Onde está a resposta?
A proliferação
de teorias faz com que os pais
fiquem perdidos ao educar os filhos
Adriana Setti
| Antonio Milena |
 |
| Adriana
e
Cristiano, com a filha Giulia: medo de errar |
Colocar um CD de Mozart ajuda no desenvolvimento cerebral
do bebê? Qual a idade ideal para matricular
a criança no inglês? Como devo me comportar
quando o primeiro namorado da minha filha aparecer
lá em casa? Pais e mães costumam ter
um vasto repertório de perguntas quando o assunto
é a educação de seus filhos.
Para ajudá-los nessa aventura, há nada
menos do que 500 títulos dedicados a esse tema
nas prateleiras das livrarias e, todos os dias, surge
pelo menos uma pesquisa com conselhos sobre criação
de filhos. Portanto, não é por falta
de informação que os pais terão
problemas ao educar a criançada. A questão
agora é o excesso, o que dá muitas vezes
na mesma.
Há quinze dias, a Academia
Americana de Pediatria divulgou um estudo mostrando
que crianças muito jovens não estão
suficientemente desenvolvidas para nadar. Quando praticam
o esporte muito cedo, correm o risco de sofrer contusões
e estão expostas até mesmo a afogamentos.
Antes, pensava-se que nadar cedo dava tranqüilidade
e desenvolvia a criança fisicamente. Quer dizer:
os pais matricularam o filho na natação
achando que poderiam melhorar as habilidades psicomotoras
dele. Dois anos depois, dizem que durante esse tempo
todo eles, na verdade, estavam arriscando a vida do
menino. Até pouco tempo, acreditava-se que
a criança tinha uma fase de aprendizado espetacular
entre seu nascimento e os 3 anos de idade. As habilidades
para música, artes ou línguas deveriam
ser estimuladas nesse momento. A tese dizia que essa
época era tão importante que todo o
futuro da criança ficava definido ali. Os pais,
é claro, teriam de aproveitar essa ocasião.
Sabe-se hoje que a correria não tem necessidade.
A capacidade de aprendizado de uma criança
não diminui após os 3 anos de idade.
Ela mantém a janela de oportunidades aberta
pelo menos até o início da adolescência.
A maior preocupação
do casal Adriana e Cristiano Lombardi, de 31 anos,
era que sua filha Giulia, de 3, tivesse dificuldade
para brincar com outras crianças. Os pais liam
sem parar sobre o assunto, perguntavam as razões
desse comportamento ao pediatra e com a leitura
de livros e teses formularam várias
teorias para explicar as dificuldades de Giulia. Quando
a menina foi para a escola, o problema acabou e Giulia
tornou-se sociável. Não havia razão
para tanta ansiedade. Os especialistas têm várias
teorias para explicar essa ansiedade. Muitos pais
estariam tentando, de alguma forma, garantir aos filhos
um padrão de educação que gostariam
de ter tido. Há aqueles que não suportam
a idéia de imaginar que os filhos um dia possam
estar pensando o mesmo em relação à
criação que tiveram daí
a preocupação excessiva em fazer tudo
certinho, daí a atitude muitas vezes compulsiva
de buscar a última novidade. Quando esse sentimento
é muito forte cuidado, pais! ,
detalhes comezinhos fazem toda a diferença.
Como o coleguinha da classe do meu filho já
diz com clareza frases inteiras em inglês e
o meu nem sabe que o book está on
the table?
A incerteza na criação
dos filhos é um dilema recente. No início
do século XX, os pais não tinham dúvidas
sobre que valores e ensinamentos deveriam passar para
sua descendência. Em geral, reproduziam aquilo
que tinham aprendido com seus próprios pais.
Faziam parte dessa lista ensinamentos cristalizados
como religião, disciplina e o extremo respeito
à família. Os papéis de cada
um dentro de casa eram bem definidos. A autoridade
era exercida pelo pai, que tinha respostas para tudo.
Os outros, incluindo a mulher e os filhos, obedeciam
cegamente. E ai de quem duvidasse da sabedoria paterna.
Ele sabia o que era melhor para seus filhos. Nos últimos
tempos, toda essa estrutura foi sacudida. A mãe
saiu de casa, arrumou emprego e tem tanto destaque
quanto o pai na regência do lar. Os filhos são
mais contestadores e não aceitam dogmas transmitidos
de geração para geração.
Atento a essa transformação familiar,
o mundo também mudou. Os pais ganharam mais
fontes de informação, mas se tornaram
menos seguros.
O avanço da ciência
tem papel importante na vida desse novo pai. São
os cientistas psicólogos, pedagogos
e pediatras que tentam indicar o caminho a
ser percorrido. Com base em pesquisas, tiram conclusões
sobre cada passo do desenvolvimento da criança.
Sem ficar ansiosos, os pais podem seguir a rota proposta,
sem medo algum. Depois que aparece um novo estudo
mostrando outra tendência, podem consertar novamente
a direção. Também sem hesitação.
Em geral, a sensação de estar no caminho
errado é mais forte do que o erro em si. Por
segurança, os especialistas recomendam que
os pais se guiem por sua própria intuição.
Aquilo que leu em uma revista não faz muito
sentido para você? Seu bebê começou
a berrar diante do mais moderno brinquedo educativo
da loja? Então esqueça e parta para
outra. "É preciso tomar cuidado para não
transformar a criança em uma cobaia de laboratório",
diz a psicopedagoga Sílvia Amaral de Mello
Pinto, coordenadora do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento,
uma clínica de São Paulo.
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