Entrevista

Edda Bontempo
A Barbie é ótima

A psicóloga explica por que alguns brinquedos
fazem sucesso entre as crianças e como
os pais devem brincar com os filhos

Esdras Paiva

Brinquedo é coisa séria para a psicóloga paulista Edda Bontempo. Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, USP, ela pesquisa o assunto há mais de trinta anos. Escreveu livros e artigos que analisam questões como a influência do videogame no comportamento infantil ou as razões da longevidade da boneca Barbie — um fenômeno da indústria de brinquedos, com 37 anos no mercado. “Ela é o protótipo da mulher moderna, que tem namorado e trabalha fora”, explica. “As meninas vêem na Barbie aquilo que elas gostariam de ser.” Aos 60 anos, solteira, sem filhos, Edda já foi consultora de grandes fabricantes do setor. Atualmente faz parte do conselho consultivo da Fundação Abrinq para os Direitos da Criança e se dedica a estudar a importância das brincadeiras no processo de aprendizagem. “As melhores escolas são aquelas que usam brincadeiras e brinquedos como recurso pedagógico”, diz nesta entrevista a VEJA. “Quando a criança brinca, ela está se preparando para a vida adulta.”

Veja — Por que as crianças gostam tanto de brincar?
Edda — O filósofo e historiador Johan Huizinga, um dos principais pesquisadores do assunto, dizia que brincar é a base da cultura de um povo. É um impulso tão natural que ninguém precisa ensiná-lo a um bebê. Ele já nasce sabendo. Brincar é algo essencial, que permeia todas as situações da vida de uma pessoa, mesmo na guerra ou no amor. Quando uma criança brinca, ela está se preparando para a vida adulta. É uma forma de aprender a lidar com as coisas que estão à volta dela.

Veja — De que maneira a forma de brincar afeta o futuro de uma criança?
Edda — Estudos mostram que crianças que brincam bastante serão adultos mais ajustados e preparados para a vida. É brincando que se descobre como enfrentar situações de medo, dor, angústia, alegria ou ansiedade. Uma criança que não brinca tem algum problema que afeta sua capacidade criativa. Nesse caso, é bom que os pais conversem com ela para entender o que está ocorrendo. Em situações extremas, deve-se procurar a orientação de um especialista.

Veja — Os pais devem controlar o modo como os filhos brincam?
Edda — Brincadeira é um exercício de criatividade. É preciso que a criança tenha liberdade para brincar como achar melhor. Mas é bom frisar que durante a brincadeira ela também reconhece seus limites. Enquanto ainda não ingressou na escola formal, a criança deve brincar o máximo que puder. Depois, é conveniente estipular horários, de modo a conciliar o tempo dedicado aos brinquedos com as tarefas escolares. Os pais também devem limitar os espaços da brincadeira. Cozinha e banheiro não são lugares para brincar. A criança pode ter seu quarto de brinquedos. Tudo tem de ser equilibrado e organizado. Mas os pais não devem impor a sua vontade. É bom conversar, explicar as razões de cada determinação.

Veja — Os pais devem participar das brincadeiras dos filhos?
Edda — Os pais que brincam com as crianças são mais felizes porque compreendem melhor os filhos. Para isso, é preciso não ter medo de passar por ridículos. Para entrar no universo das crianças, é necessário sentar e rolar no chão, andar de quatro, ficar no mesmo nível delas. Os pais devem fazer esforço para se lembrar de como brincavam quando eram pequenos. Precisam também conhecer os brinquedos dos filhos. Essa experiência costuma ser muito gratificante. Os filhos adoram brincar com os pais.

Veja — Brincadeiras coletivas são melhores do que aquelas em que as crianças brincam sozinhas?
Edda — Isso varia com a idade. Crianças muito pequenas não conseguem brincar com muita gente. Os grupos vão aumentando à medida que elas vão crescendo. Jogos em grupo são importantes para o reconhecimento dos limites e dos parâmetros de convivência. Nas brincadeiras que usam regras, a criança desenvolve estratégias. “Agora é a minha vez de jogar”, “pisou na linha, está fora” são expressões comuns dessas brincadeiras e indicam um aprendizado. Se perder ou errar, ela vai pensar como deve fazer para ganhar ou acertar na próxima vez. É um aprendizado lúdico, em que se acumulam experiências por tentativa, erro e acerto.

Veja — O que os pais devem levar em consideração na hora de escolher um brinquedo para os filhos?
Edda — De modo geral, os adultos não sabem comprar brinquedos. Muitas vezes escolhem coisas que os filhos não usam. São objetos de aparência bonita, que as crianças não entendem e abandonam logo depois de abrir o pacote. Os pais precisam confiar mais na capacidade de escolha das crianças. O correto é perguntar aos filhos o que gostariam de ganhar. Uma vez um pai me contou que o filho dele ganhou de presente um brinquedo muito bonito, mas se interessou mesmo foi pelo papel da embalagem. Ou seja, a criança não entendeu o brinquedo, que era inadequado para a idade dela. Por isso, preferiu brincar com o papel colorido que fazia barulho ao ser manuseado. Esse deve ser o primeiro critério na escolha de um brinquedo. É importante que ele seja adequado para o desenvolvimento da criança. Jogos com regras complexas, por exemplo, não servem para uma criança com menos de 5 anos.

Veja — Que brinquedos são recomendados para cada faixa etária?
Edda — Crianças até 2 anos não gostam de cores escuras. Preferem as primárias, vivas e fortes. Por isso, devem ganhar brinquedos coloridos, macios e sonoros. A partir de 5 anos, elas já entendem algumas regras claras e simples. Também já gostam de brinquedos de montar. Aos 10, o leque de opções é enorme e inclui os videogames e jogos de computador.

Veja — O que é um bom brinquedo?
Edda — A primeira qualidade é ser desafiador para a criança, de modo que ela se sinta estimulada a exercitar sua fantasia e a testar seus limites. Não pode ser um brinquedo muito difícil nem muito simples. Tem de provocar a criança, para que ela queira descobrir alguma coisa nova. Deve ser bem construído, durável e não tóxico. As peças devem encaixar-se com perfeição. As meninas não gostam de colocar o sapatinho em uma boneca e ver que ele sempre sai do lugar. Também não devem ser perigosos. Existem assobios que as crianças podem engolir sem querer.

Veja — Existem brinquedos mais pedagógicos do que outros?
Edda — Algumas pessoas acham que os brinquedos mais artesanais são mais pedagógicos que os industrializados. Não concordo com essa idéia. Todos os brinquedos são pedagógicos, desde que sirvam para estimular a criatividade da criança. Ela sempre aprende alguma coisa se eles forem adequados para a sua idade e nível de desenvolvimento. Existem, sim, os brinquedos educacionais, que têm um objetivo pedagógico específico, mas isso é outra coisa. São brinquedos para ensinar as letras do alfabeto, formar palavras ou identificar números. O erro é achar que a criança só vai aprender com esse tipo de brinquedo.

Veja — O que uma menina aprende brincando de boneca?
Edda — Aprende a representar o papel da mãe. Ao brincar com uma boneca, ela vai repetir aquilo que observa a mãe fazendo na rotina da casa. Vai tirar e colocar a roupa da boneca, aprender a escolher cores e modelos, a pentear o cabelo. Depois, vai pentear o próprio cabelo. No fundo, brincar de boneca é uma bela e instigante experiência a respeito da estética feminina. A criança transfere para o dia-a-dia as atividades da brincadeira com a boneca. Da mesma forma, o menino que brinca com carrinho aprende a repetir os sons do motor, da buzina, a diferença entre o que é rápido e o que é lento. Ele também desenvolve a chamada coordenação motora fina, relacionada com o movimento dos dedos.

Veja — É errado menino brincar de boneca ou menina de carrinho?
Edda — Brinquedo é um objeto que reproduz valores e conceitos de uma sociedade. Tem, portanto, forte conotação cultural. Há brinquedos que até hoje tiveram uma imagem masculina, mas isso está mudando rapidamente. Antigamente o espaço era bem delimitado. Agora já não é mais assim. Quando um menino brinca com peças de montar, do tipo Lego, no fundo está reproduzindo as brincadeiras de casinha das meninas. É claro que as abordagens são diferentes. De maneira geral, os meninos gostam mais de brinquedos ativos do que as meninas.

Veja — A boneca Barbie está no mercado há 37 anos. Já passou por várias gerações de crianças. Qual a razão desse sucesso?
Edda — As meninas admiram a Barbie porque ela é o protótipo da mulher moderna. É adulta, tem namorado, trabalha fora. As meninas vêem a Barbie como aquilo que elas gostariam de ser. Além disso, o fabricante desse brinquedo sempre foi muito esperto. Todos os anos surgem acessórios relacionados com o produto. Acho positivo o sucesso da Barbie. Vivemos em uma sociedade capitalista e competitiva, em que a mulher cada vez mais ocupa novos papéis. A Barbie é um ótimo espelho dessa sociedade.

Veja — Armas de brinquedo estimulam a violência nas crianças?
Edda — Brincar é sempre brincar. Um revólver de brinquedo não torna ninguém mais agressivo do que já é por natureza. Quando a criança brinca com essas armas que emitem luzes e sons, está representando coisas da vida real. É uma maneira de fantasiar e aprender a lidar com o mundo tão inofensiva quanto jogar botões ou videogame. O problema é quando o brinquedo se parece demais com um revólver de verdade. Nesse caso, a criança não saberá diferenciar o brinquedo de uma arma. Isso pode gerar até um acidente doméstico, caso os pais tenham uma arma guardada em casa.

Veja — O que a senhora acha dos brinquedos eletrônicos que fazem tudo sozinhos?
Edda — Não gosto. São brinquedos que transformam a criança em mera espectadora da ação. Carrinhos com controle remoto ou bonecos que andam sozinhos não estimulam a criatividade nem ajudam a criança a aprender coisas novas. Ela não pode ficar numa posição passiva em relação ao brinquedo. Ao contrário, deve ser a protagonista da brincadeira.

Veja — Esse grupo inclui os videogames?
Edda — Não, os videogames estão em outro patamar. Eles têm movimento, cor e som, mas precisam da inventividade e da participação efetiva do jogador. Há outro aspecto que diferencia o videogame dos jogos eletrônicos. Eles estimulam ao máximo a fantasia das crianças no mundo do poder. Simulam experiências incríveis, como vencer uma guerra, matar, morrer ou viver. Nesse mundo fantástico, a criança tem a força e o poder dos super-heróis.

Veja — Não é perigoso uma criança se achar um super-homem e querer voar pela janela?
Edda — Essa é outra idéia falsa dos adultos a respeito das crianças. Não pense que elas são bobas. A não ser que uma criança tenha algum distúrbio psicológico, ela sabe muito bem o que é de verdade e o que é de mentirinha. Quando imita um super-homem, está apenas representando um papel. O imaginário, o simbólico, a fantasia, tudo isso é muito normal para as crianças.

Veja — Os pais devem se preocupar com crianças que conversam com brinquedos ou amigos imaginários?
Edda — Eu conversava muito com as minhas bonecas. O amigo imaginário tem mil e uma utilidades na vida das crianças. Todas são muito boas. Em alguns casos, ele existe para substituir alguma carência afetiva da criança. Mas também é um rico exercício de criatividade.

Veja — Antigamente, as crianças brincavam de roda, pião e pega-pega. Por que as brincadeiras tradicionais não fazem tanto sucesso?
Edda — As crianças ainda gostam dessas brincadeiras. Uma pesquisa que fizemos há pouco tempo no Rio de Janeiro e em São Paulo demonstrou isso. O problema é que o espaço nas grandes cidades está mais restrito. As famílias moram em apartamentos cada vez mais minúsculos e as crianças não podem ir à praça ou aos parques sem a companhia dos pais. Nas cidades do interior, onde há mais segurança e mais espaço livre, elas ainda brincam de roda e de chicotinho-queimado. A principal mudança a respeito de brinquedos e brincadeiras nos últimos tempos não aconteceu no mundo das crianças, mas no dos adultos.

Veja — Que mudança foi essa?
Edda — Até pouco tempo atrás, a ciência dava pouca atenção ao assunto. A psicologia só estudava o brincar na ludoterapia, como um suporte do trabalho terapêutico, em tratamentos de crianças com algum tipo de distúrbio. Já os educadores olhavam o brincar como coisa de criança, sem nenhuma importância para o processo educacional. A partir da década de 70, os pesquisadores começaram a descobrir que, para as crianças, é muito mais fácil aprender brincando do que copiando as lições que o professor transcreve no quadro em sala de aula. Brincar é importante para o desenvolvimento cognitivo, para o desenvolvimento da linguagem e para a sociabilização.

Veja — A senhora quer dizer que brincadeira virou coisa séria?
Edda — Sim. Hoje as melhores escolas são aquelas que usam brincadeiras e brinquedos como recurso pedagógico. Também na psicologia passou-se a dar muito mais valor ao tema. Ao decifrar a estreita ligação que existe entre o mundo do faz-de-conta e o real, ficou mais fácil para os psicólogos entender como e por que as pessoas se comportam de determinadas maneiras. Brincar, para as crianças, sempre foi algo muito sério. Os adultos é que só estão descobrindo isso agora.




 
 
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