Anjo
dos Alagados
Ela
decidiu viver numa favela sobre
o mangue em Salvador e alfabetizou
8 000 crianças
Leonardo
Coutinho
Fernando Vivas
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| Vera
entre seus alunos: a vida em Alagados não era "pura
poesia" |
Em
alguns bairros de Salvador a taxa de analfabetismo chega a
40% da população. Entre os moradores da favela
dos Alagados, cai para 4%, menos de um terço da taxa
nacional. Na população daquele local com idade
até 25 anos é ainda menor, 1,9%. Esse é
um milagre edificado com muito trabalho pela professora aposentada
Vera Lazzarotto, que há 24 anos trocou um apartamento
na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, por uma palafita
na região mais insalubre da Baía de Todos os
Santos. Em 1976, Vera abandonou o emprego numa escola de militares
e recusou um convite para ser professora-assistente num curso
de mestrado. Influenciada pelas teorias do educador Paulo
Freire, optou por viver entre os pobres. Construiu uma casa
de madeira sobre o mangue de Alagados, com esgoto passando
sob o piso. Pouco depois, juntando donativos, fez também
uma escola para setenta crianças, num galpão
em cima do lamaçal. Na época, o bairro abrigava
70.000 pessoas, retirantes, vítimas
de despejos e desapropriações.
"Eu
achava que nunca entenderia as necessidades destas pessoas
se não vivesse com elas", explica Vera, que hoje, aos
65 anos, tem ex-alunos já transformados em professores
de sua Escola Popular Novos Alagados. Ao todo, só nos
cursos regulares, ela alfabetizou mais de 8.000
crianças. Sua primeira escola foi a única do
bairro por cinco anos. Hoje há mais duas, também
construídas com o que Vera conseguiu arrecadar. O cenário
de Alagados mudou um pouco nesse período, depois de
vários programas que removeram favelados. Um desses
projetos alcançou, há dez anos, o barraco de
madeira de Vera, que, como muitos de seus vizinhos, se mudou
para uma pequena casa de tijolos, com telhas de amianto, feita
numa área aterrada. Restam 15.000
habitantes em Alagados, 30% deles vivendo nas palafitas, sem
água encanada e com precário abastecimento de
eletricidade. Nesses anos todos, Vera viu treze crianças
morrerem vítimas de choques elétricos no emaranhado
de fios que correm entre os barracos. Boa parte da população
de Alagados tem cicatrizes no corpo, resultado de quedas das
passarelas sobre o lodaçal e os tocos que sustentaram
antigas construções.
Quando chegou à favela, Vera tinha o nome de solteira,
Machado, e integrou-se a um trabalho de educação
conduzido por um filósofo italiano ligado a instituições
leigas de caridade. Esse homem, Antonio Lazzarotto, trabalhava
com os pescadores de Alagados e viria a se casar com ela dali
a um ano. Hoje, aposentado, ele ainda é um líder
comunitário. Depois de algum tempo tendo de carregar
água numa lata e lavando roupa numa bacia, Vera já
não achava mais que a vida simples dos habitantes do
lugar era "pura poesia", como acreditara. Tornou-se professora
na Universidade Federal da Bahia, mas continuou morando no
mangue. No bairro pobre, todos sempre souberam de seu padrão
de vida, muito superior ao deles, e isso nunca causou nenhum
problema. Há dois anos, ela foi a única professora
da América Latina a figurar numa publicação
da Unesco sobre dez educadores que trabalham em condições
extremas. Depois disso, obteve a doação de maquinário
para um curso profissionalizante e reforço de caixa
para enfrentar despesas que já passam dos 250.000
reais por ano. "Sou uma mulher realizada", define-se Vera,
cuja opção foi construir uma obra social com
suas próprias mãos.
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