Eu consegui um estágio!

A importância do primeiro contato
dos estudantes com o mundo profissional

Sérgio Teixeira Jr.

Foto: Claudio Rossi
Estagiários na fábrica da Natura, em São Paulo:
preferência na hora da contratação

Pois é, chegou a hora. Depois de dois ou três anos como estudante universitário, você acabou de acertar os últimos detalhes para iniciar um estágio profissional nos próximos dias. Anime-se, porque vale a pena. Algum amigo seu pode achar inútil e querer convencê-lo de que fazer estágio numa empresa não é tão importante assim. Vai dizer que o dinheiro é pouco e que você não aprenderá nada de aproveitável para a sua carreira. Tentará mostrar que você corre o risco de ser apenas um ajudante de luxo, bom somente para operar a máquina de fotocópias ou fazer trabalho de mensageiro. E, se nenhum argumento funcionar, dirá que sua chance de efetivação é mínima. São observações tão enraizadas no imaginário do estudante que é de pensar se não é mais interessante ficar tomando chope no bar e deixar para procurar um emprego "de verdade" depois da formatura. Quem pensa assim está enganado. Os estágios não são mais apenas uma imposição burocrática da faculdade, mas uma fonte importante de recrutamento de novos profissionais. É isso, pelo menos, o que dizem os diretores de recursos humanos das grandes empresas e os especialistas em garimpar talentos para os programas de seleção.

"Um ano de estágio
equivale a dois
na sala de aula."
Carlos Salles,
presidente da
Xerox do Brasil
Foto: Renan Cepeda  

O estágio é cada vez mais uma porta de entrada dos jovens para a vida profissional, e o aprendizado vai muito além da simples oportunidade de aplicar os conhecimentos adquiridos nas salas de aula. Tudo é novidade: o relacionamento com pessoas mais velhas, que conhecem na prática a carreira que você escolheu, o ambiente de trabalho e até mesmo a maneira de se dirigir às outras pessoas. "O estudante que passa pela experiência do estágio fica mais maduro e mais seguro", diz Sylvana Rocha, gerente educacional do Centro de Integração Empresa-Escola, Ciee, uma entidade que recebe currículos de estudantes do todo o país e os indica às empresas. "E muitas vezes ele nem percebe que já tem uma vantagem na hora de competir no mercado de trabalho", completa Sylvana.

"Aprendi mais no
estágio do que
na universidade."
Márcio Thomaz Bastos,
advogado criminalista
  Foto: Eduardo Albarello

As empresas estão investindo mais nesses programas, tanto em quantidade como em qualidade. Em 1997 foram preenchidas 85.000 vagas de estágio em todo o país. Neste ano, esse número deve passar de 110.000, incluindo os universitários e os estudantes de cursos profissionalizantes, de acordo com o Ciee. O trabalho do estagiário está ganhando mais importância. As empresas possuem quadros de funcionários cada vez menores, mas essa não é a única explicação. O estudante hoje tem responsabilidades e é encarado como um potencial novo funcionário. "No passado, nossas vagas eram sempre preenchidas por pessoas indicadas por alguém da empresa", diz Délsio Klein, diretor de recursos humanos do Citibank. "Hoje damos preferência aos estagiários ou a quem fez parte do nosso programa." O raciocínio é simples: o estagiário já passou por uma triagem e é uma pessoa que a empresa já conhece e vice-versa. "Mais ou menos 70% dos nossos estagiários conseguem ser efetivados", garante Claudio Piotto, responsável pelo programa da Natura, uma das maiores fabricantes de cosméticos do país. Dado animador, não?

"Foi no estágio que
tive contato com as
negociações trabalhistas."
Luiz Adelar Scheuer,
diretor da Mercedes-Benz e
ex-presidente da Anfavea
Foto: Claudio Versiani  


Para usar

Foto: Warner Bross, Divulgação

O candidato ideal — Conseguir vaga de estagiário numa grande empresa não é fácil. Em alguns casos, há mais de cinqüenta candidatos disputando uma vaga. O perfil considerado ideal pelas empresas está mudando. Antes, bastava ao universitário cursar uma escola de renome e ter boas notas. Isso não é mais condição suficiente. Segundo os responsáveis pelos processos de seleção, os candidatos precisam saber mexer com computador e ter noções de um idioma estrangeiro, de preferência o inglês. Mas muito mais importante é demonstrar vontade de aprender e curiosidade. "A única característica que se espera de um bom estudante é que ele esteja interessado em aprender e se desenvolver", diz Claudio Neszlinger, diretor de recursos humanos da Microsoft, que produz programas de computador. "Os candidatos que têm como objetivo apenas se formar e conseguir emprego estável possuem pouquíssima chance de obter uma vaga."

Experiência variada — Em geral, as companhias preferem os alunos que estão no penúltimo ou no último ano do curso. Mas um número cada vez maior de universidades permite que alunos do 2º ano já se candidatem a uma dessas vagas. Isso é uma vantagem: quem estuda administração de empresas pode passar seis meses no departamento de marketing e outros seis na área financeira da empresa, por exemplo. "Quanto mais variada for a experiência do estágio, melhor", ressalta Sula Vasconcellos, da Companhia de Talentos, uma firma que recruta e seleciona universitários. Os jovens têm entusiasmo de sobra — e inexperiência também. Por isso, correm o risco de confundir a realidade da profissão que escolheram com a dos profissionais de uma só empresa.

Vida acadêmica — O fundamental, dizem os especialistas, é encarar a oportunidade como um aprendizado, não como uma competição precoce por emprego. O estagiário não pode abrir mão da vida acadêmica para se empenhar no trabalho. É um erro. Basta perguntar a qualquer pessoa que esteja hoje voltada exclusivamente para o trabalho se gostaria de ter uma nova chance de estudar. Também não vale a pena criar a expectativa de que o desempenho será notado e elogiado sempre. Espera-se um estudante que cometa erros e se sinta inseguro, e não o contrário. "O mais importante para mim foi o amadurecimento", diz Andrea Marina Liberman, uma estudante de São Paulo que faz estágio na área de marketing da Microsoft. "Depois de cometer alguns erros acabei me sentindo mais segura e hoje encaro a vida profissional de outra maneira."

Com reportagem de Priscila Sérvulo




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