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Edição 1 722 - 17 de outubro de 2001
Entrevista: José Henrique Vilhena

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"Assim não dá"

Reitor da UFRJ admite falhas da
universidade e diz que a culpa é
do corporativismo de professores
e funcionários

Lucila Soares


SelmyYassuda
"Existe hoje uma espécie de greve permanente. Todas as propostas de mudança são barradas"

O professor José Henrique Vilhena, de 57 anos, passou a maior parte de sua vida acadêmica longe dos holofotes. Há três anos, quando foi alçado ao posto de reitor da maior e uma das mais antigas universidades federais do país, entrou no olho do furacão e não saiu mais. Primeiro foi o polêmico processo eleitoral, em que acabou escolhido para o cargo máximo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pelo ministro Paulo Renato Souza sem o apoio da maior parte da comunidade universitária – foi o terceiro mais votado de uma lista tríplice. Vilhena enfrentou protestos de todos os lados e, de lá para cá, administra um gigante que tem mais de 25.000 alunos, 3.000 professores e um batalhão de 9.000 funcionários. Agora, em meio a uma ruidosa greve das universidades federais, paradas há quase dois meses, o reitor volta à cena para denunciar que o ensino superior não está cumprindo sua missão de educar a população. Currículos antiquados e estrutura burocrática emperrada estão entre os problemas apontados por Vilhena. "Existe uma doença que ataca a graduação das universidades, o corporativismo", diz ele. "Vivemos em estado de greve permanente, em que todas as propostas de mudança são barradas." Na semana passada, Vilhena falou a VEJA durante três horas.

Veja – O Brasil tem hoje 2,5 milhões de jovens matriculados no ensino superior, sendo 440.000 nas universidades públicas federais. Qual sua avaliação sobre a formação que eles estão recebendo? O sistema público de ensino universitário está cumprindo seu papel?
Vilhena – Apenas parcialmente. A rede de pós-graduação funciona muito bem. Nos últimos trinta anos ela vem crescendo, melhorando em qualidade, formando bons quadros e tem uma produtividade excelente. Mas a graduação está muito longe de qualquer padrão aceitável. Como os cursos de graduação são ruins, não educam bem as pessoas.

Veja – Quais são os problemas?
Vilhena – Os cursos, em sua maioria, são longos demais e antiquados. Na área tecnológica, por exemplo, não incorporam todos os avanços proporcionados pelas descobertas da pesquisa com a rapidez que deveriam. Em conseqüência, a produtividade é baixíssima. Nas universidades federais, formamos um aluno por professor a cada ano. Temos 50 000 professores e formamos 50.000 alunos, na média do país. A média internacional das grandes universidades é de quatro alunos por professor. Isso significa que, nos países desenvolvidos, as instituições universitárias geram quatro vezes mais qualificação. Um país como o nosso, que tem essa imensa necessidade de qualificar sua população, deveria estar acima dessa média, não abaixo. Hoje, a universidade brasileira atende apenas 7,7% dos jovens entre 20 e 24 anos. Se ampliarmos essa faixa para 20 a 30 anos, o porcentual sobe para 13%, contra 40% na Argentina, 60% na França, 80% nos Estados Unidos. Precisamos pensar nisso, se quisermos ter condições de competir internacionalmente.

Veja – Por que isso acontece?
Vilhena –
Existe uma doença que ataca várias áreas do país e, na universidade, está concentrada na graduação. É o corporativismo. Seu efeito é devastador. Cria um estado de greve permanente. Todas as propostas são barradas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, temos projetos de dez cursos novos de graduação, em áreas que hoje têm grande demanda por profissionais, como turismo, biotecnologia e saúde pública. Estamos trabalhando para implantar cursos noturnos e atender os alunos que trabalham durante o dia. No entanto, nenhuma dessas ações consegue aprovação dos conselhos universitários, formados pelos professores. É um problema grave e ocorre em várias outras universidades país afora.

Veja – Quais são os argumentos contra essas mudanças?
Vilhena –
O principal é que a quantidade prejudica a qualidade, o que não é verdade. O papel da graduação é formar em larga escala. Aqui mesmo, no Brasil, temos um exemplo maravilhoso do que estou defendendo. No início dos anos 60, durante o governo João Goulart, o professor Darcy Ribeiro era ministro da Educação e propôs a duplicação do número de vagas nas universidades federais. Enfrentou uma oposição ferrenha, sob pretexto de que se iria baixar a qualidade. E o que aconteceu quando finalmente se dobrou o número de vagas? Eu me lembro bem porque vivi essa época e tive vários colegas nessa situação. Os alunos que conseguiram entrar para dividir espaço com a pequena elite que dominava o acesso à universidade chegaram a fazer mestrado ou doutorado no exterior. Foi uma revolução. Não baixou a qualidade, não. Ao contrário.

Veja – O senhor não acha que a qualidade já é um problema hoje? O resultado das avaliações promovidas pelo Ministério da Educação tem sido um desastre.
Vilhena – O melhor mecanismo de avaliação é o Provão. O problema é que ele não tem tido conseqüência. Os cursos mal avaliados não vêm sendo fechados. Nós precisamos que os jovens estejam cursando universidade, sim, mas para ser verdadeiramente qualificados. É um erro dizer que fechar um curso universitário é péssimo. Não é. É ótimo fechar cursos ruins.

Veja – O senhor diz que os cursos são muito longos. Por que isso acontece?
Vilhena –
Porque eles foram formatados na década de 60, numa época em que o aluno terminava o curso de graduação e só voltava se quisesse seguir carreira acadêmica. Hoje, não. Um ano é o período máximo para a pessoa voltar e se requalificar numa área específica. Antigamente só continuava estudando aquele professor que ficava na universidade. Agora, a população inteira precisa estudar, e a universidade deve suprir essa necessidade. Para isso, ela tem de ser mais ágil. Precisa ter pesquisa, pós-graduação e graduação de qualidade. Isso significa, entre outras coisas, ter cursos mais curtos e mais básicos. É o que se faz em todo lugar do mundo. Em Cambridge, por exemplo, uma das melhores universidades da Inglaterra e do mundo, o curso de engenharia tem três anos e meio de duração – e ninguém pode dizer que seja um mau curso, que os ingleses não sabem construir pontes ou fabricar aviões.

Veja – Para quem não puder continuar a estudar, essa mudança não vai significar formação deficiente?
Vilhena –
O problema não é a duração em si. A questão central é que hoje o corporativismo não respeita nem a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional, que determina um ano letivo de 200 dias úteis. A não ser nos cursos de medicina, o sistema atual funciona em 150 dias úteis por ano. Se a lei for respeitada, ganha-se tempo e pode-se encurtar a duração do curso sem perder nada. Com 200 dias úteis, é possível dividir o ano letivo em quatro blocos, ou até mais, e ganhar em dinamismo. No caso de jovens que vêm do ensino médio com pouca qualificação, você pode usar parte desse tempo adicional para recuperá-los.

Veja – Com isso a universidade não estaria incorporando funções que, na verdade, não são dela?
Vilhena –
O ensino médio não é uma coisa inteiramente desvinculada da universidade. Quem forma os professores do ensino médio e do ensino básico hoje no Brasil? São as universidades. E estamos formando muito menos professores que o necessário. Segundo o IBGE, seria preciso diplomar 230 000 professores por ano. Hoje, todo o sistema universitário forma 86 000 professores, e boa parte não vai trabalhar em sala de aula. É um déficit enorme.

Veja – Esse déficit não seria resultado da desvalorização do magistério? Quem ainda quer ser professor no ensino básico e no médio?
Vilhena –
É claro que existe um problema salarial, e isso tem de ser resolvido com os governadores e os prefeitos. Ainda assim, muita gente quer ser professor. O problema principal é a falta de uma política de formação de docentes. Sobre isso, é importante lembrar que a sociedade nos pagou graduação, mestrado e doutorado – a esmagadora maioria dos professores das universidades públicas estudou, como eu, em escola pública. No Brasil, a massa de pessoas qualificadas está nas universidades públicas e num pequeno grupo das particulares. Então, nós é que temos de dar solução aos grandes problemas do país. Alguém tem de ligar o motor de arranque, e esse alguém é quem recebeu mais benefícios da sociedade. Somos nós.

Veja – A estrutura universitária hoje é capaz de absorver essa proposta de mudança?
Vilhena – Sim. Temos professores da melhor qualidade. Além disso, na graduação a relação entre o número de professores e o de alunos não está balanceada. Cada professor tem espaço para mais três alunos. Mas é claro que precisamos de instrumentos para estimular a produtividade. Na pós-graduação, a bolsa está ligada à produção e à qualidade dessa produção. Quem está fora do padrão de qualidade tem a bolsa cortada. Na graduação não existem mecanismos para punir quem é incompetente nem para incentivar a eficiência. E deveriam existir. É perfeitamente possível estabelecer metas e uma remuneração variável de acordo com o cumprimento dessas metas.

Veja – Que outras medidas seriam necessárias?
Vilhena –
Na área administrativa, há estruturas que podem ser modificadas. Por exemplo, é preciso remanejar professores, coordenadores de cursos e funcionários administrativos. Para isso, é importante que tenhamos também um reposicionamento no plano de cargos, que na prática significa colocar pessoal que está inoperante em outras áreas para trabalhar. Vou dar um exemplo próximo a mim, mas que é ilustrativo. Nós temos hoje na Universidade Federal do Rio de Janeiro 108 funções gratificadas sem nenhuma função acadêmica. São as decanias. Cada um dos seis decanos tem lá um grupo de assessores. Eles não fazem nada. Todas as funções que tinham deixaram de existir, porque elas nunca funcionaram. No entanto, elas continuam lá. Deveriam assumir novas atribuições, mas o corporativismo não deixa.

Veja – Sim, mas se eles continuam comparecendo ao expediente de trabalho devem ter ainda alguma função.
Vilhena – Não têm, fazem futrica o dia inteiro.

Veja – Quando o senhor fala de qualificação em massa, isso inclui também alguma proposta de ampliação do acesso à universidade?
Vilhena –
Inclui, claro. Mas não pelo puro e simples sistema de cotas para negros, porque isso já se mostrou um erro nos Estados Unidos. O caminho é melhorar o ensino médio. É importante apoiar as escolas – sobretudo as públicas – que têm dificuldade de aprovar seus alunos nas universidades. Não adianta selecionar alunos pela cor da pele e pronto. Eles têm de entrar por qualificação, mas para isso precisam ser apoiados. A universidade pode e deve partir para um projeto de adoção de escolas. Alunos e professores podem participar disso. A lei 10.172, de janeiro deste ano, determina que 10% do tempo do aluno do ensino superior seja usado em cursos extracurriculares. Criou-se, portanto, o espaço para que a universidade ajude as escolas médias a melhorar. Basta que os alunos dediquem um pouco de seu tempo a aulas particulares gratuitas ou a atividades de reforço. Essa proposta já está sendo analisada pelo governo e tem um alcance social incrível. Permite que a gente vá buscar talentos em todas as classes sociais e contribui para a melhoria da qualidade. Ao contrário do sistema de cotas, isso aprimoraria a qualidade. O aluno carente chegaria lá por ele mesmo e não porque guardaram vagas para determinados segmentos da sociedade.

Veja – Se tudo isso der certo, não vai faltar vaga?
Vilhena –
Sim, o sistema acabará tendo de ser ampliado. Mas uma coisa precisa ficar clara: isso só acontecerá se o desempenho for bom. Aí a sociedade vai cobrar mais vagas, e será possível debater em bases corretas o financiamento da universidade, incluída aí a questão salarial. Também por isso o incentivo à produtividade através de metas e remuneração variável é importante. É um sistema mais transparente. Quem atingir a meta de formar quatro alunos por ano vai ter uma gratificação, e se num determinado momento a qualidade não for recompensada isso vai ficar claro para os professores, os alunos, a sociedade, o governo.

Veja – A greve nas universidades federais já dura quase dois meses. Além da questão salarial, o movimento tem como bandeira a denúncia do sucateamento da universidade pública. O senhor acha que o governo Fernando Henrique tem dado a devida importância ao ensino superior?
Vilhena – Existe um esforço. O orçamento vem sendo corrigido e há novidades como os fundos setoriais, que destinam um porcentual do faturamento das empresas privatizadas de telecomunicações, petróleo etc. para a educação. Só na Universidade Federal do Rio de Janeiro, estamos recebendo 12 milhões de reais dessa verba, coisa que não recebíamos há trinta anos. Vai haver um novo edital ainda neste ano para nos candidatarmos a mais um aporte desse mesmo fundo, que é repassado pelo governo.

Veja – É suficiente?
Vilhena –
As universidades têm problema de recursos não só aqui, mas em todo lugar do mundo. Por quê? Porque a demanda por qualificação é enorme, a demanda por pesquisa é enorme, então sempre estaremos discutindo com a sociedade a necessidade de destinar mais dinheiro para o ensino superior. Mas para que isso se traduza em mais recursos a gente tem de responder a questões essenciais: como qualificar mais. E é a graduação que tem de responder a isso. O fundamental é que a sociedade fiscalize melhor os recursos. É ela que paga para a universidade funcionar. Sai do meu, do seu, do bolso de todos nós. E, se é assim, é melhor que funcione direito.


 
   
   
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