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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
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Claudio de Moura Castro

Tecnologia em
escolas de ofício?

"O Senai vira algo muito diferente das
tradicionais escolas vocacionais para formar
mecânicos e eletricistas e entra no território
sagrado da Pesquisa e Desenvolvimento"


       Ilustração Ale Setti


Em meados dos anos 70, visitando a Escola do Senai de Mecânica de Precisão (SP), encontrei instrutores trabalhando em projetos de pesquisa, atendendo a contratos com empresas. Lembro-me de um grupo fabricando uma impressora matricial e tentando dar têmpera em agulhas para a cabeça. O diretor, Walter Viccioni, por iniciativa própria, transformava sua escola em um centro de desenvolvimento tecnológico. O Senai-SP não dava bênção nem atrapalhava.

Anos mais tarde, visitei outros projetos do gênero, pipocando aqui e acolá. Uma impressora para pôr o nome do cliente nos cheques e um kit para transformar em controle numérico um torno de manivela convencional estavam sendo produzidos na Escola Roberto Simonsen. No Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil (Cetiqt) havia uma profusão de projetos, incluindo a otimização de mistura de corantes e a padronização de uniformes de lixeiro e das cores da bandeira nacional. Comecei a me dar conta de que o Senai estava tomando novos rumos. Virava algo muito diferente das tradicionais escolas vocacionais para formar mecânicos e eletricistas. Entrava no território sagrado da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

Isso tudo acontecia diante da mais olímpica omissão da maioria de nossas escolas de engenharia, mais dedicadas a preparar generalistas com respingos de tecnologia. Nossos mestrados e doutorados não fazem feio na pesquisa, mas até recentemente não eram muito chegados a fazer coisas simples, encomendadas pelas indústrias.

Na órbita da Capes, CNPq e Finep se produzem todos os decibéis exaltando ciência e tecnologia brasileiras ou denunciando sua ausência. Escreve-se muito e se fala mais ainda sobre P&D. Mas, em meio à falação, há um ator que nem fala nem é falado: o Senai. Após ver tantos exemplos de P&D sendo feitos silenciosamente em suas oficinas, perguntei-me se, discretamente, essa instituição não se teria tornado um fabricante de P&D de certo porte? Como as velhas gerações do Senai resistiam a tal evolução, tudo ocorria discretamente, sem que alguém sequer desse um balanço que pudesse responder a uma pergunta simples: o que o Senai faz em matéria de pesquisa tecnológica aplicada?

Sugeri ao diretor-geral do Senai que fizesse um levantamento, enumerando o que estava acontecendo dentro de seus muros em matéria de P&D. A idéia teve boa acolhida, e Luiz Antonio Caruso conduziu um estudo cuidadoso, mostrando o que poderíamos até suspeitar mas não sabíamos com segurança: o Senai se tornou um enorme produtor de P&D para as indústrias brasileiras. Com 317 projetos substanciais em curso – distribuídos entre 46 centros –, é provavelmente um dos maiores produtores de tecnologia no Brasil, operando sob a mesma bandeira. Esses projetos mobilizam mais de 300 técnicos e engenheiros. De seu bojo saíram também quinze patentes (número modestíssimo para país rico, mas alto para a realidade brasileira).

De uma amostra de cinqüenta projetos, cujos clientes foram consultados, 46 haviam dado bons resultados. Em marcado contraste com a tradição universitária de criar tecnologia "de prateleira" ou "pesquisa aplicada que ninguém aplica", o Senai atende predominantemente a indústria, com projetos em que em 81% dos casos há engenheiros ou técnicos da empresa interessada compartilhando o trabalho – além de professores universitários. Ou seja, o Senai virou gente grande na P&D brasileira. Obviamente, isso tem implicações tanto para o Senai como para o cenário nacional.

Para o Senai, essa maioridade significa que não pode, ou melhor, não deve ser tão vago e tão pouco agressivo em suas políticas para a área. Afinal, é um dos grandes atores nacionais. Note-se que o Senai somente consegue atender a 40% da demanda que chega das empresas. Que inveja para as instituições cujo principal problema é a incapacidade de vender projetos às empresas! Segundo a pesquisa, as indústrias confiam no Senai. Mais ainda, este encontra uma grande facilidade de mobilizar fundos públicos para financiar seus projetos.

E se com uma política de "negligência benigna" já produz tanto, imagine-se uma outra que agressivamente impulsione o Senai para a pesquisa. Falta uma atitude mais deliberada no apoio às pesquisas e faltam regras concretas que facilitem e empurrem as escolas para produzir mais. De fato, as travas presentes são fáceis de eliminar, e um volume maior de operações não oneraria seus cofres. Pelo contrário, pode suplementá-los. Parece pecado mortal não aproveitar tantas oportunidades em um país onde parte do que falta para P&D industrial é exatamente o que o Senai tem. E por que não avançar mais nos vácuos de ensino deixados pelas escolas de engenharia?

As implicações externas não são menos importantes. Temos um novo ator, competente e produtivo no cenário de nossa pesquisa tecnológica aplicada. Mas o Senai não é ouvido nem representado nos fóruns onde se discute política tecnológica. O Ministério da Ciência e Tecnologia pouco nota sua existência. Claramente isso é equivocado e ineficiente para o país. Quem faz deve poder falar e palpitar onde se discutem tais assuntos.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

 
   
   
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