Aula longe de casa

O número de universitários no interior do Brasil é,
pela primeira vez, maior que nas capitais

Maurício Lima

Fotos: Antonio Milena
Estudantes de Ouro Preto: mais de 100 repúblicas

A república das Minas Gerais é uma referência entre os universitários da cidade de Botucatu, a 220 quilômetros de São Paulo. Lá, seis estudantes universitárias dividem uma bela casa de três quartos, com uma cozinha enorme e duas geladeiras. De manhã, elas freqüentam as aulas no campus da Universidade Estadual Paulista, a Unesp. Na hora do almoço, tomam banho na Cachoeira da Marta, uma queda-d'água a dez minutos de onde moram. À tarde, mais aulas e uma partida de futebol na quadra da faculdade. Para completar, uma festa à noite na república vizinha, regada a muita cerveja e pinga de produção local. Poucas horas de sono e novamente aula. É tudo o que elas sempre sonharam: diversão, independência e estudo em doses bem suportáveis. As meninas sabem que estão levando uma vida bem diferente de quando moravam na casa dos pais em São Paulo. E essa diferença foi causada basicamente por uma escolha: na hora de fazer a opção do vestibular, elas quiseram estudar numa faculdade do interior. "Recomendo isso para todo mundo", diz Carolina Alvite, 21 anos, aluna de biologia. "É um vidão."

Milhares de jovens já seguiram a trajetória de Carolina e estão provocando uma profunda transformação no ensino superior brasileiro. Pela primeira vez, existem mais universitários em cidades pequenas e médias do que nas grandes capitais do país. Pelos últimos números divulgados pelo Ministério da Educação, MEC, as matrículas universitárias no interior cresceram 44% desde 1990, contra 31% nas capitais. São faculdades particulares e públicas abrindo vagas e filiais em regiões que até dez anos atrás eram apenas exportadoras de gente. O dado mais extraordinário é que essas universidades não estão recebendo primordialmente os alunos do município onde estão sediadas. Em média, 60% dos estudantes dessas escolas são forasteiros. A maioria esmagadora sai das capitais e o restante, de outras cidades do interior. É gente que deixa pela primeira vez o conforto da casa do papai para se graduar num município distante.

O crescimento do número de universitários no interior é um dos mais recentes efeitos do esgotamento das grandes metrópoles no Brasil. O êxodo rural, fenômeno intenso durante as décadas de 60, 70 e 80, acabou. Hoje há uma inversão no processo de migração dentro das fronteiras brasileiras e essa corrente de universitários que se dirigem para o interior é um dos aspectos do fenômeno geral. Estudo publicado no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, mostra que o segmento de população que mais cresce está concentrado em 180 cidades pequenas e médias. Nesses municípios, o número de habitantes aumenta a cada ano quase 60% mais do que a média nacional. A expansão demográfica é causada pela chegada de novos moradores, muitos desiludidos com a vida nas capitais. Relegado ao desprezo durante muito tempo, o interior do Brasil se descobriu e ganhou auto-estima. Hoje, shopping center, supermercado e emprego bem remunerado não são mais privilégios de grandes centros urbanos. "É uma corrente. A expansão econômica do interior trouxe gente e uma pressão por escolarização. A escolarização vai formar pessoas mais preparadas e as empresas virão atrás dessa mão-de-obra. Quando esse processo terminar, teremos um país com melhor distribuição demográfica", diz o cientista político Sérgio Abranches.

As repúblicas nos EUA

Cerca de 75% dos estabelecimentos de ensino superior nos Estados Unidos estão sediados fora das capitais. No interior existem universidades respeitadas como a Stanford University ou o Middlebury College. São instituições que recebem milhares de jovens de todas as partes do país. Ao chegar à universidade, os alunos de outras cidades têm basicamente duas opções de moradia: ou ficam no alojamento da faculdade ou passam a residir numa das noventa redes de república estudantil espalhadas pelo país. Essas repúblicas abrigam 6% dos 15 milhões de alunos dos Estados Unidos. Para ser admitido numa das "fraternidades" que mantêm as repúblicas é preciso passar por um período de estágio. No caso dos homens, os admitidos geralmente são os que se destacam em algum esporte e demonstram um grau de sociabilidade satisfatório para a vida em grupo. As vagas são muito disputadas e a vivência nessas comunidades é tão significativa que costuma ser adicionada por alguns estudantes ao currículo profissional. As casas das fraternidades têm no Brasil um equivalente meio distante nas repúblicas universitárias do interior, que são mais precárias e mais espontâneas. Mas tanto lá quanto aqui esse tipo de experiência garante bastante animação para os estudantes.

Nos Estados Unidos, o mapa das universidades é bastante descentralizado e contribuiu para que o país tenha o maior sistema de ensino superior do mundo. São 15 milhões de alunos, quase 75% estudando em municípios do interior. No Brasil, a estrutura sempre foi concentrada nas grandes cidades. O normal era que os estudantes de lugares menores fossem buscar o diploma na metrópole. Quando o contrário acontecia, era porque o aluno não tinha conseguido passar num curso da capital e acabava optando por um diploma numa faculdade mais fácil. Hoje, é diferente. Entre as doze melhores instituições do país, segundo o Provão de 1998, a metade está no interior. "São escolas que vêm investindo nos professores e procurando melhorar de ano para ano", diz Abílio Baeta Neves, secretário de Educação Superior do Ministério da Educação.

A Universidade Estadual de Londrina, a UEL do Paraná, é a terceira entre todas as universidades brasileiras na escala de avaliação fornecida pelo Provão, que dá nota aos cursos de graduação a partir de exames aplicados aos alunos. Dos oito cursos avaliados, quatro receberam triplo A do Ministério da Educação engenharia civil, veterinária, jornalismo e letras. Neste ano, 50% dos alunos da Estadual de Londrina responderam a um questionário dizendo que a qualidade do ensino foi a razão para eles se inscreverem na instituição. A Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, teve seis cursos avaliados com nota A no Provão (administração, odontologia, matemática, direito, jornalismo e letras). A Universidade Federal da Paraíba, em Campina Grande, é hoje o maior centro de graduação e pós-graduação em engenharia do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. E há vários exemplos assim.

A melhoria do ensino fora das capitais é apenas um dos aspectos positivos. Outro está na qualidade de vida que os universitários desfrutam nessas cidades. Nas últimas semanas, VEJA visitou Ouro Preto, em Minas Gerais, Botucatu, em São Paulo, Londrina, no Paraná, Campina Grande, na Paraíba, e Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para ver como os estudantes se viram nessas localidades. A primeira impressão é que há mais jovens pelas ruas do que em outras cidades. A vida noturna também é mais agitada. E a economia local recebe uma injeção impressionante de dinheiro graças à presença dos alunos forasteiros. Quando eles estão de férias, alguns lugares ficam às moscas. Uma pesquisa mostra que só os alunos da Unesp, espalhados por catorze campi no interior, injetam uma soma superior a 70 milhões de reais nos municípios em que vivem, a cada ano. "Ter uma universidade instalada numa cidade representa em média 30% de aumento de receita", diz o professor José Murari Bovo, autor da pesquisa.

Londrina: 70% dos alunos vieram de fora da cidade

No último vestibular da Universidade Estadual de Londrina, 27.000 candidatos invadiram de repente a região. O McDonald's local bateu um recorde: vendeu 7.500 lanches num só dia. Já existe em Londrina um condomínio de uma empresa particular que vende e aluga apartamentos apenas para estudantes. São imóveis pequenos, com 50 metros quadrados, bem próximos à universidade e com moradores na faixa dos 20 anos. O empreendimento veio em boa hora. A presença de alunos é tão grande na cidade que já está provocando problemas com proprietários de apartamento. Alguns não aceitam mais alugar para jovens. As reclamações são sempre as mesmas: muita gente, muito barulho e pouco cuidado com o imóvel. O estudante João Ives, 23 anos, foi rejeitado por três senhorios antes de conseguir alugar uma casa. Ele saiu de São Paulo com três amigos para cursar ciências sociais na UEL. Queria uma vida mais tranqüila. Hoje, fica na varanda de sua casa sorvendo uma cuia de chá-mate ("tererê") com os amigos da república Os Catuabas. "Já me sinto mais londrinense do que paulista", diz Ives.

Botucatu: banho de
cachoeira
entre as aulas

Nas universidades do interior, os jovens precisam reaprender quase tudo. As lições estão dentro e fora da sala de aula. A primeira tarefa é arrumar um lugar para morar. Um estudo feito pela professora Florence Kerr, do departamento de psiquiatria da Unesp, mostra que 90% dos alunos de fora da cidade se organizam em repúblicas. A média de moradores é de quatro pessoas. Logo cedo, aprendem que se não cumprirem suas obrigações ninguém vai fazer o serviço por eles. Na república dos Migué, em Botucatu, moram sete alunos de medicina. Nenhum deles é muito chegado ao serviço doméstico. Hoje, existem ali pelo menos quatro lâmpadas queimadas. A própria luz já foi cortada duas vezes. No mês passado, os folgados condôminos dessa comunidade deixaram de ter telefone em casa porque a operadora cancelou a linha por falta de pagamento. O desleixo parece um pacto dentro da casa. A geladeira, por exemplo, tem quatro potes abertos de maionese, quatro de mostarda e quatro de ketchup. E mais nada. "Todo mundo pegava a maionese do outro. Então botamos uma regra: cada um tem a sua", conta Tarso Adoni, que antes morava com a família no bairro do Alto de Pinheiros, em São Paulo.

É natural que os estudantes relaxem com a organização, principalmente no princípio da experiência fascinante de viver longe da vigilância paterna. De manhã, ninguém insiste dizendo que já está na hora de levantar. Se quiser faltar à aula, não haverá reprimendas. Tudo numa comunidade dessas é motivo para festa. E como é fácil fazer uma festa. Basta correr a informação de que "vai ter uma balada" em determinado endereço. Um grupo de cinqüenta estudantes de ambos os sexos aparece para dançar e beber cerveja. Cada um dá uma pequena contribuição financeira e a farra está garantida até o dia amanhecer. Em Ouro Preto, existem repúblicas com boate dentro de casa. A Maracangalha tem uma discoteca com 300 CDs e 200 LPs. A pista de dança funciona numa sala improvisada toda pintada de roxo e com equipamentos profissionais, como luz estroboscópica e globo de ouro. Pelo menos uma vez por semana, os catorze garotos da casa promovem uma festa para chamar os amigos e principalmente amigas das outras repúblicas. "Vamos até de manhã. Às vezes, saímos direto para as aulas", diz Ronaldo Barbosa, aluno de farmácia.

República Bico Doce: o difícil é falar ao telefone

Festa numa república:
cerveja e pinga

Os psicólogos acreditam que a experiência de morar longe é valiosa para o futuro desses jovens. Como o controle familiar é mais brando por causa da distância, duas situações de conflito muito comuns na relação entre pais e filhos são minimizadas. O primeiro caso é dos pais que fazem tudo para os adolescentes. Na ânsia de ajudar, eles criam jovens mimados e tiram a capacidade de iniciativa dos filhos. São aqueles jovens que acham muito natural ganhar um carro do pai aos 18 anos e um apartamento aos 21. O segundo caso é do adolescente que, por uma rebeldia sem causa, entra em atrito desnecessário com os pais. Em qualquer desses casos, sair mais cedo do ninho familiar contribui para o amadurecimento. "É o treinamento de independência perfeito para transformar uma criança em adulto", diz a psicóloga Ceres Alves de Araújo, da Universidade de São Paulo.

A vida em grupo requer uma boa dose de paciência e companheirismo. As pessoas são obrigadas a dividir tudo e abdicar de privacidade. O quarto é o mesmo. O telefone é o mesmo. O banheiro também. Muitas repúblicas têm um caderno de anotações em que cada um fica responsável por uma tarefa diferente. Um faz as compras do mês, o outro faz a feira, o terceiro paga as contas e assim por diante. O jovem aprende que ficar mais de quinze minutos no banheiro pode causar transtorno na agenda dos colegas. De todas as dificuldades, a maior é o telefone. Nas repúblicas femininas, a briga é feia. Na Bico Doce, em Ouro Preto, as condôminas do lugar mantêm a linha ocupada o dia inteiro. "São namorados, pais e mães de oito garotas. Ninguém consegue ligar para cá", diz Renata Siqueira, 22 anos.

Os pais desses estudantes costumam ficar preocupados com a liberdade excessiva que a circunstância de morar fora proporciona aos filhos. Mas curiosamente não se nota o destempero que pareceria natural. Apesar da falta de controle, o consumo de álcool nessas universidades do interior não é diferente do que acontece entre os jovens das capitais. No interior de São Paulo, quase 75% dos alunos responderam a um questionário dizendo que beberam alguma bebida alcoólica nos últimos trinta dias. Em São Paulo, capital, esse número é de 81%. "Isso prova que eles também fariam isso se estivessem morando com os pais", diz a professora Kerr. E quanto ao sexo? Esse é o assunto que deixa os pais de cabelo em pé. Não há pesquisa sobre o tema, mas o número de namoros é alto e a rotatividade muito grande. Nesses lugares, é natural que os rapazes durmam na casa das moças e as moças na dos rapazes. Longe da residência dos pais, a única diferença é que tudo é feito às claras e não em motéis ou no banco traseiro de carros. Nas repúblicas existe até uma lei para controlar a falta de espaço: quem chegar primeiro fica com o quarto. Os outros moradores daquele cômodo devem dormir na sala ou em outro lugar. Os estudantes Catiana Sgarbi, 25 anos, e Omar Carossa, 23, obedeciam a esse esquema e hoje têm um forte motivo para lembrar do tempo em que freqüentaram a Universidade Federal de Santa Maria: o nascimento da filha Natasha Luiza, de 6 meses.

Omar e Catiana: namoro resultou em gravidez
Repúbli dos Migué:
contas
atrasadas

Quando um filho vai estudar numa faculdade em outra cidade, a chance de que ele se instale por lá é grande. A primeira razão é que profissionais recém-formados encontram vagas com mais facilidade nesses municípios em expansão. Estima-se que 50% dos jovens já se deslocam para cursos no interior pensando nas oportunidades de trabalho no mercado local. Muitos dos que não vão com essa intenção acabam na maioria das vezes se enraizando. No início da mudança, os jovens ligam para casa todos os dias e voltam nos finais de semana para visitar os parentes. Depois de alguns meses, as ligações e as viagens para casa tornam-se menos freqüentes. Concluído o curso, o rapaz ou a moça tem amigos na cidade onde estudou, já se habituou a viver ali e em muitos casos não pensa em voltar para o lugar de origem. O baiano Alessandro Medeiros, 28 anos, foi para Campina Grande estudar engenharia. Completou o curso e agora faz pós-graduação na Universidade Federal da Paraíba, um dos grandes centros de pesquisa nessa área. Alessandro decidiu que não volta mais para a Bahia. "Esses jovens sabem o que estão fazendo. Ganham uma qualidade de vida exuberante, amadurecem mais rápido e vão lembrar desses anos de universidade para toda a vida", diz José Goldemberg, ex-ministro da Educação.

 
 


Com reportagem de Cristine Prestes, de Santa Maria,
e
Dina Duarte, de Campina Grande





 

 
 
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