Doutor
metalúrgico
Quem
prospera nas montadoras brasileiras
são operários poliglotas, com diploma
universitário e estágios no exterior

Silvio
Ferraz
Joel Rocha

Linha
de produção dos carros da marca Audi, da
Volkswagen, no Paraná: muita tecnologia, pouco
ruído, nenhuma graxa |
Nos
idos dos anos 80, quem perguntasse pelo engenheiro na linha
de montagem de automóveis ouviria a piada vinda de
um metalúrgico: "Dê uma espiada na fábrica.
O engenheiro é o que não estiver fazendo nada".
Hoje a resposta mais provável, vinda de um homem vestido
de macacão e operando máquinas, será:
"Sou eu mesmo". Ele é o retrato de um novo tipo de
operário que está se tornando mais numeroso
nas linhas de produção dos setores industriais
de vanguarda do país. O eletricista do passado agora
é o engenheiro eletrônico. O mecânico é
chamado atualmente de "coordenador de processos tecnológicos".
E é isso mesmo que ele faz. Algo complexo e de alta
responsabilidade. O ex-técnico tornou-se um tecnólogo,
formado em curso superior com três anos de duração.
Poucos são apenas "peões" ou "orelhas secas",
como se chamavam popularmente os operários de chão
de fábrica. Os funcionários das montadoras de
veículos passaram a ostentar títulos, como controlador
de tecnologia avançada e condutor de processos automáticos.
Mas não foram apenas os títulos que se tornaram
mais sonoros. Mudaram também os homens. Há um
novo metalúrgico.
Em
1991, apenas 27% dos 23.000 empregados
da Volkswagen brasileira possuíam o 1º grau completo.
Hoje, são 86%. A VW já conta com uma força
de trabalho mais educada que a média da população
brasileira. Tem 40% de funcionários com 2º grau
completo e 15% de universitários. Na General Motors
7,3% são universitários e 2,2% freqüentam
atualmente um curso de pós-graduação.
Na Fiat, um em cada dez operários fez curso superior.
Quantos eram os universitários no chão da fábrica
da Fiat há vinte anos? Zero. Para que tanta qualificação?
Porque fazer um carro hoje é uma tarefa que exige habilidades
muito mais ligadas ao intelecto que à força.
Foi-se o tempo em que um pára-choque de aço
pesava 4 quilos e precisava de três homens para firmá-lo
no local enquanto outro o aparafusava (veja
quadro).
Ricardo Benichio

Silvano
Veronez, de 27 anos, há seis na General Motors,
é "mecatrônico" e está terminando
a faculdade de engenharia de produção e
um curso de inglês: "Meu desafio é fazer
o mestrado de engenharia automobilística"
|
O que vem ocorrendo nas montadoras é um sintoma do
que está acontecendo no país, e em todo o mundo,
na área da produção e do trabalho. Com
a abertura dos mercados e a exigência cada vez maior
de eficiência, empresas e trabalhadores são,
atualmente, muito diferentes do que eram pouco tempo atrás.
A mudança tem sido rápida e radical. Novas tecnologias,
mais limpas e precisas, são desenvolvidas e, a cada
ano, os modelos de carros refletem tais mudanças. As
pessoas têm de se adaptar aos novos tempos para manter
o emprego. Nesse processo, a educação tornou-se
uma arma fundamental. Não a educação
fornecida pelo Estado, a alfabetização ou o
ensino básico. E sim a formação profissional
especializada, que é obtida por iniciativa dos trabalhadores
ou pelo esforço das empresas em conseguir mão-de-obra
de gabarito internacional. O passeio que se dará a
seguir pelas maiores montadoras instaladas no Brasil, portanto,
é um sintoma de uma revolução muito mais
ampla. Uma revolução econômica, na forma
de produzir, e uma revolução cultural, que diz
respeito à construção de profissionais
bem formados.
Primeira
constatação: o barulho ensurdecedor do "linhão"
foi abafado. Hoje, máquinas automáticas e robôs
são comandados por computadores. A ferramenta mais
comum, símbolo de gerações de operários,
a chave inglesa, deu lugar aos teclados dos computadores.
Seus operadores são chamados de "mecatrônicos"
uma espécie de técnico de alto nível
que põe a mão na massa e não fica apenas
dando ordens, como no passado. "Sem eles, seria impossível
competir com dezesseis montadoras implantadas no país",
diz Carlos Alberto Martorelli, diretor-geral da fábrica
da General Motors em São Caetano, a cidade da Grande
São Paulo cujo nome andou por todo o Brasil recentemente
levado pela camisa "azulão" do time de futebol local.
Ricardo Benichio

Ubirajara
Fiorini, de 26 anos, técnico em eletrônica,
entrou na Volkswagen há seis anos. Formou-se engenheiro
com uma bolsa oferecida pela empresa e agora faz pós-graduação
em gestão de qualidade |
Quem passa em frente das instalações da General
Motors nem sequer imagina que o vetusto prédio construído
em 1929 em São Caetano é hoje um berço
de novas tecnologias. Mas o fato é que a GM monta carros
e constrói motores com receitas tão novas que
metalúrgicos que deixaram a empresa há apenas
um ano têm de se reciclar se quiserem voltar à
linha de montagem. "Hoje, na GM, a máquina mais antiga
tem apenas um ano de defasagem em relação à
mais moderna de uma unidade européia", diz Martorelli.
A GM investiu no ano passado 9,5 milhões de dólares
em cursos para seus funcionários. É um valor
dez vezes maior que o que se costuma gastar com educação
interna. Mais significativa, talvez, que o total dos investimentos
feitos é sua qualidade. A empresa gastou esse dinheirão
em aulas de informática, matemática financeira,
estratégias de negociação e trabalho
em grupo. A empresa oferece cursos de inglês, alemão
e espanhol.
Silvano
Veronez, 27 anos e seis de GM, entrou para a fábrica
como costureiro de bancos. Formou-se em mecatrônica
e aguardou a vaga que, um dia, poderia surgir. Hoje controla
injetores de plástico que moldam peças plásticas
dos carros. Não parou aí. Cursa o 4º ano
da faculdade de engenharia de produção e já
está no grau mais avançado do curso de inglês.
Dono de um Corsa Super quatro portas do ano, noivo e morando
com os pais em casa própria, Silvano registra: "Dei
um salto de dez anos na minha vida profissional. E não
vou parar. Faço também computação
e meu desafio é cursar o mestrado de engenharia automobilística,
um curso da Universidade de São Paulo em convênio
com a General Motors".
No ano passado a Volkswagen gastou 13 milhões de reais
em treinamento, um valor recorde na história da companhia
no Brasil. Em 2001 serão 18 milhões de reais.
"Estamos mandando 250 empregados para aprender novas tecnologias
e processos em solda a laser e pintura nos centros de excelência
da empresa espalhados pelo mundo", informa Clébio Ribeiro,
gerente de desenvolvimento de pessoal. "Com a qualificação
de alguns anos atrás nossa equipe não seria
capaz sequer de colocar a fábrica em funcionamento."
Eugenio Savo

O
ex-lavrador Matias José da Silva, de 41 anos, que
já fez dez cursos, desde leitura de mapas até
eletropneumática. Tornou-se condutor de processos
integrados. Seu filho Glauber, de 19 anos, que cuida da
radiografia de motores: computador desde o primeiro dia
|
Na Volkswagen, em São Paulo, a engenheira elétrica
Sheyla Souza de Menezes, 25 anos, personifica bem a figura
nova do doutor metalúrgico. Cabelos negros, compridos,
articulada, Sheyla abandonou o curso de direito no Mackenzie
e formou-se em engenharia. Hoje, anel de pedra azul no dedo,
a doutora Sheyla faz seu dia-a-dia de macacão no chão
da fábrica, onde as mulheres ainda são minoria
absoluta. Apenas 1% da força de trabalho dos metalúrgicos
é feminina. "Os robôs são adoráveis
máquinas com aparência desengonçada que
às vezes têm chiliques", diz ela. É nesses
momentos que ela entra em ação. Também
funcionário da casa, Ubirajara Cenedesi Fiorini, de
26 anos de idade, ilustra o outro tipo de operário:
o sobrevivente dos processos de modernização
das empresas. Há seis anos Ubirajara era técnico
em eletrônica. Formou-se em engenharia com uma bolsa
de estudos paga pela empresa. Salvou-se. Seu salário
cresceu 30% e ele já se prepara para enfrentar a nova
onda tecnológica que se anuncia. À noite, ele
tira o macacão e mergulha nos livros: faz um curso
de pós-graduação em gestão de
qualidade.
"Estamos
falando de um mundo em que os motores dos carros de passeio
incorporam corriqueiramente as tecnologias da Fórmula
1", informa o engenheiro Túlio Machado Nogueira, diretor
adjunto da fábrica de motores da Fiat. "Precisávamos
de um novo metalúrgico. Capaz de trabalhar com equipamentos
modernos, ter liderança e conhecer idiomas para interagir
com técnicos estrangeiros", diz Nogueira. Para manter
seu emprego de seis anos na Fiat, num mundo competitivo como
o descrito pelo engenheiro Nogueira, o metalúrgico
Alexandre Andrade, de 31 anos de idade, entregou-se com afinco
aos estudos. Ele morou trinta meses na Itália, onde
se formou no Master Fiat, mestrado organizado por professores
europeus dentro da fábrica de Turim. As mudanças
são rápidas. E radicais. Elas eliminam os ruins
e premiam os melhores. O gerente-geral da Fiat, José
Vieira Sobrinho, de 46 anos, entrou na empresa em 1975, como
um simples mecânico. O serviço era monótono
mas fácil. As exigências, poucas. Até
o chão da fábrica era ainda de terra batida.
Para subir na vida Sobrinho estudou. Formou-se engenheiro
e fez curso de pós-graduação em gerenciamento.
Viajou tanto para o exterior, onde freqüentou cursos
de aprimoramento, que seu terceiro passaporte não tem
mais folha em branco para carimbos e vistos. Sobrinho passou
oito temporadas na Itália, duas em Rochester, nos Estados
Unidos, duas na Alemanha e uma na Inglaterra.
O nível dos empregados da Fiat elevou-se e levou com
ele a massa salarial. Hoje, a empresa italiana gasta com a
folha salarial 30% mais que há cinco anos. Com 41 anos
e há 21 na Fiat, o ex-lavrador do norte do Paraná
Matias José da Silva já completou dez cursos
na fábrica. Freqüentou classes de leitura e interpretação
de mapas e eletropneumática. Agora tem o cargo de "condutor
de processos integrados". Comanda quinze funcionários.
Matias trouxe seu filho Glauber, de 19 anos, para trabalhar
na empresa. "Faço parte de um grupo de técnicos
que realiza todos os dias uma grande radiografia numérica
sobre os processos em curso na linha de produção",
diz o filho. O pai só precisou saber operar computadores
depois de quase toda uma vida na fábrica. O filho usa
desde o primeiro dia. Seu trabalho é cadastrar cada
um dos cerca de 2.000 motores produzidos
por dia pela Fiat. Seu trabalho facilita a detecção
de problemas e o atendimento individualizado ao consumidor
mais tarde. Até há pouco, os carros eram testados
com os motores funcionando durante sete minutos, na chamada
"prova quente". Hoje, testa-se assim uma amostra de apenas
3% dos motores. Os demais são examinados por máquinas
eletrônicas. A modernização das fábricas
de carros brasileiras levou à demissão de quase
a metade da força de trabalho em uma década.
Os metalúrgicos que garantiram seu emprego reciclando-se
no ritmo imposto pela competição, porém,
ganharam como prêmio salários melhores e uma
vida menos monótona e mais educada. As fábricas
ganharam sua sobrevivência. Insistir em produzir carros
pelos processos antigos teria levado todas à falência.
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Retrato
educacional dos metalúrgicos
Alguns indicadores do salto de qualidade
Em
1991, apenas 27% dos 23 000 funcionários da Volkswagen
possuíam o 1º grau completo. Hoje, são
86%. Com o 2º grau são 40% e com grau universitário,
15%
Na
General Motors, 30% dos 22 000 funcionários concluíram
o 2º grau, 7,3% estão cursando universidade
e 2,2% já iniciaram pós-graduação
Em
1980, 44% dos trabalhadores da Fiat não tinham
o 1º grau completo. Hoje, esse número caiu
para 8%. No mesmo período, a quantidade de operários
com diploma universitário, que era nula, chegou
a 11%
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O
choque do novo
Materiais,
processos e ferramentas: tudo mudou na fabricação
de automóveis
ANTES

Montagem
da Rural Willys da Ford, no Brasil, nos anos 60:
artesanal |
Os
materiais mais usados eram aço, borracha e madeira
Em toda a década de 80 foram lançados
no Brasil oito modelos
100% das soldas eram feitas manualmente
As montadoras brasileiras recebiam das matrizes máquinas
com dez anos de uso
AGORA
Os carros têm materiais recicláveis como
alumínio e plástico
Só na primeira metade dos anos 90 foram lançados
doze modelos de automóveis
99% das soldas são feitas por robôs
As montadoras têm máquinas com no máximo
um ano de uso na Europa ou nos Estados Unidos
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