétrica
do UniverCidade integra a lista dos 95 que receberam o
conceito "insuficiente" nos três critérios de
avaliação qualidade do corpo docente, ensino e
instalações.
A avaliação dos cursos feita pelo MEC chega em boa hora.
Com o aumento da demanda por vagas universitárias nas
últimas duas décadas, houve uma proliferação de escolas
que cobram caro por um ensino de má qualidade. Agora,
com a soma dessa avaliação e do resultado obtido pelos
alunos no Provão, têm-se um retrato mais claro do ensino
superior no país. Dos cursos com três conceitos "insuficiente",
a maioria é oferecida pela universidade privada
64%. A superioridade, contudo, não é grande o suficiente
para fornecer um atestado de qualidade ao ensino público.
Em um primeiro momento, a avaliação do MEC não deve ser
entendida como uma condenação. É mais um sinal de alerta.
"O aluno tem a chance de escolher o melhor curso
ou fiscalizar o que ele estiver fazendo até que a qualidade
seja recuperada", diz o diretor de Políticas do Ensino
Superior do MEC, Luiz Roberto Liza Curi.

Um dos problemas do ensino superior no Brasil é que muitos
alunos só estão interessados em obter o diploma, sem se
importar com a instituição que emitiu o canudo. É uma
atitude tola, pois o mercado de trabalho dá cada vez mais
prioridade aos egressos das boas faculdades. A comparação
entre o estudo do MEC e os resultados do Provão, a avaliação
da escola com base no desempenho dos estudantes, demonstra
que os melhores alunos saem das melhores universidades
o que é óbvio, mas só agora comprovado de forma
estatística. Um exemplo: dos onze cursos de economia com
três conceitos "muito bom", dez tiraram notas
A e B no Provão. O da Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro, instituição privada, conseguiu a nota
máxima em todos os quesitos. Os formandos submetidos ao
Provão do ano passado, idem.
Das escolas de engenharia elétrica, a da Universidade
Estadual de Campinas, a Unicamp, é uma das mais procuradas.
No último vestibular, a relação candidato/vaga para o
curso diurno foi de 9,1. Para o noturno, de 4,1
duas vezes maior que a procura pela engenharia elétrica
do UniverCidade. Nos três critérios avaliados pelo MEC,
a faculdade paulista obteve três "muito bom".
Nos provões de 1998 e 1999, os alunos conseguiram a nota
máxima. Os 100 calouros do curso de engenharia elétrica
da Unicamp, que acabaram de passar no vestibular, só têm
a comemorar. Dos 106 professores, 100 são doutores. Os
laboratórios da faculdade são de ponta. A faculdade não
chama a atenção apenas dos alunos. Grandes empresas como
a Companhia Paulista de Força e Luz, Motorola e Companhia
Vale do Rio Doce firmam convênios com a Unicamp para o
desenvolvimento de novos projetos em conjunto com os estudantes.
Fazer a avaliação de faculdades ou universidades é um
hábito internacional que só há três anos começou a ser
levado a sério no Brasil. É importante porque diferencia
as boas escolas das más. Com o sistema de avaliação
tanto o Provão quanto a análise da qualidade de condições
das escolas , o MEC passa a dispor de informações
para melhorar a fiscalização do ensino superior. É similar
ao que ocorre nos Estados Unidos. Lá, há total liberdade
para a criação de cursos, mas nenhum formando recebe o
diploma sem passar pelo crivo de uma apreciação externa.
No Brasil, apenas os formandos em direito são submetidos
a um exame nacional de aferição de capacidade profissional.
Quem é reprovado no teste realizado pela Ordem dos Advogados
do Brasil não pode exercer a profissão.
A análise das faculdades dessas quatro áreas foi a segunda
etapa da avaliação da qualidade da graduação brasileira.
O resultado vai pesar no processo de renovação de sua
licença para funcionar. Os cursos com três notas D ou
E consecutivas no Provão ou dois conceitos insuficientes
nas avaliações da qualidade ficam na berlinda. Atualmente,
oito faculdades de administração e quatro de direito estão
ameaçadas de fechamento. Considerado ruim pelo MEC, o
curso de administração das Faculdades Integradas Upis,
de Brasília, deu a volta por cima. "Contratamos professores
com mestrado e doutorado e melhoramos a biblioteca e os
laboratórios", diz o presidente da instituição, Vicente
Nogueira Filho. No ano passado, uma boa surpresa. Nota
B no Provão e a renovação, por três anos, do curso pelo
MEC. Um exemplo a ser seguido.
Com reportagem de
Silvia Rogar, do Rio de Janeiro