Claudio
de Moura Castro
A faculdade
do interior
"O
dedo acusador
contra toda faculdade E
não passa de ignorância, elitismo ou
luta
por reserva de mercado"
Ilustração Ale Setti
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Nossas proezas no mapeamento do genoma da Xylella fastidiosa
deram um artigo de capa na famosa revista Nature. No
embalo, os cientistas foram contratados para tentar salvar a indústria
do vinho da Califórnia, ameaçada por uma prima dessa
bactéria. Esse é o tipo de trabalho que vitalmente
esperamos de nossas universidades de pesquisa.
Mas
ensino superior não é só isso. Fui recentemente
visitar uma faculdade nos fundões das Minas Gerais. De colegiozinho,
foi crescendo e virou faculdade. De tão mal construído,
o primeiro prédio rachou. Mas, nos mais novos, com granito
na entrada, as salas de aula dão inveja a muita federal.
Os professores são os talentos locais, reforçados
por alguns mestres de fora. A biblioteca é correta e os laboratórios
impecáveis (exigência do MEC). Para algumas centenas
de alunos, é a única chance de fazer um curso superior.
Para a economia local, é mais uma atividade produtiva.
Como
essa, existem 566 faculdades (privadas e comunitárias) esparramadas
pelo interior, com 300.000 estudantes.
A maior parte faz o que pode, limitada pelas condições
locais. Nos grandes centros, há doutores e mestres à
vontade. No interiorzão, no máximo, um ou outro. A
maioria consegue fechar o balanço, algumas privadas com um
lucrinho, outras nem isso. E, como em todas as áreas, há
os que se enriquecem sem oferecer em troca um ensino correto.
O
Provão nos diz quanto os alunos aprenderam ao se formar.
Dificilmente uma dessas instituições mais modestas
poderá brilhar com A e B no Provão. Na pesquisa que
fiz com José F. Soares, mostramos que 80% da nota no Provão
se deve ao nível do estudante ao entrar para o ensino superior.
Ou seja, a qualidade do ensino oferecido pela faculdade só
determina 20% do resultado. Quem recebe alunos fracos no vestibular
está condenado a resultados modestos no Provão. Não
existem mágicas, embora indivíduos possam dar grandes
saltos por seu esforço.
Pelo
desvelo dos donos da instituição que visitei, certamente
ela não tirará nota E. Mas, para efeito de discussão,
suponhamos que tirasse. O MEC deveria ir lá e fechar a faculdade?
Examinemos
duas situações. Em uma, a instituição
não oferece um ensino que atinja os padrões do MEC.
É negligente, incompetente ou pobre demais. Não alcança
um mínimo razoável de qualidade. Nesse caso, não
tem perdão, que seja tratada com todo o rigor como
já está acontecendo com algumas. Mas e se está
tudo direitinho e o único pecado é receber alunos
fracos?
Na
área médica ou em outras em que há questões
de segurança envolvidas, que se exijam mínimos invioláveis.
Mas, afora esses casos, será que os estudantes e a sociedade
ganham ao se deixar operar uma escola que obtém nível
E? Landeira-Fernandez (PUC/Unesa) e R. Primi (Universidade São
Francisco) trazem a resposta. Tomam cinco faculdades de psicologia,
de A a E. Em cada uma, aplicam o Provão aos calouros. Embora
o teste seja para formandos, cultura e o uso do raciocínio
lógico permitem que um calouro acerte várias perguntas.
Os da faculdade A obtêm os escores mais altos, seguidos pelos
da B, ficando por último os da faculdade E. Ou seja, a melhor
instituição recebe os melhores alunos e produz os
melhores diplomados.
Mas
podemos subtrair as médias do Provão oficial de cada
faculdade da média do Provão aplicado aos calouros.
Essa diferença nos dá os ganhos obtidos no decorrer
do curso, o chamado valor adicionado. O da faculdade A é
maior que o da B, e assim por diante. No entanto, mesmo os alunos
da faculdade E têm um ganho de pontuação apenas
ligeiramente menor. Ficam bem abaixo dos da faculdade A no final
do curso, pois partem de uma base mais baixa. Mas, por estudarem
quatro anos, crescem em pontuação quase o mesmo que
os da faculdade A.
O
papel social e econômico de uma faculdade E não pode
ser desprezado. Desde que o ensino seja correto (um papel nobre
do MEC é verificá-lo implacavelmente), ela está
oferecendo uma chance de crescimento a um aluno, em geral, mais
pobre e vítima de uma educação prévia
de má qualidade. O dedo acusador contra toda faculdade
E não passa de ignorância, elitismo ou luta por reserva
de mercado.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
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