Primeiros passos

Pequenos na pré-escola: atenção redobrada

Aida Veiga

Foto: Claudio Rossi
Escola infantil: o equilíbrio delicado entre vigiar
e interferir

Pôr o filho ainda bebê em creche ou escolinha é atitude que cruzou definitivamente a fronteira de opção para necessidade. Com o batalhão de mães que trabalham fora aumentando a cada instante, a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE mostra que quase 70% das crianças brasileiras de até 6 anos estão na pré-escola — o triplo de vinte anos atrás. Muitas delas estarão passando nesta semana pela experiência: pisar sozinha em terreno totalmente estranho, sem mamãe, sem papai, sem sequer saber falar direito. Parece meio apavorante, e é mesmo, especialmente para os pais ansiosos. Além de sofrer com a angústia da separação, é bom que saibam: também devem estar preparados para agir como fiscais do bem-estar dos pequeninos. Pelo menos enquanto não entrarem em vigor as diretrizes que o Ministério da Educação acaba de elaborar, num incipiente esforço para pôr ordem num setor sem nenhum tipo de controle sistemático ou regulamentação específica.

Meili e Iara: a
filha não comia, a
mãe não entrava
Foto: Egberto Nogueira  

Queixas de descuido e despreparo há, e muitas, mas dificilmente se leva um caso adiante. Quando algo acontece, o normal é os pais tirarem o filho da escola, a mãe ser tachada de "chata", a criança, de "difícil", e ponto final. Os casos fronteiriços, aqueles situados no limite do previsível, costumam passar batidos. No ano passado, a bancária Tânia Lockener, do Recife, levou seis meses para perceber que vinham da escolinha Ensino Dinâmico as manchas que notava no corpo da filha Isabela, de 3 anos: eram mordidas de um coleguinha, justamente o neto da dona da escola, Marival Oliveira Lima. Segundo Tânia, a escola não deu ouvidos a suas queixas e tentou de todas as maneiras encobrir o hábito do garotinho. "Além de permitir uma agressão dessas, ainda tentaram proteger o menino", reclama Tânia, com o coração materno ferido. Marival diz que não se lembra do caso, mas argumenta: "Mordida nessa idade é coisa normal".

"Sem exceções" — Hoje em dia qualquer pessoa, não importa seu preparo e grau de instrução, pode abrir uma pré-escola: basta mostrar CIC e RG, fazer registro na Receita Federal como prestador de serviço e inaugurar. A partir do ano que vem, algumas normas básicas terão de ser seguidas. São os Subsídios para Credenciamento, cartilha do Ministério da Educação que estabelece as condições mínimas, como espaço e qualificação de funcionários, para o funcionamento das pré-escolas (veja quadro). O MEC também elaborou propostas de currículos, que serão distribuídas nesta semana para as 600.000 pré-escolas e creches do país. Ao contrário dos subsídios, porém, sua adoção não é obrigatória: caberá aos municípios endossá-las. Diante da ausência de normatização, nem quem é do ramo escapa de problemas com pré-escola. O presidente da Associação de Pais e Alunos do Estado do Rio de Janeiro, João Luiz de Faria, confiou em ótimas referências para, há dois anos, matricular o filho João Pedro, então com 2 anos, na Escola Integrada do Leme. Segundo o pai, o menino passou a ter comportamento agressivo, aprendeu palavrões e habituou-se a partir para a briga a qualquer provocação. Alertada, a direção melindrou-se. "Disseram que não iriam permitir que os pais interferissem na administração da escola", conta. Faria tirou o filho de lá. Sendo ele quem é, pouco tempo depois os responsáveis foram trocados. O atual diretor, Luciano de Melo, diz que não pode "responder por atos do passado", mas garante: "Estamos abrindo a escola para os pais".

Pais e direção de pré-escolas vivem, de fato, uma relação delicada. Mães de crianças pequenas podem pôr à prova a paciência da mais dedicada professorinha, querendo interferir em tudo. É fato, igualmente, que sua presença tem de ser controlada: crianças pequenas não agem naturalmente quando há pais, seus ou de outros, na sala de aula. Em nome do bom andamento dos trabalhos, as escolas fazem do portão de entrada uma barreira que só abrem em festinhas e reuniões. No ano passado, a engenheira Iara Chao tirou a filha Meili, de 2 anos, da escola Patotinha, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, porque percebeu que a menina comia pouquíssimo e vivia gripada. Iara diz que tentou alertar a escola, onde Meili almoçava, mas não foi bem recebida. "Só queria conversar de vez em quando com os professores sobre Meili, saber de seus progressos e dificuldades", afirma, indignada. A escola, que desde então mudou de nome e de bairro, responde que Meili agia normalmente nas refeições e que Iara exagerava. "Na Patotinha, as mães não entravam nem pediam isso. Não podíamos abrir exceções", justifica a orientadora pedagógica Mara Cristiane Rodrigues.

João Luiz com
o filho João
Pedro: agressivo
Foto: Renan Cepeda  

"Falha indesculpável" — A brecha entre pais e direção pode render bem mais que uma briguinha. Em outubro de 1997, Higor, 7 meses, filho do comerciante gaúcho Renato Britto Ely, foi hospitalizado com hematomas e mordidas. Uma investigação mostrou que a responsável pelo berçário da escolinha Pingo de Gente deixou os bebês sozinhos. "Higor caiu do berço e foi mordido por uma criança maior que ele", conta Ely, que, numa atitude rara, está movendo uma ação indenizatória. A escola despediu a funcionária e tomou a providência de praxe: trocou de nome. "Foi uma falha indesculpável da moça, que trabalhava conosco havia anos e era de confiança", diz a dona, Maria da Graça Smith. A escolinha de Higor foi escolhida pelos elogios freqüentes que recebia. É um indicador importante, mas há outros. "De nada adianta um projeto pedagógico fantástico, uma casa grande, com árvores, se a criança não receber carinho, cuidado e atenção", enumera a educadora Neda Martins, autora do livro Em Busca da Escola Ideal.

Fotos de Lis Wood/Antonio Milena/Rosana Naggar/Alexandre Tokitaka/Rosa Gauditano

Com reportagem de Cristine
Prestes, de Porto Alegre, Dina Duarte, do Recife,
e
Manoel Fernandes, do Rio de Janeiro




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