O que fazer para
estudar no exterior

Como participar dos programas de intercâmbio,
que ajudam na formação do adolescente

Sérgio Teixeira Jr.

A estudante Thaise,
de 17 anos: "Melhorei
o inglês e fiquei
mais independente"
Foto: Antonio Milena  

Os programas de intercâmbio educacional, que dão aos adolescentes a oportunidade de passar um ano estudando em outro país, nunca foram tão procurados. Em 1997, cerca de 18.000 jovens brasileiros viajaram para o exterior para fazer uma parte do 2º grau, aperfeiçoar-se numa língua estrangeira, conhecer uma nova cultura e, principalmente, aprender a se virar sozinhos. Neste ano, o número deve ultrapassar a casa dos 20.000. A explicação para o aumento da procura pelo intercâmbio passa pela globalização. As famílias estão mais abertas para a importância de proporcionar aos filhos esse tipo de oportunidade. O principal estímulo, no entanto, é financeiro. Mandar o filho estudar um ano numa escola pública dos Estados Unidos, morando na casa de uma família local, pode custar menos até do que pagar a anuidade de uma boa escola particular do Brasil. Os custos dos programas mais procurados ficam em torno de 10.600 reais (veja fichário abaixo) e incluem todas as despesas. Da passagem aérea ao dinheiro que o estudante precisará ter no bolso para os gastos do dia-a-dia.

Dois terços das famílias que inscrevem os filhos no intercâmbio preferem o pagamento parcelado das despesas, uma opção que não existia no tempo da inflação alta. A grande maioria escolhe os programas que oferecem vagas em escolas públicas americanas. Para chegar a uma delas, o aluno precisa ter entre 15 e 18 anos e um bom histórico escolar no Brasil. Uma repetência nos três anos anteriores à viagem pode ser suficiente para impedir que ele seja aceito. Preenchidos esses requisitos, o primeiro passo é se cadastrar numa agência especializada no serviço, a qual pedirá que o aluno responda a um questionário minucioso. Ele terá de informar sobre seus hábitos alimentares e esportes preferidos. Terá, ainda, de se manifestar caso não queira morar numa casa com cachorros e dizer se teria problema em ser mandado para uma região muito fria, como o Estado do Alasca. As respostas serão mandadas para uma organização americana que reúne informações sobre escolas públicas com oferta de vagas para estrangeiros e sobre famílias dispostas a acolher os jovens.

Exigência de idioma — O aluno pode recusar-se a ir para o lugar indicado e receber outra opção, mas não terá a chance de escolher ele próprio a cidade onde pretende estudar. "A grande maioria acaba indo para cidades pequenas, porque nas grandes metrópoles já há muitos estrangeiros", diz Celso Luiz Garcia, presidente da Belta, uma associação que reúne dezenove agências especializadas nesse tipo de viagem. Isso tem suas vantagens, conforme a opinião de quem já passou pela experiência. Numa cidade menor, o adolescente que chega de fora acaba se transformando numa espécie de celebridade local, o que aumenta as chances de se integrar à comunidade. Nas cidades maiores, eles são vistos com reservas. Os estudantes não precisam ir necessariamente para uma escola pública americana. Há outras alternativas, em colégios privados também americanos ou em escolas de outros países. Para quem pretende aperfeiçoar o inglês, o destino pode ser, ainda, a Inglaterra, o Canadá, a Austrália ou a Nova Zelândia. Também há alternativas para a Espanha, a França ou a Alemanha. Os custos, nesses casos, são mais altos. Sem contar a passagem aérea e as despesas do dia-a-dia, um ano numa escola canadense custa em torno de 13.500 reais. Na Alemanha, o preço é de 9.000 reais.

Os Estados Unidos ocupam o primeiro lugar na preferência dos estudantes por dois motivos, além do preço. O primeiro é a grande influência da cultura americana sobre os jovens brasileiros. O segundo é o idioma. Para acompanhar bem as aulas nas escolas que passarão a freqüentar, os estudantes precisam ter pelo menos um conhecimento mediano da língua do país de destino. "Recusamos muitos alunos porque seus conhecimentos do idioma estrangeiro são insuficientes", diz Betty Woodyatt, gerente comercial da agência Experimento, que atende estudantes de todo o Brasil. A exigência do idioma faz todo sentido e é fundamental para a integração do estudante. "Quando cheguei, meu inglês não era muito bom e acabei ficando mais próxima dos outros estrangeiros da escola", conta a paulista Thaise Precaro Barankiewicz, de 17 anos, que passou seis meses na pequena cidade de Gahanna, no Estado americano de Ohio. "Só depois de uns três meses consegui me aproximar dos americanos."

Eduardo Suzuki, de
16 anos: ansiedade
às vésperas do embarque
para o Canadá
  Fotos: Egberto Nogueira

Decisão conjunta — A familiaridade com a língua do país de destino é uma das principais razões pelas quais o planejamento deve começar pelo menos um ano antes da data prevista para o embarque. Nesse período, além do reforço do idioma, o aluno precisa escolher o país onde pretende estudar e a agência que cuidará de sua colocação. A maioria oferece um trabalho de consultoria para que pais e filhos possam conhecer as opções de viagem e tomar uma decisão em conjunto. A Nova Zelândia, por exemplo, vem atraindo jovens interessados por esportes radicais. "Além das aulas normais de educação física, havia cursos de alpinismo e canoagem fora da escola", conta Bernardo Silveira Barbosa Correia Lima, de 17 anos, de Belo Horizonte.

O ideal, num caso como esse, é que os pais e os filhos se entendam quanto ao país de destino, às atividades que serão desenvolvidas durante o período de afastamento e até mesmo quanto à importância do intercâmbio. "Quando eu tinha a idade de meus filhos, sempre pensei em fazer uma viagem como essa, mas não tive oportunidade", diz Jugo Suzuki, de São Paulo. Nas próximas semanas, Eduardo, de 16 anos, estará embarcando para o Canadá. E Juliana, de 15, irá para a Nova Zelândia. O que Jugo espera é ouvir, na volta dos dois filhos, uma frase igual à que diz Beatriz Rezende Muller, de 17 anos, que viveu durante um ano na pequena cidade de Ashburn, Estado de Virgínia, na costa leste americana. "Quando eu voltei, percebi que as coisas tinham mudado pouco na minha casa e no Brasil", conta Beatriz, que retornou há duas semanas e trouxe dos Estados Unidos o jovem Rick Remen, seu namorado americano. "Eu é que tinha mudado muito."

O primeiro conselho que os estudantes que passaram pela experiência dão aos que estão embarcando agora e aos que pretendem ir nos próximos anos é: procure se desligar da família que ficou no Brasil. Uma das principais conquistas do adolescente que faz o intercâmbio é a independência. Longe de casa, ele tem de ser responsável pelo controle de seu dinheiro, pelo desempenho escolar (acompanhado de perto pela entidade americana que cuidou de sua colocação) e pelo bom relacionamento tanto com a família que o acolhe quanto com os colegas de escola. O normal é que não haja contato entre as duas famílias. Tanto que a tradição é passar a chamar os anfitriões de pai, mãe e irmãos. As entidades que promovem intercâmbio também se esforçam para evitar que os jovens brasileiros fiquem horas ao telefone conversando com amigos e parentes no Brasil. "Uma conta telefônica de 150 dólares não é normal para uma família no exterior", diz Wanda Maria Silva, dona da agência Study n' Travel e que trabalha com intercâmbios há vinte anos. "Mesmo com o aluno pagando tudo, esse tipo de hábito destoa da rotina da casa e só dificulta o entrosamento na família."

Beatriz, com Rick:
a viagem rendeu um
namorado americano,
que veio conhecer o Brasil

Os problemas — De intercâmbio, efetivamente, os programas só têm o nome. Antigamente a regra era enviar o adolescente para um determinado país e receber um outro aqui, em troca. Hoje, isso já não acontece mais. Também acabou a idéia de que os jovens ficam hospedados em casas enormes, vivendo com famílias que levam estilos de vida luxuosos. "Isso acontecia muito no início dessas experiências no Brasil, nos anos 60", conta Garcia, da Belta. "Hoje, quem procura hospedar estudantes em casa, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, são famílias de classe média, muitas vezes querendo passar uma nova experiência para os filhos." E as histórias de terror contadas por alguns adolescentes (desde consumo de drogas dentro de casa até casos de ameaças e agressões físicas) igualmente têm de ser colocadas na devida proporção. São uma minoria, desprezível estatisticamente. Segundo Garcia, os jovens que pedem para trocar de casa não chegam a 1% do total. E a grande maioria desses alega apenas problema de relacionamento. Os estudantes que já estiveram no exterior em geral contam boas histórias sobre as famílias que os acolheram.

Os maiores problemas normalmente surgem na volta ao Brasil. O aluno quase sempre fica atrasado na escola e precisa recuperar parte do conteúdo que será exigido nos vestibulares. Não tem, por exemplo, dois semestres de História do Brasil, língua portuguesa e literatura. E o cronograma de estudos para o exame de entrada na universidade também fica prejudicado porque o ano letivo nos países do Hemisfério Norte (de agosto a junho) não coincide com o do Brasil. O certificado obtido no exterior é entregue à escola, que faz a compatibilização das disciplinas no Ministério da Educação. Se o adolescente escolhe ir para o exterior no meio do 2º ano do 2º grau, por exemplo, acaba voltando cerca de seis meses antes dos vestibulares e ainda tem de correr para alcançar os colegas nas disciplinas que não estudou quando esteve fora. Mas muito mais difícil do que recuperar as matérias perdidas é encontrar alguém que se tenha arrependido da experiência de passar um ano no exterior.




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