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Inglaterra
Direito de bater
Escolas particulares resistem à proibição
dos castigos corporais aos estudantes
Lado a lado com o chá das 5 e os ônibus vermelhos de dois andares,
uma tradição inglesa tenta a todo custo resistir. Os castigos físicos
nas escolas, prática considerada inaceitável no mundo civilizado
desde as mudanças pedagógicas ocorridas a partir da década de 50,
ainda têm defensores ferrenhos entre diretores de escola na Inglaterra.
Um grupo de quarenta adeptos da pedagogia do açoite, representantes
de colégios religiosos conservadores, anunciou na segunda-feira
passada que recorreria ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos
contra a proibição desse resquício da era vitoriana. Bater em crianças
já é proibido há doze anos nas escolas públicas inglesas. Agora,
a prática se tornou ilegal também nas particulares. Paradoxalmente,
o governo inglês foi pressionado a tomar essas decisões pelo mesmo
tribunal que examinará a queixa dos educadores inconformados. A
chance de um parecer favorável é, portanto, nula –
mas isso não deve encerrar a questão.
O mais célebre governante inglês do século, Winston Churchill,
e o príncipe Charles estudaram em colégios internos que usavam a
punição corporal para manter a disciplina. O efeito das vergastadas
com varas de bambu, o método padrão de castigo, está registrado
em romances, livros de memórias, filmes e até letras de música.
Nem sempre com mágoa – um tributo à
tradição britânica de culto à chamada formação do caráter. Em tom
quase nostálgico, muitos dos que ganharam vergões no corpo durante
a infância acreditam que se tornaram "pessoas de bem"
por causa disso. "As crianças aprendem que, se estão apanhando
de alguém que lhes quer bem, é porque fizeram alguma coisa realmente
errada", argumenta Phil Williamson, líder do movimento contra
a proibição e diretor da Christian Fellowship School, da cidade
de Liverpool. Conta com o apoio de grande número de pais, que até
mesmo assinam um termo de compromisso que delega às escolas o poder
de castigar. Os militantes da campanha na direção contrária não
vêem nada de educativo na pancadaria, e vão mais além. "Ser
vítima de maus-tratos pode desenvolver tendências sadomasoquistas
nos alunos", adverte a Sociedade dos Professores contra o Castigo
Corporal.
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Punição à indisciplina: pauladas nas nádegas
dos mentirosos
ou bagunceiros
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"Código penal" –
A turma do chicote não se restringe a um punhado de senhores com
idéias antiquadas. Há apenas três anos, a então ministra da Educação,
Gillian Shephard, declarou-se favorável à volta da prática nas escolas
do governo e passou pelo vexame de receber uma reprimenda pública
do primeiro-ministro John Major. Tão arraigada é a idéia que todo
um código penal não escrito se desenvolveu com o tempo. Os castigos
são impostos aos alunos que mentem, falam palavrões ou até àqueles
que custam a aprender as lições e variam de intensidade conforme
o "delito". Um estudante boca suja, por exemplo, pode
levar três vergastadas nas nádegas vestidas. Se for reincidente,
leva seis. Infrações mais graves podem ser motivo para chicotadas
em nádegas nuas. Eton, o célebre internato para onde são enviados
os membros da família real, guarda numa espécie de museu particular
instrumentos como o cavalete em que as crianças eram obrigadas a
se debruçar para receber sua cota de varadas. Para a Inglaterra
que se pretende hoje na vanguarda da modernidade, sob o comando
do primeiro-ministro Tony Blair, a tradição do castigo corporal
nas escolas deveria ser mesmo coisa de museu, mas um punhado de
diretores de escola está disposto a resistir.
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