Edição 1 645 -19/4/2000

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Onde está a resposta?

A proliferação de teorias faz com que os pais
fiquem perdidos ao educar os filhos

Adriana Setti


Antonio Milena
Adriana e Cristiano, com a filha Giulia: medo de errar


Colocar um CD de Mozart ajuda no desenvolvimento cerebral do bebê? Qual a idade ideal para matricular a criança no inglês? Como devo me comportar quando o primeiro namorado da minha filha aparecer lá em casa? Pais e mães costumam ter um vasto repertório de perguntas quando o assunto é a educação de seus filhos. Para ajudá-los nessa aventura, há nada menos do que 500 títulos dedicados a esse tema nas prateleiras das livrarias e, todos os dias, surge pelo menos uma pesquisa com conselhos sobre criação de filhos. Portanto, não é por falta de informação que os pais terão problemas ao educar a criançada. A questão agora é o excesso, o que dá muitas vezes na mesma.

Há quinze dias, a Academia Americana de Pediatria divulgou um estudo mostrando que crianças muito jovens não estão suficientemente desenvolvidas para nadar. Quando praticam o esporte muito cedo, correm o risco de sofrer contusões e estão expostas até mesmo a afogamentos. Antes, pensava-se que nadar cedo dava tranqüilidade e desenvolvia a criança fisicamente. Quer dizer: os pais matricularam o filho na natação achando que poderiam melhorar as habilidades psicomotoras dele. Dois anos depois, dizem que durante esse tempo todo eles, na verdade, estavam arriscando a vida do menino. Até pouco tempo, acreditava-se que a criança tinha uma fase de aprendizado espetacular entre seu nascimento e os 3 anos de idade. As habilidades para música, artes ou línguas deveriam ser estimuladas nesse momento. A tese dizia que essa época era tão importante que todo o futuro da criança ficava definido ali. Os pais, é claro, teriam de aproveitar essa ocasião. Sabe-se hoje que a correria não tem necessidade. A capacidade de aprendizado de uma criança não diminui após os 3 anos de idade. Ela mantém a janela de oportunidades aberta pelo menos até o início da adolescência.

A maior preocupação do casal Adriana e Cristiano Lombardi, de 31 anos, era que sua filha Giulia, de 3, tivesse dificuldade para brincar com outras crianças. Os pais liam sem parar sobre o assunto, perguntavam as razões desse comportamento ao pediatra e — com a leitura de livros e teses — formularam várias teorias para explicar as dificuldades de Giulia. Quando a menina foi para a escola, o problema acabou e Giulia tornou-se sociável. Não havia razão para tanta ansiedade. Os especialistas têm várias teorias para explicar essa ansiedade. Muitos pais estariam tentando, de alguma forma, garantir aos filhos um padrão de educação que gostariam de ter tido. Há aqueles que não suportam a idéia de imaginar que os filhos um dia possam estar pensando o mesmo em relação à criação que tiveram — daí a preocupação excessiva em fazer tudo certinho, daí a atitude muitas vezes compulsiva de buscar a última novidade. Quando esse sentimento é muito forte — cuidado, pais! —, detalhes comezinhos fazem toda a diferença. Como o coleguinha da classe do meu filho já diz com clareza frases inteiras em inglês e o meu nem sabe que o book está on the table?

A incerteza na criação dos filhos é um dilema recente. No início do século XX, os pais não tinham dúvidas sobre que valores e ensinamentos deveriam passar para sua descendência. Em geral, reproduziam aquilo que tinham aprendido com seus próprios pais. Faziam parte dessa lista ensinamentos cristalizados como religião, disciplina e o extremo respeito à família. Os papéis de cada um dentro de casa eram bem definidos. A autoridade era exercida pelo pai, que tinha respostas para tudo. Os outros, incluindo a mulher e os filhos, obedeciam cegamente. E ai de quem duvidasse da sabedoria paterna. Ele sabia o que era melhor para seus filhos. Nos últimos tempos, toda essa estrutura foi sacudida. A mãe saiu de casa, arrumou emprego e tem tanto destaque quanto o pai na regência do lar. Os filhos são mais contestadores e não aceitam dogmas transmitidos de geração para geração. Atento a essa transformação familiar, o mundo também mudou. Os pais ganharam mais fontes de informação, mas se tornaram menos seguros.

O avanço da ciência tem papel importante na vida desse novo pai. São os cientistas — psicólogos, pedagogos e pediatras — que tentam indicar o caminho a ser percorrido. Com base em pesquisas, tiram conclusões sobre cada passo do desenvolvimento da criança. Sem ficar ansiosos, os pais podem seguir a rota proposta, sem medo algum. Depois que aparece um novo estudo mostrando outra tendência, podem consertar novamente a direção. Também sem hesitação. Em geral, a sensação de estar no caminho errado é mais forte do que o erro em si. Por segurança, os especialistas recomendam que os pais se guiem por sua própria intuição. Aquilo que leu em uma revista não faz muito sentido para você? Seu bebê começou a berrar diante do mais moderno brinquedo educativo da loja? Então esqueça e parta para outra. "É preciso tomar cuidado para não transformar a criança em uma cobaia de laboratório", diz a psicopedagoga Sílvia Amaral de Mello Pinto, coordenadora do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento, uma clínica de São Paulo.

 

 

 

 
 
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