Diploma lá fora

Cada vez mais brasileiros vão estudar no exterior.
Mas, afinal, vale a pena?

Ricardo Villela

Desde que tinha 14 anos de idade, o estudante paulista Flávio Formigoni queria passar um tempo longe do país e de seus pais. Tinha como plano fazer o último ano do 2º grau nos Estados Unidos, aprendendo inglês e tomando conta de si próprio, para variar. No ano passado, seu padrasto, o arquiteto Antônio Carlos Chagas, concordou em bancar a viagem. Aos 18 anos, Flávio completa agora em maio o décimo mês de sua estada na pequenina Breston, localizada no Estado de Idaho, no noroeste dos Estados Unidos. Fala inglês fluentemente e garante que está aprendendo a se virar sozinho. “Não trocaria essa experiência por nada”, diz. Em parte por conta do Plano Real, que aumentou a renda das famílias e permitiu a montagem de pacotes parcelados que antes não existiam, em parte porque os pais estão preocupados em dar aos filhos uma formação mais globalizada, é cada vez maior o número de estudantes brasileiros no exterior. Há dez anos, eles não passavam de 10000. Em 1996, chegaram a 60000. Estimativas conservadoras para 1997 falam em 75000 jovens em escolas, universidades ou cursos de língua no estrangeiro.
Esse crescimento pode ser percebido até mesmo nos classificados de jornal, em que se encontram ofertas e mais ofertas de cursos fora do Brasil. Nas escolas de idiomas, também se pode notar que as possibilidades têm aumentado muito pelos pacotes que elas oferecem a preços tentadores. Basta conversar com os alunos dos melhores colégios brasileiros que se verificará a mesma tendência. “Desde que uma amiga minha voltou da Carolina do Norte no ano passado, sonho fazer uma viagem parecida. Estou superansiosa pelo dia do embarque”, diz a estudante Aline Ledo dos Santos, 16 anos, do colégio Mater Dei, de São Paulo, que está indo para a Califórnia em agosto. Comparado aos países campeões em exportação de estudantes, o Brasil engatinha. No ano passado, o Japão tinha nas universidades americanas cerca de 45000 estudantes, contra 5500 brasileiros. Acontece que o número de brasileiros cresceu 10% em relação ao ano anterior, enquanto o de japoneses subiu apenas 0,6%. Que o movimento é espantoso, está demonstrado. Resta saber o principal: vale mesmo a pena estudar no exterior?
A maior parte dos estudantes viaja para aprender inglês em programas rápidos, de um mês ou dois. Para esses, a resposta é óbvia: vale, vale muito. Outra fatia para quem se recomenda sem restrições que estude lá fora é a turma do mestrado ou doutorado — gente que se graduou no Brasil mas quer melhorar a formação cursando pós-graduação no exterior. Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, o analista de empresas Walter Franco largou um emprego de três anos no banco JP Morgan para fazer mestrado em economia latino-americana na Universidade de Londres. Em agosto do ano passado, Franco voltou e arrumou um emprego melhor no Banco de Boston. “Os recrutadores das grandes empresas arregalam os olhos ao ler o nome de uma universidade estrangeira no currículo dos candidatos a emprego”, afirma José Ferreira, diretor da Talento, empresa de recursos humanos, uma das boas agências de recrutamento do Rio de Janeiro. Se não há dúvida quanto à utilidade de fazer o cursinho rápido ou a pós-graduação no exterior, já não se pode ter a mesma segurança em relação ao colegial e à universidade.

De olho no vestibular — De modo geral, a experiência de uma temporada no exterior é das mais ricas que um jovem pode ter. “Eu era muito agarrado aos meus pais. Com a viagem, aprendi a lidar com gente diferente”, conta Gabriel Sormani, 19 anos, que cursou um ano do 2º grau em Milwaukee, no Estado de Wisconsin. Um aluno como ele, que tenha vivido num país de língua estranha e cultura diferente, é, em geral, mais maduro do que um colega seu que só tenha saído do Brasil para fazer compras em Miami. “O jovem que vive um tempo fora volta mais sociável, com novos valores, com sentido crítico mais apurado”, diz Marilu Aidar, diretora da escola Nova Lourenço Castanho, de São Paulo. “Por outro lado, uma parcela dos que fazem a opção de estudar no exterior encontra sérias dificuldades para passar no vestibular.” Matérias fundamentais no colégio brasileiro, como história e geografia do Brasil, português e literatura nacional, não são ensinadas nos outros países. Isso cria um problema na hora do vestibular. Há ainda uma dificuldade adicional relacionada ao calendário. Em geral, os alunos retornam de seus programas de intercâmbio no mês de julho, que cai no meio do período letivo brasileiro. Quem faz o colégio nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França chega de volta ao Brasil com apenas cinco meses para se preparar para o vestibular.
No caso das universidades, é o tipo de curso que decide se o estudante deve ir ou não. Cursos como direito e medicina têm currículos muito diferentes de um país para outro. Na Inglaterra, algumas doenças tropicais são estudadas apenas em teoria. A legislação americana, toda baseada numa Constituição enxuta e centenária, tem pouca utilidade para quem pretende advogar no Brasil das liminares. “Estudando direito lá fora, o formando dificilmente vai conseguir habilitação para exercer a profissão no Brasil”, diz Luís Loureiro, diretor de programas da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, órgão vinculado ao Ministério da Educação e responsável pela concessão de bolsas de estudo. O mesmo não acontece com cursos menos desenvolvidos no Brasil, como arqueologia. Nesse caso, a graduação no exterior pode ser uma boa escolha.

Tailândia e trailer — Outro problema para quem quer estudar numa universidade em outro país é enfrentar a concorrência pelas vagas. Muitos estudantes de todo o mundo sonham freqüentar a fina flor do ensino superior, como Harvard, Yale, Princeton, Sorbonne, Oxford e Cambridge. Só que instituições desse quilate fazem uma seleção rigorosa. Isso significa que só deve pleitear uma vaga em escola desse nível quem tenha um histórico escolar impecável e cartas de recomendação de professores respeitados. Se o candidato conseguir ultrapassar essa barreira, é bom que tenha tido o cuidado de juntar uma bela poupança. Uma anuidade em Yale fica em torno dos 30000 dólares. O que acaba acontecendo é que a maioria se contenta com universidades de menos prestígio — o que pode não ser muito seguro. Marcos de Macedo está-se formando neste semestre em administração de empresas pela Drexel University, em Filadélfia, curso que não figura entre os cinqüenta melhores do ranking da revista U.S. News & World Report. “Sinceramente, não sei quanto vai pesar meu diploma no mercado de trabalho”, reconhece.
Se a universidade é cara demais, cursar o 2º grau ou parte dele no exterior pode sair mais barato do que uma boa escola particular no Brasil. Como o colegial é público e gratuito no Primeiro Mundo, e a maior parte das famílias que acolhem estrangeiros como hóspedes não cobra por isso, os gastos se limitam aos custos do programa de intercâmbio e à mesada do filho — algo como 6000 dólares por ano. É o que se cobra numa boa escola do Rio de Janeiro ou de São Paulo. A desvantagem do programa gratuito é que o estudante não escolhe a família, a escola, a cidade e, por vezes, nem o país para onde vai. E isso pode propiciar alguns sustos. Foi esse o caso de Anaí Santos, 19 anos, que sentiu um frio na barriga quando descobriu, a um mês do embarque, que seu destino seria a cidade de Chachoengsao, na Tailândia. Anaí embarcou mesmo assim. Passou um ano vivendo em um país onde moças de família não freqüentam bares nem discotecas. Voltou na semana passada com tailandês fluente e sem arrependimentos. “Eu estava à procura de uma cultura diferente, não estava?”, brinca. Há opções para quem faz questão de escolher a escola, mas pouca gente quer porque custam até 20000 dólares por ano.
Antes de viajar, seja para a Tailândia, seja para os Estados Unidos, o estudante deve tomar certos cuidados (veja quadro). Alguns são básicos, como verificar a reputação da escola ou fazer as contas direito para saber de quanto dinheiro terá de dispor na nova vida que vai levar. Um cuidado, no entanto, é mais do que essencial para quem vai morar numa casa de família: entrar em contato com ela para obter informações. É a única forma de evitar experiências como a do paulistano Fábio Rua. Fábio só recebeu o nome da família com que moraria uma semana antes da viagem para os Estados Unidos. Foi parar em um trailer em Goldsboro, na Carolina do Norte. Seu pai era auxiliar de professor e sua mãe trabalhava numa lavanderia. “Eles estavam em sérias dificuldades financeiras. Às vezes, era eu quem dava o dinheiro para o café da manhã”, conta Fábio, que, mesmo assim, adorou a experiência. “Aprendi a valorizar a vida que tenho no Brasil.”


Pense bem antes de viajar

Se o seu plano é fazer o 2º grau lá fora, saiba que:

• A seleção para um curso no exterior leva tempo. Inscreva-se com um ano de antecedência

• Na hora de escolher um intercâmbio, vá a um consulado para checar a reputação do programa

• Se você vai morar com uma família desconhecida, procure saber o máximo sobre ela antes de embarcar

• Se não se entender com a família, reclame com a direção do programa. Ela arranjará outra casa para você

• Ex-alunos sempre têm boas dicas a dar sobre o curso e a cidade onde você vai morar

• Se não falar bem a língua do país onde vai morar, relaxe. A viagem é para isso mesmo

• Planeje bem os seus gastos. Lá não tem papai nem mamãe para ajudar

• Aproveite os dias de folga para viajar. É muitas vezes mais proveitoso do que ter aulas

• Há cursos que oferecem disciplinas alternativas. Aproveite para ter aulas de outras matérias que possam ser úteis na volta

Se você quer estudar numa universidade no exterior, saiba que:

• Diferentemente do 2º grau, é fundamental ter pleno domínio da língua do país onde vai estudar

• É preciso poupar muito dinheiro. Com exceção da França, as melhores universidades do mundo são pagas - e caras. O preço delas varia entre 15 000 e 40 000 dólares por ano

• Cartas de recomendação são apreciadas durante a seleção. É conveniente que as cartas sejam assinadas por professores renomados

• Graduação fora não é decisão que se possa tomar na última hora. Boas universidades só aceitam alunos que tenham um histórico escolar impecável

• Há universidades ruins em qualquer país do mundo. Avalie bem a reputação da escola onde quer estudar

• A não ser que você tenha planos de deixar o Brasil, não vá estudar medicina ou direito no exterior. Os cursos são muito diferentes dos brasileiros

• Já arqueologia ou turismo, pouco desenvolvidos aqui, vale a pena estudar no exterior

• Aproveite o ambiente universitário. More no campus, conviva com os professores, freqüente a biblioteca

 
 
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