Edição 1 623 -10/11/1999

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Nova profissão

Na falta de professores qualificados,
amadores tomam conta das aulas de espanhol

Rachel Campello 

Joel Rocha
Marcela, socióloga: "É gratificante
e ajuda a conservar as raízes"


Seja por causa da globalização, do Mercosul ou das concorridas temporadas de turismo, falar espanhol – de modo decente, muito distante do portunhol arranhado até agora – está virando artigo de primeira necessidade no Brasil. Com isso, abre-se a perspectiva de emprego, como professor de espanhol, para uma multidão de pessoas que dominem essa língua. Os colégios do ensino básico preparam-se para a implantação de uma lei, ainda sem data marcada, que os obrigará a incluir o idioma no currículo. Estima-se que essa providência, acrescida das novas pressões sobre os cursos de línguas, abra mercado para 200.000 professores. Nas grandes empresas, candidato fluente na língua de Cervantes já tem preferência garantida. "Dentro de uns dois anos, o espanhol vai ser tão exigido quanto o inglês", antecipa Sofia Esteves, da DM Recursos Humanos. Alunos, portanto, não faltam. Quem são os professores?

No momento, qualquer um que fale espanhol é bem-aceito, com remuneração média de 30 reais a hora. "Nascer em país de língua espanhola não basta, mas é meio caminho andado", confirma a colombiana Marcela Narvaez Botero, 32 anos, que há nove ensina em Curitiba. Formada em sociologia, Marcela nunca exerceu a profissão. Assim que saiu da faculdade, casou-se com um brasileiro, mudou-se para o Brasil e pôs-se a dar aulas. "É muito gratificante e ajuda a conservar minhas raízes vivas", avalia. Rosemeire da Silva, que cursou espanhol na Universidade de São Paulo, a USP, e hoje é professora dessa língua no Colégio Bandeirantes, na capital paulista, lamenta a didática precária dos professores, mas não vê saída a curto prazo. "Vai levar pelo menos quatro anos para que tenhamos profissionais bem preparados", prevê. No Pueri Domus, em São Paulo, a coordenadora do curso de espanhol, Alida Muller, 50 anos, é italiana, formada em história. "Sou fluente em espanhol porque morei dez anos no Uruguai e dois na Costa Rica", diz Alida. Dos nove professores sob sua orientação, só três são formados em língua espanhola. "Não há como atender à demanda só com quem possui diploma", justifica.

Fotos: Claudio Rossi

Alida, formada em história,
e Cánepa, advogado: adaptação ao mercado

Casou e ficou Quando o ensino do espanhol se tornar obrigatório, o Brasil terá alguma dificuldade em reunir o número necessário de professores qualificados. "Onde vão arranjar tanta gente?", indaga Maria Victoria Rebori, professora da USP, de onde saem apenas cinqüenta formandos por ano. Preocupação para uns, sorte para outros, como o uruguaio Alberto Merletti Cánepa, 31 anos, que em 1994 veio passar o Carnaval em Florianópolis, apaixonou-se por uma brasileira, casou e ficou. Cánepa, advogado, virou professor de espanhol em São Paulo. "Era muito complicado adaptar meu currículo de direito", explica. Na mesma onda de aperfeiçoamento do portunhol, Jaime Mauricio Marineiro, engenheiro químico nascido em El Salvador, é dono do Grupo Hispano, que oferece cursos do idioma em Curitiba. Filho ingrato do amadorismo, hoje exige diploma de seus professores. "Não aceito pára-quedistas na profissão para trabalhar comigo", gaba-se.



 
 
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