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Isso é
uma revolução
O
ministro Paulo Renato
coleciona alguns dos melhores
números do governo FHC
Luís
Henrique Amaral
Pedro Medina
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| Barco
do MEC: a escola vai aonde o aluno está |
Ainda
há controvérsias sobre como será lembrado o
governo de Fernando Henrique Cardoso em aspectos como a evolução
do produto interno bruto e o endividamento do Estado. Não
há nenhuma dúvida, porém, de que no campo da
educação a obra deste governo já entrou para
a História. Outros setores da administração
têm feitos para mostrar, como a criação dos
genéricos e os tratamentos de Aids bancados pelo Ministério
da Saúde. Ou as 500.000 famílias assentadas pelo Ministério
do Desenvolvimento Agrário. Mas só o Ministério
da Educação pode exibir uma revolução.
Em 1995, no início do primeiro mandato de FHC, 7% das crianças
brasileiras entre 7 e 14 anos se encontravam fora da escola. Os
currículos estavam desatualizados e o ministério,
depois de uma sucessão de titulares mais inclinados para
a política do que para a educação, não
tinha planos concretos para nenhum segmento do setor. O ensino médio
existia para dividir o Brasil em duas castas: a dos que podiam pagar
por escolas de qualidade, e seguiriam para as ilhas de excelência
das universidades públicas, e a dos que, forçados
a estudar em colégios estaduais e municipais ruins, abandonariam
os estudos ou iriam para faculdades particulares caras e raramente
boas.
Sete anos depois, o ensino básico alcança 97% das
crianças. Como 91% estudam na rede pública, esse é,
na prática, o único serviço do Estado a atender
praticamente a toda a clientela. Milhares de alunos do curso médio
se submetem a um exame nacional que avalia sua capacidade para enfrentar
o vestibular e o mercado de trabalho. As matrículas nesse
segmento aumentaram 66% em cinco anos. O número de diplomados
no antigo colegial era de 800.000 estudantes em 1994. Esse total
triplicou no ano passado. Nas universidades, também graças
ao exame nacional, chamado de Provão, já há
casos de cursos sob risco de fechamento de direito, de engenharia
e de veterinária, entre outros por não corresponderem
ao que os especialistas receitam como necessário.
Juca Varella/Folha Imagem
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Marcelo Greco
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Estudantes fazem a
prova que avalia o nível de ensino, e o computador chega
à sala de aula: investimentos de longo prazo |
"Nos
ensinos médio e superior ainda não alcançamos
a universalização, mas vamos nessa direção",
diz o ministro Paulo Renato Souza, comandante de um transatlântico
governamental. O que Paulo Renato conseguiu ao emendar duas gestões
como ministro precisa ser traduzido além dos números.
O acesso à escola significa acesso à cidadania
na faixa dos 25% mais pobres da população, a freqüência
à escola aumentou mais de 20% nesta década.
Para o país, isso significa um progresso que não pode
ser medido por simples estatísticas. Escolarização
se traduz, a médio prazo, em desenvolvimento. Não
foi por acaso que a Coréia do Sul deu um salto que a tirou
do Terceiro Mundo. Desde a década de 80, o governo coreano
teve na educação sua primeira e segunda prioridade.
Resultado: a produção multiplicou-se por dois em dez
anos. No México, a expectativa de melhora na distribuição
de renda tem relação direta com os investimentos na
área. O orçamento brasileiro já reserva 5,47%
do PIB para a educação. Livros escolares hoje são
distribuídos antes do início das aulas, o que incrivelmente
não acontecia até bem pouco tempo atrás. A
educação entra agora numa fase de modernização
aliada a medidas para manter o aluno na sala de aula. Ao mesmo tempo
que iniciou a licitação para comprar 233.000 computadores,
o governo já comemora um número significativo no programa
Bolsa-Escola em nível federal. No mês passado, foi
entregue o cartão de número 1 milhão. Ele garante
às famílias com renda mensal inferior a meio salário
mínimo per capita um abono de 15 reais por filho entre 6
e 15 anos matriculado na escola.
Dida Sampaio/AE
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Paulo Renato: o
ministro faz as contas e os ensaios para seu primeiro teste
nas urnas |
Até
o final do ano, 5,8 milhões de famílias estarão
recebendo esse benefício. É pouco? Sim. Mas pode fazer
a diferença para crianças que vendiam balas na esquina
para ajudar os pais e não iam à escola por falta de
motivação e incentivo da família. Além
disso, na febre de programas sociais de compensação
que ocorre no país, já há casos de superposição
de benefícios, num efeito que está fazendo surgir
uma renda familiar onde antes nem se tinha certeza da existência
de uma família. No bairro de Lobato, em Salvador, Creuza
Santos Ventura, de 30 anos, sustenta cinco filhos com os trocados
irregulares da venda de desinfetantes em semáforos. Agora
tem dois deles inscritos no programa Bolsa-Escola. "É um
dinheiro que chegou em boa hora", ela diz. "Dá para o material
escolar e até para algumas compras."
O Bolsa-Escola custará 2,1 bilhões de reais no ano
que vem, uma quantia difícil de arrumar no Brasil de orçamento
apertado e vigilância do Fundo Monetário Internacional.
Obter dinheiro para a educação foi, aliás,
um passo importantíssimo na gestão de Paulo Renato.
A Constituição de 1988 reservou 25% da receita de
Estados e municípios e 18% da federal para investimentos
na área. Uma lei nova definiu como esses recursos devem e
principalmente como não podem ser gastos. Mais da metade
tem de ser usada na qualificação e remuneração
de professores. Nem um centavo deve ser aplicado em construção
de escolas porque não é prédio que falta na
educação brasileira. Essa mesma lei criou o Fundef,
sigla para Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do
Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério.
Isso liberou o ministério de rusgas com a equipe econômica
pela obtenção de recursos. O Fundef foi responsável
pela movimentação de 17 bilhões de reais no
ensino fundamental público em 2000, um quarto a mais que
dois anos antes. Nas regiões mais carentes do país,
até o salário de professores pôde ser alterado.
Acabou aquela história quase anedótica da professora
no interior do Maranhão que recebia 80 reais por mês
para dar seis horas de aula todos os dias. A remuneração
dos professores do ensino fundamental teve um aumento médio
de 29,5%.
Agliberto Lima/AE
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Itamar Miranda/AE
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Uma nova realidade: família
recebe o cartão Bolsa-Escola, hoje, e as filas de matrícula,
em 1992 |
O
total de professores no ensino fundamental também aumentou.
Esse investimento em pessoal foi a contrapartida de uma mudança
nos currículos iniciada em 1996, quando eles passaram a agregar
temas como cidadania, luta contra o racismo e noções
de política e democracia, ecologia e orientação
sexual. No ensino superior, onde menos se pôde fazer até
agora, houve crescimento de matrículas e aumento do total
de pós-graduandos na rede pública. O ministro Paulo
Renato diz que está devendo nessa área. "Pretendíamos
chegar à autonomia das universidades federais, mas não
conseguimos", afirma. A autonomia permitiria instituir a remuneração
por mérito nas federais, terminando com um sistema que hoje
paga igualmente a um pesquisador que recorta jornais e a um cientista
médico da Universidade Federal de São Paulo, por exemplo.
Quem acompanha o dia-a-dia da educação é capaz
de ver que há outros desacertos no ministério. A organização
não-governamental Ação Educativa, uma das mais
conceituadas do país, reclama da prioridade ao ensino básico
em detrimento de outras faixas. Também se queixa de que o
ministério evita contatos com ONGs e sindicatos. Por fim,
a Ação Educativa aponta para a contenção
de gastos federais na área da educação. "O
Brasil é o 69º colocado no Índice de Desenvolvimento
Humano da ONU, mas fica em 79º lugar no quesito educação",
afirma Camilla Crosso, pesquisadora da Ação Educativa.
Vistas internamente, as realizações na educação
nos últimos anos não têm similar na história.
No contexto mundial, no entanto, o país ainda está
longe de nações como o Chile, cujos estudantes permanecem
mais de dez anos na escola, em média. Do Primeiro Mundo,
então, a distância é de alguns anos-luz. O próprio
Paulo Renato reconhece que ainda há muito que fazer em seu
ministério.
Aos 55 anos, ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
e secretário da Educação em São Paulo
no governo Montoro, Paulo Renato tem tanta certeza de que fez um
bom trabalho no ministério que é um dos postulantes
declarados do PSDB à vaga de candidato à Presidência
da República. A luta nesse campo, no entanto, exige duas
habilidades que ele ainda não testou: a de articulador político
capaz de unir uma frente de partidos e a de mostrar-se carismático
e atraente para os eleitores. Como há um congestionamento
de candidatos já testados nas urnas entre os tucanos, uma
hipótese concreta é o ministro mirar na disputa do
Senado por São Paulo. Isso não se vai saber tão
cedo.
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DINHEIRO
NO BOLSO
O Bolsa-Escola deverá ser o maior programa de redistribuição
de renda já implantado no Brasil. Até três
filhos numa mesma família poderão ser beneficiados.
Não mais que isso, porque o governo quer evitar que
o projeto se acabe tornando um impulso para o aumento nas
taxas de natalidade. Ainda há pouca avaliação
sobre programas desse tipo, mas existem muitos casos de governos
que estão realizando experiências similares.
Campinas, no interior do Estado de São Paulo, e o Distrito
Federal foram os pioneiros na remuneração de
famílias com filhos regularmente matriculados na escola,
em 1995. Hoje, PSDB e PT, os partidos a que pertenciam governos
que deram a partida nesses programas naquela época,
disputam a patente do Bolsa-Escola. O sistema do então
governador do Distrito Federal, o petista Cristovam Buarque,
que dava um salário mínimo a famílias
de estudantes entre 7 e 14 anos, foi paralisado por seu sucessor,
Joaquim Roriz, do PMDB, em 2000, e depois substituído
por um programa de fornecimento de material escolar, uniforme,
vale-transporte e cesta básica. Em 1996, a taxa de
evasão escolar do Distrito Federal foi de 7,4%. A de
repetência, 18,1%. Entres os alunos beneficiados pelo
programa, esses índices ficaram, naquele mesmo ano,
em 0,4% e 8%, respectivamente.
A prefeitura de São Paulo está implantando um
programa de renda mínima atrelado à educação
para famílias com renda até três salários.
Até o fim do ano haverá 60 000 beneficiados,
com pagamento médio de 117 reais para cada família.
No futuro, o projeto será complementar ao do governo
federal. Só não é ainda porque a gestão
de Marta Suplicy patinou no cadastramento de famílias
e a cidade ainda não entrou no plano do Ministério
da Educação. Paralelamente, Marta implementa
um projeto semelhante para capacitação de jovens
profissionais e outro para desempregados com mais de 40 anos.
No Rio de Janeiro, o governador Anthony Garotinho criou o
Cheque-Cidadão, que dá 100 reais a famílias
carentes com filhos na escola, via entidades religiosas. Mais
de 40.000 estão recebendo o dinheiro.
Em 1996, pesquisadores da Unicamp constataram que 12% das
famílias que foram beneficiadas com o primeiro ano
do programa de Campinas passaram depois a gerar renda própria
suficiente para se manter acima da linha da miséria.
A mesma pesquisa verificou que 45,8% do dinheiro foi usado
na compra de alimentos. Roupas, calçados e prestações
de móveis empatavam como destino do restante, cada
item com 10% dos gastos.
Para a Unesco, esses programas são uma arma contra
o analfabetismo. Eles podem evitar que a criança permaneça
na condição de miséria, ajudam a reduzir
o trabalho infantil e diminuem a violência doméstica.
A entidade recomenda que sejam vinculados a projetos de requalificação
profissional e formação de cooperativas, para
que se tornem uma eficiente alavanca social e não levem
os beneficiados à acomodação. Esse passo,
no Brasil, ninguém deu ainda.
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