A informática na sala de aula
"Os computadores chegaram às
escolas mas
ainda não trouxeram quase nada à educação"
Ilustração Ale
Setti
 |
Cedo se viu que os computadores poderiam vir a ter
um extraordinário papel na educação.
Substituiriam as máquinas de ensinar, em moda
naquele momento. Muito se tentou nessa direção
mas poucos foram os resultados. Passadas várias
décadas, os computadores enguiçam menos,
aprenderam mais gracinhas, ficaram mais fáceis
de usar e custam dramaticamente menos. A crônica
falta de software educativo já é coisa
do passado, hoje eles são disponíveis
aos milhares, entre lamentáveis, medíocres
e brilhantes, caros, baratos e de graça.
Com o passar do tempo, os usos vão sendo
refinados e novas utilidades são encontradas
para essa máquina fascinante que sempre foi
uma resposta à procura de problemas. Nos níveis
mais simples, treinam os alunos em fazer contas e
ensinam ortografia, atividades repetitivas e detestáveis
para os professores, exigindo deles uma paciência
que sobra nos computadores. Os processadores de texto
acabaram dominando o uso dos computadores pessoais.
E como aprender a escrever é uma das funções
mais nobres da escola, seu papel é aí
demonstravelmente positivo.
As simulações e os jogos são
talvez o uso em que os computadores melhor mostram
suas forças. Com poucos minutos, uma simulação
do sistema solar permite entender as estações
do ano melhor do que preleções e livros.
Uma equação do 2º grau desenhada
e redesenhada na tela com parâmetros diferentes
faz mágicas na cabeça do aluno. As planilhas
eletrônicas revolucionaram o pensamento quantitativo.
As bases de dados ensinam os raciocínios booleanos,
que apesar do nome pretensioso são um assunto
do cotidiano. Os discípulos de S. Pappert (matemático
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts cujo trabalho
resultou na linguagem educacional Logo) juram pelos
lucros intelectuais de aprender a programar e receitam
as tartarugas do Logo (softwares pedagógicos
que ensinam aos alunos noções de programação)
para todos os males. Nas novas versões do seu
pensamento, receitam internet para abrir a cabeça
dos alunos.
Há muitos usos e tanto mais pesquisas bem
conduzidas e controladas mostrando como os computadores
podem melhor educar os alunos. Seria de esperar que
o número crescente de computadores nas escolas,
sobretudo nos países ricos, tivesse começado
a mostrar as vantagens dessa revolução.
Infelizmente, assim não se passa. Há
um muro até hoje intransponível entre
os benefícios demonstrados em experimentos
controlados e o impacto nos sistemas de educação
do mundo real que permanecem pífios.
Nesses últimos, entram em cena os problemas
institucionais e a rejeição dos bons
usos pelas máquinas administrativas e educativas.
Há um lado puramente de preconceito, pavores
e rejeição emocional. E há um
lado prático não resolvido, pois os
usos mais criativos requerem mudanças na lógica
de funcionamento da escola (uma hora de aula é
pouco, os melhores usos requerem um tempo de preparação
que o sistema não remunera, os usos mais imaginativos
são interdisciplinares, embora os currículos
não o sejam). No fundo, como ao sair da escola
todos usarão computador, o que está
acontecendo é que muitas escolas dão
os rudimentos de como usá-lo. É alguma
coisa, mas é pouco.
É assim que os computadores chegam às
escolas, em massa nos países ricos, mas já
chegam também a praias tupiniquins. Eram execrados
e sofriam resistência, acabando guardados ou
enguiçados. Hoje são objeto de desejo
por parte das escolas. Mas tendem a permanecer à
margem do processo educativo. Algumas escolas e alguns
professores fazem bom uso deles. Mas o desafio de
com eles fazer melhorar globalmente o nível
de aprendizado permanece em aberto.
Diante do grande potencial que oferecem e da possibilidade
de que, ao despencar os seus custos, se tornem acessíveis
a quase todos, não há por que desistir.
Mas estamos longe da hora de cantar vitória.
Os computadores chegaram às escolas mas ainda
não trouxeram quase nada à educação.
A batalha está longe de ser vencida.
Claudio de Moura Castro
é economista
(Claudiomc@attglobal.net)