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Será
que vai sobrar vaga?
Para
fazer frente ao avanço
das faculdades particulares, as
universidades públicas aderem
à política de expansão de cursos

Ana Sílvia Morais e Lia Abbud
Antonio Milena
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| Seleção
de trainees na AmBev: alunos de
faculdades privadas hoje têm
mais chances |
A
cúpula das universidades públicas desistiu de enfrentar
o avanço do ensino particular superior apenas à base
de discursos ideológicos contra a presença da iniciativa
privada do setor. A nova arma, agora, é a mesma usada pela
"tropa inimiga": a abertura de vagas. A reação começou
em São Paulo, onde, nos últimos dias, a rede de universidades
estatais anunciou um pacote prevendo a criação de
quase 60.000 vagas até o ano de 2011. Outros Estados prometem
fazer o mesmo. Os especialistas prevêem que a movimentação
deva ser generalizada. A reação das escolas do governo
se dá num momento pujante do ensino particular. A cada semana,
surge uma nova faculdade privada no Brasil. Como resultado desse
ritmo impressionante de crescimento, elas somam um total de 905
instituições contra 682 contabilizadas na década
de 80. Nos últimos quatro anos, as matrículas nessas
escolas tiveram um aumento de 27%, o que representa 103.000 novos
alunos por ano. "Essa iniciativa da universidade pública
é boa, pois ajuda a diminuir o sentimento da sociedade de
que as instituições do governo são elitistas",
diz José Goldemberg, ex-reitor da Universidade de São
Paulo e professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia
da mesma universidade.
A abertura de mais vagas por parte da universidade pública
deve ser recebida com um grau elevado de entusiasmo, pois há
no país um problema objetivo a ser resolvido. Apenas 12%
da população em idade universitária está
matriculada em alguma faculdade. Essa taxa é duas vezes maior
na Bolívia e quatro vezes maior na Argentina. Diante desse
fato, o crescimento da oferta de ensino, seja ele de controle governamental
ou privado, jamais pode ser visto como um fenômeno negativo.
Um dos problemas mais urgentes hoje é como absorver os alunos
que se formam no ensino médio. Para suprir essa demanda,
estima-se que seja preciso triplicar nos próximos anos o
número de vagas que o ensino superior oferece atualmente.
"Se as escolas privadas não estivessem abrindo suas portas,
a deficiência seria ainda maior", afirma o conselheiro Efrem
Maranhão, do Conselho Nacional de Educação
(CNE). E, mesmo considerando todo esse avanço, a proporção
entre as vagas oferecidas pelas públicas e pelas particulares
permanece a mesma da década de 80. Naquele tempo, os alunos
que pagavam para conseguir o diploma totalizavam 64% dos estudantes
de nível superior. Hoje, esse grupo representa 65%.
Paulo Liebert/AE
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Greve de professores na
universidade pública: problema crônico |
Ninguém sabe precisar a razão central que mantém
as universidades públicas em permanente estado de alerta
contra o ensino privado. Há explicações de
cunho técnico, uma delas relacionada à produção
científica brasileira. Sabe-se que o Brasil aparece no pé
do ranking de produtividade nesse campo, mas as poucas realizações
alcançadas se devem ao governo. As escolas particulares não
gastam dinheiro com isso. Há também uma boa tintura
ideológica na discussão antidono no ensino superior.
Os professores pró-ensino estatal gostam de dizer que a faculdade
privada só pensa naquele que é considerado um objetivo
profano: o lucro. Esquecem-se, claro, de que em certo sentido se
pode até afirmar que a universidade paga se guia por uma
filosofia mais justa. Afinal, quem paga a conta no fim do mês
é o aluno ou seus pais. No caso da escola pública,
na qual não se cobram mensalidades, toda a sociedade banca
o custo na forma de impostos.
Há ainda uma motivação corporativa, possivelmente
a principal. Na terra sem dono em que se transformaram as universidades
do governo, os professores convivem com a deliciosa e relaxante
isonomia. Quem ocupa função semelhante recebe salário
igual, independentemente de sua produtividade. Nas escolas particulares,
a remuneração está ligada à produtividade.
Essa raiva produz algumas cenas mais quentes de tempos a tempos.
A última delas ocorreu no mês passado. A antropóloga
Eunice Durham, amiga de longa data do presidente Fernando Henrique
Cardoso, pediu demissão do Conselho Nacional de Educação
alegando discordar da política do Ministério da Educação
em relação ao ensino privado. "O aumento desenfreado
de instituições particulares, guiadas pelo mercado
e com fins lucrativos, ameaça a credibilidade do ensino no
país", afirmou ela.
Juca Varella/Folha Imagem
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Roberto Jayme
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Eunice Durham, ex-integrante do
Conselho Nacional de Educação: críticas
ao ministro Paulo Renato após a demissão |
Do
ponto de vista do nível da qualidade do ensino oferecido,
o carimbo "público" ou "privado" já não é,
por si só, garantia de eficiência (ou ineficiência).
Há cursos bons e ruins dos dois lados. Criado em 1996, o
Provão tem funcionado como o melhor termômetro para
medir essa questão. As universidades públicas continuam
na frente. Vêm delas as melhores notas e avaliações
de corpo docente e currículo. Deve-se registrar, no entanto,
que as particulares têm conseguido avanços consideráveis
na área. Esse fenômeno é mais forte nos estabelecimentos
novos, abertos após o surgimento do Provão. Dos cursos
de direito criados recentemente, 44% conseguiram notas A ou B no
Provão de 2000. Entre os mais antigos, o índice é
de 34%. A razão disso é que as novas faculdades já
nascem preocupadas com os parâmetros de qualidade fixados
pelo governo, e isso acaba se comprovando com o bom desempenho no
exame.
Outra forma de medir o avanço qualitativo do ensino privado
é o espaço que o mercado de trabalho vem dando aos
recém-formados dessas escolas. Se antes ter um diploma de
universidade particular era o suficiente para vetar a entrada de
um aluno na primeira fase do recrutamento, hoje as empresas enxergam
de outra maneira. "A oferta de talentos nas públicas é
maior, mas é claro que conseguimos achar bons estagiários
e profissionais em escolas privadas. Não existe mais aquele
preconceito inicial, de não olhar o currículo se não
for da universidade pública", afirma Júlia Alonso,
sócia da consultoria Passarelli Talentos. Grandes companhias,
como a AmBev e a Souza Cruz, seguem essa nova tendência. "Na
verdade, hoje não importa tanto este ou aquele diploma. O
que vale é a capacidade e, por isso, o mercado está
mais aberto às escolas particulares", diz o consultor Simon
Franco, um dos caçadores de talentos mais conceituados do
país.
Ricardo Fasanello/Strana
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A Ibmec, no Rio: nível comparável
ao das melhores universidades públicas |
Um
dos exemplos de excelência no campo do ensino privado é
a Ibmec Educacional. Com seis anos de funcionamento, a Ibmec já
conta com unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte
e Curitiba. Cobrando uma mensalidade alta, em torno de 1.000 reais,
a instituição tem uma infra-estrutura invejável.
Em São Paulo, os calouros são obrigados a comprar
um laptop. Em Belo Horizonte, a média é de um equipamento
para dois alunos, enquanto na Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo um computador é dividido
entre 32 alunos. De cada dez professores da Ibmec, quatro têm
Ph.D. no exterior. A escola conseguiu nota A no Provão nos
três anos em que foi submetida ao exame. "Queremos ser a Harvard
brasileira", diz Paulo Guedes, economista com Ph.D. na Universidade
de Chicago, ex-sócio do Pactual e um dos donos da Ibmec Educacional.
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