Saúde
dez, educação zero
Livros
e cursos procuram reabilitar
a
importância da etiqueta para crianças

Fernanda
Colavitti
Ilustração Attílio
 |
Numa
era em que a etiqueta é cada vez mais considerada como
firula de grã-fino e os garotos mal-educados (mas divertidos)
do desenho americano South Park foram elevados à
categoria de super-heróis da criançada, cultivar
bons modos virou um pesadelo para pais, mães e professores.
Não se está falando aqui de coisa muito refinada,
como esgrimir garfo e faca com eficiência na hora de
desossar uma escorregadia codorna. Fala-se do ritual simples
do "por favor", "obrigado" e "até logo", palavrinhas
em desuso no vocabulário mirim. Aflições
desse tipo levaram uma das mais respeitadas consultoras em
etiqueta para empresários e executivos, Suzana Doblinski,
a descobrir um novo filão de trabalho. Fundadora de
um instituto que leva seu nome e atende à demanda de
cursos e palestras em corporações, ela está
lançando o livro Não Fale de Boca Cheia,
em parceria com Albertina Costa Ruiz, pela Editora Mundo Cristão.
O título resume bem aquele que talvez seja um dos preceitos
mais elementares repetidos pelos adultos para a garotada.
Verificando o comportamento de seus filhos com um olhar pelo
menos um pouquinho crítico, você mesmo pode atestar
que esse é um mercado promissor. Nas prateleiras das
livrarias há outros volumes dedicados exclusivamente
ao assunto, como Etiqueta na Prática para Crianças,
da consultora Célia Ribeiro; Modos e Maneiras,
da psicóloga Beatriz Monteiro da Cunha; e E o que
Eu Faço com Essa Tal de "Boas Maneiras"?, da psicopedagoga
Ana Maria Santana Martins. Até mesmo a nova versão
do celebrado O Livro Completo de Etiqueta de Amy Vanderbilt,
lançado no final do ano passado no Brasil e considerado
a bíblia americana no setor, inclui alguns tópicos
sobre o comportamento da garotada. Esse crescente interesse
pela etiqueta infantil tem explicação. De acordo
com a educadora Tania Zagury, autora de Limites sem Trauma,
na lista dos mais vendidos de VEJA, a falta de tempo é
um dos possíveis responsáveis pela procura de
complementos à educação dos filhos. "Hoje
em dia os pais têm menos contato com as crianças,
por causa da correria diária. Antigamente, quando as
mães ficavam em casa, elas mesmas ensinavam boas maneiras
aos filhos, o que tem ficado difícil com a maior parte
delas no mercado de trabalho", avalia. "As crianças
estão se tornando mal-educadas por falta de tempo dos
pais", comprova a professora Rosália Alvim Saraiva,
mestre em educação pela Pontifícia Universidade
Católica (PUC) do Rio Grande do Sul.
Marcos Issa/Argos
 |
"Não
são poucos os executivos que deixam muito a desejar
no quesito das boas maneiras. Ensinar etiqueta para
crianças é um meio de prepará-las
para o futuro profissional. A educação
é fator importante na hora de fechar um negócio."
Suzana
Doblinski, uma das autoras de Não Fale
de Boca Cheia
|
Atentas
à tendência, algumas escolas particulares passaram
a se preocupar com os bons modos dos alunos. Em São
Paulo, os colégios Porto Seguro, Pueri Domus, Mackenzie,
Pentágono e Stocco (este em Santo André, cidade
do ABC paulista) desenvolvem projetos sobre o assunto com
crianças da 1ª à 4ª série.
Em Porto Alegre, há a experiência da escola Nossa
Senhora do Bom Conselho, que procura reforçar o tema
nas classes do ensino fundamental. O Instituto Doblinski começou
a oferecer orientação para a garotada a pedido
dos próprios empresários que acompanhavam seus
cursos regulares cerca de 500 crianças e adolescentes
já tiveram aulas. Outra iniciativa é do hotel
Maksoud Plaza, também em São Paulo, sob a coordenação
da professora Ligia Marques.
De maneira geral, nesses livros e cursos os ensinamentos não
estão restritos ao manuseio correto dos talheres, às
formas polidas de tratamento ou a como se comportar na festinha
do amigo, embora esses temas também sejam abordados.
As lições vão além e dão
bastante ênfase às noções de relacionamento,
à socialização e até aos hábitos
de higiene das crianças. O objetivo é resgatar
algumas atitudes valiosas de convivência que estão
sendo esquecidas. "Muitas crianças não são
mais capazes de pedir licença ou desculpas", observa
a educadora Rosália Saraiva, de Porto Alegre. Nessa
categoria de atitudes civilizadas entram orientações
sobre a importância da pontualidade, de respeitar filas,
não fazer barulho em lugares que exigem silêncio,
como cinema, teatro e biblioteca, organizar a bagunça
em casa e conviver de maneira amistosa com irmãos,
professores e amigos. Sinal dos tempos, estão incluídas
regras importantes sobre segurança, como não
fornecer endereço, número de telefone ou localização
da escola ao conhecer pessoas pela internet. Ou ainda não
se aproximar de desconhecidos na rua e não reagir a
assalto. A consultora Célia Ribeiro explica que, para
aprender realmente a se comportar de maneira adequada, a garotada
tem de ser estimulada pelos pais, que devem dar o exemplo
em casa e mostrar a utilidade prática daquilo. "Não
adianta a criança aprender que não é
educado gritar ou falar palavrões se quando chega em
casa é exatamente o que vê os pais fazerem",
explica.
Saiba
mais
|
|
|
|
|