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Diploma heterodoxo
Novos cursos superiores
mostram que
há futuro fora das carreiras tradicionais
Aida Veiga
| Foto: Marcos Hermes |
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Faculdade de
design, em São Paulo: vestibular
concorrido e 290 vagas preenchidas |
Que tal fazer carreira trabalhando exatamente no que gosta
e, ainda por cima, agradar a papai e mamãe? Pois alegrem-se candidatos
a designer, fotógrafo, hoteleiro e chef de cozinha. Várias instituições
de ensino superior no Brasil estão inaugurando cursos de bacharelado,
com direito a diploma universitário e tudo, para essas profissões
que, até pouco tempo atrás, eram vistas como coisa de gente pouco
chegada ao estudo. "Ainda vai surgir uma dezena de cursos novos
em outras áreas", aposta o headhunter Simon Franco, dono de
uma consultoria de recursos humanos. "Pode parecer uma onda
passageira, mas estou convencido de que o mercado precisa mesmo
de pessoas altamente especializadas em lazer e estilo."
Com o saturamento das profissões
tradicionais, como medicina e engenharia, era natural que muitos
jovens procurassem carreiras menos ortodoxas. Isso levou a que algumas
instituições de ensino corressem atrás desse público, criando currículos
que sistematizassem um tipo de conhecimento acumulado de forma aleatória
no dia-a-dia. As pioneiras, nessa seara, foram as faculdades de
moda, que existem há doze anos e já formaram gente famosa, como
o estilista paulista Alexandre Herchcovitch. Hoje, de Londrina,
no Paraná, a Fortaleza, no Ceará, dezoito instituições de ensino
oferecem cursos de moda de nível universitário, com aulas tanto
de criação quanto de confecção de roupas, além de noções de história
e estética. Uma delas, a Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo,
onde se graduou o excêntrico Herchcovitch, exibe neste semestre
a prova definitiva da evolução do velho corte e costura: dá partida
em um curso de pós-graduação em moda, dedicado à formação de professores.
Estrella a postos, no
Copacabana Palace:
faculdade ajudou |
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Foto: Oscar Cabral |
O impulso definitivo para a implantação de cursos pouco
convencionais de nível superior veio em 1996, quando entrou em vigor
a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB, mais sintonizada
com um mercado de trabalho em constante mutação e que se expande
em direções imprevisíveis para os futurólogos de trinta anos atrás.
"A sociedade está precisando de profissionais mais qualificados
por exigência do próprio mercado. E tal qualificação só a formação
acadêmica pode proporcionar", acredita Rui Otávio de Andrade,
presidente de uma das comissões do Ministério da Educação, o MEC,
encarregadas de avaliar os novos currículos. Essa exigência se traduz
em números eloqüentes. Todas as 290 vagas do primeiro curso de design
digital e de embalagem da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo,
aberto neste mês, foram preenchidas. Trata-se, no caso, de uma dissidência
do velho e bom desenho industrial, adaptada à demanda de profissionais
especializados em marketing e em informática. O curso de bacharelado
em fotografia, oferecido pelo Senac de São Paulo, teve três candidatos
disputando cada uma de suas oitenta vagas. Isso num mercado em que
o estuário natural dos profissionais, o fotojornalismo, anda mais
do que saturado. As vagas para fotógrafos de boa formação estão
agora na documentação e preservação de acervos culturais e artísticos,
departamento de onde se vem sacudindo com vigor inédito a poeira
do desinteresse geral. "Quero ter cultura fotográfica, aprender
sobre arte, arquivo, digitalização", diz Guilherme Maranhão,
23 anos, ex-aluno de duas faculdades, matriculado (e aparentemente
realizadíssimo) no curso do Senac.
Ampliar horizontes teóricos
e práticos é promessa de todos os cursos que ganharam status universitário
(veja quadros). Mais preparados, seus alunos naturalmente
são chamados para os melhores empregos existentes em cada área.
O carioca Roberto Estrella, 29 anos, que está no último período
de hotelaria da Faculdade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, comemora
sua rápida ascensão, de funcionário subalterno do Hotel Caesar Park
a chefe de um pedaço do Copacabana Palace. "A faculdade pesou
quando me escolheram para o cargo", acredita Estrella. Neste
ano, com a bênção e o estímulo do MEC, o Senac de São Paulo abriu
um curso de hotelaria, com aulas de administração, informática,
culinária e comunicações.
Mestre-cuca Na fila para o bacharelado,
o próximo candidato de peso é a culinária, que há algum tempo deixou
as escolinhas de bairro e vem ganhando espaço nas universidades
na forma de curso técnico. Em agosto, a Universidade de Brasília,
UnB, inaugura o seu, com duração de dois anos, em parceria com a
francesa Le Cordon Bleu, a mais tradicional escola de forno e fogão
do mundo. A intenção é formar chefs de cozinha de gabarito internacional.
"Serviço, turismo e lazer são áreas estratégicas para o futuro
do país", acredita Timothy Mulholland, vice-reitor da UnB.
A paulista Anhembi Morumbi também oferece um curso superior de gastronomia,
com noventa vagas disputadas a tapa. "Sempre gostei de cozinhar,
mas nunca pensei que pudesse me formar nisso", festeja, animada,
a futura mestre-cuca Gabriela Oliveira, de 20 anos.
De volta ao bê-á-bá
Os dados de educação brasileiros
sempre foram motivo de vergonha. Um em cada cinco brasileiros
com mais de 30 anos é totalmente analfabeto e outros três
pararam de estudar antes de completar o ensino fundamental.
Lentamente isso está começando a mudar. Nos últimos cinco
anos, 1 milhão de pessoas com mais de 30 anos voltaram à escola
para aprender a ler ou completar o curso fundamental e médio.
São empregadas domésticas, lixeiros, operários da construção
civil e metalúrgicos que corriam o risco de perder o emprego
ou não ter a chance de obter uma colocação melhor. É um número
impressionante. Nem o Mobral, que por quinze anos foi o maior
programa oficial de alfabetização do país, conseguiu resultados
tão positivos. "Essas pessoas foram à luta porque descobriram
que, sem estudo, não teriam nenhuma chance no mercado de trabalho",
diz Maria Helena Guimarães de Castro, presidente do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, ligado ao Ministério
da Educação.
Hoje, são raras as empresas
que admitem em seu quadro funcionários sem instrução. Os concursos
públicos para lixeiro exigem o ensino fundamental completo,
e nenhuma montadora do país contrata um metalúrgico sem que
ele tenha concluído o nível médio. O exemplo mais clamoroso
dessa mudança ocorreu na indústria da construção civil, que
empregava, até alguns anos atrás, 70% de analfabetos. Uma
pesquisa do setor revela que, quando o operário é letrado,
ele mistura a quantidade certa de cimento e quebra menos tijolos
na hora de erguer as paredes dos prédios. O desperdício de
material cai pela metade e a produtividade da obra aumenta
20%. Resultado: a indústria da construção transformou-se em
um dos segmentos econômicos que mais investem na educação
de seus empregados.
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