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Nova profissão
Na falta de professores qualificados,
amadores tomam conta das aulas
de espanhol
Rachel Campello
Joel Rocha
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Marcela, socióloga: "É gratificante
e ajuda a conservar as raízes" |
Seja por causa da globalização, do Mercosul ou das concorridas
temporadas de turismo, falar espanhol de modo
decente, muito distante do portunhol arranhado até agora
está virando artigo de primeira necessidade no
Brasil. Com isso, abre-se a perspectiva de emprego,
como professor de espanhol, para uma multidão de pessoas
que dominem essa língua. Os colégios do ensino básico
preparam-se para a implantação de uma lei, ainda sem
data marcada, que os obrigará a incluir o idioma no
currículo. Estima-se que essa providência, acrescida
das novas pressões sobre os cursos de línguas, abra
mercado para 200.000 professores.
Nas grandes empresas, candidato fluente na língua de
Cervantes já tem preferência garantida. "Dentro
de uns dois anos, o espanhol vai ser tão exigido quanto
o inglês", antecipa Sofia Esteves, da DM Recursos
Humanos. Alunos, portanto, não faltam. Quem são os professores?
No momento, qualquer um que fale espanhol é bem-aceito,
com remuneração média de 30 reais a hora. "Nascer
em país de língua espanhola não basta, mas é meio caminho
andado", confirma a colombiana Marcela Narvaez
Botero, 32 anos, que há nove ensina em Curitiba. Formada
em sociologia, Marcela nunca exerceu a profissão. Assim
que saiu da faculdade, casou-se com um brasileiro, mudou-se
para o Brasil e pôs-se a dar aulas. "É muito gratificante
e ajuda a conservar minhas raízes vivas", avalia.
Rosemeire da Silva, que cursou espanhol na Universidade
de São Paulo, a USP, e hoje é professora dessa língua
no Colégio Bandeirantes, na capital paulista, lamenta
a didática precária dos professores, mas não vê saída
a curto prazo. "Vai levar pelo menos quatro anos
para que tenhamos profissionais bem preparados",
prevê. No Pueri Domus, em São Paulo, a coordenadora
do curso de espanhol, Alida Muller, 50 anos, é italiana,
formada em história. "Sou fluente em espanhol porque
morei dez anos no Uruguai e dois na Costa Rica",
diz Alida. Dos nove professores sob sua orientação,
só três são formados em língua espanhola. "Não
há como atender à demanda só com quem possui diploma",
justifica.
Fotos: Claudio Rossi
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Alida, formada em história,
e Cánepa, advogado: adaptação ao mercado |
Casou e ficou –
Quando o ensino do espanhol se tornar obrigatório, o
Brasil terá alguma dificuldade em reunir o número necessário
de professores qualificados. "Onde vão arranjar
tanta gente?", indaga Maria Victoria Rebori, professora
da USP, de onde saem apenas cinqüenta formandos por
ano. Preocupação para uns, sorte para outros, como o
uruguaio Alberto Merletti Cánepa, 31 anos, que em 1994
veio passar o Carnaval em Florianópolis, apaixonou-se
por uma brasileira, casou e ficou. Cánepa, advogado,
virou professor de espanhol em São Paulo. "Era
muito complicado adaptar meu currículo de direito",
explica. Na mesma onda de aperfeiçoamento do portunhol,
Jaime Mauricio Marineiro, engenheiro químico nascido
em El Salvador, é dono do Grupo Hispano, que oferece
cursos do idioma em Curitiba. Filho ingrato do amadorismo,
hoje exige diploma de seus professores. "Não aceito
pára-quedistas na profissão para trabalhar comigo",
gaba-se.
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