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Arapuca de MBAs

Cursos que formam executivos multiplicam-se
pelo país sem garantir qualidade ao aluno

Maurício Oliveira

 
Fotos Ricardo Benichio
Aula na Business School São Paulo: instituição respeitada e exceção num mercado confuso

Todo mundo já cansou de ouvir que um diploma de MBA, o master in business administration, é um impulso e tanto para a carreira profissional. Mas quem está planejando lançar-se nessa empreitada precisa tomar cuidado para não cair numa arapuca. No Brasil, muitos cursos estão usando as três letrinhas como mero golpe de marketing para atrair matrículas. De cada dez, nove não chegam nem perto da excelência de ensino sugerida pela sigla, criada nos Estados Unidos, ainda na primeira metade do século XX, para distinguir os cursos de pós-graduação que preparam os executivos para a realidade do mercado. Dos quase 200 cursos que se dizem MBAs no país, de acordo com levantamento realizado por VEJA, menos de vinte são respeitados pelas grandes empresas e fazem diferença no currículo. Os demais não têm a mínima chance de impressionar os responsáveis pelas contratações nas companhias realmente atraentes para trabalhar. "Muita gente está sendo iludida por essa overdose de cursos", diz a diretora de recursos humanos do Pão de Açúcar, Maria Aparecida Fonseca.


Andréia Pinotti, ex-aluna da Harvard: aprendizado com os grandes executivos

As escolas que se apropriaram da sigla no Brasil estão livres de punição oficial. O governo não controla a qualidade dos MBAs por considerá-los simples especializações, sem o peso de mestrado sugerido pelo nome. A justificativa é que eles são voltados ao aprimoramento prático dos profissionais e não à preparação para a carreira acadêmica. Como praticamente ninguém faz MBA para se tornar professor, esses cursos não precisam conceder diplomas de mestre. Bastam certificados. "O sujeito que procura um MBA é esclarecido e vacinado, assim como quem vai contratá-lo", diz o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. "A tarefa de fiscalizar a qualidade cabe aos próprios alunos e às empresas interessadas." A expectativa do ministro é compartilhada pelas grandes firmas. Assim, espera-se que nos próximos anos a proliferação de MBAs seja regulada pelo próprio mercado. Os que não têm qualidade deixariam de existir pela simples falta de matrículas.

Enquanto isso não acontece, começam a surgir as primeiras iniciativas relevantes para separar o joio do trigo. Uma delas partiu da Petrobras, que está convidando outras companhias de porte e instituições educacionais para integrar o comitê de organização do primeiro ranking brasileiro de MBAs. Nos EUA, os rankings contribuem decisivamente para definir a credibilidade dos cursos e, em conseqüência, regulam o preço das mensalidades, a relação de candidatos por vaga e o poder de atração de doações. O projeto da Petrobras tem o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do governo federal que controla os cursos de pós-graduação. "Estamos oferecendo toda nossa experiência com mestrados e doutorados para que a idéia seja bem-sucedida", conta o presidente da Capes, Abílio Baeta Neves. Outra contribuição para quem pretende investir nos estudos é o livro O Guia dos MBAs (editora Campus), que a jornalista especializada Maria Tereza Gomes está lançando. Ela traça um panorama consistente do segmento, muito útil para um gerente que sonha em chegar à presidência da companhia ou para engenheiros ou médicos que querem adquirir noções de administração a fim de abrir um negócio ou liderar empresas em sua área.

A principal diferença em relação aos tradicionais mestrados acadêmicos é que tanto professores quanto alunos devem estar em plena atuação no mercado. "Num bom MBA, o aprendizado se dá pelo repasse de experiências práticas, e não pela teoria", descreve Andréia Pinotti, ex-aluna do MBA da Harvard, considerado o melhor do mundo. "A maior parte das nossas aulas foi composta de palestras de grandes executivos." Os cursos americanos, que normalmente exigem dedicação integral durante dois anos, são indicados a quem tem pouco tempo de profissão. Assim é possível recuperar o investimento – que, no caso de um brasileiro na Harvard, é de pelo menos 200.000 reais. Andréia tinha 27 anos quando foi aceita pela mais célebre universidade americana. Depois de voltar ao Brasil, ficou mais um ano e meio no Banco Itaú, que financiou o curso, e hoje é gerente de marketing do site Patagon. Para quem já passou dos 30 anos, ocupa um bom cargo e tem filhos, os MBAs nacionais são a melhor opção, desde que o interessado consiga escapar das arapucas (confira quadro). Entre os bons exemplos estão a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a Business School São Paulo, o Ibmec Business School e a Universidade de São Paulo. Apesar do salgado preço de 42.000 reais pelos dois anos de duração, na FGV cada vaga é disputada por cinco candidatos e 70% dos alunos são financiados parcial ou totalmente pelas empresas em que trabalham. "Não tememos a concorrência de tantos falsos MBAs", garante o coordenador do curso da FGV, Rubens Santos. "Essa febre logo vai ser curada pelo mercado."

 

 
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