Ultrapassando os limites
Como lidar com as dificuldades das
crianças
durante o processo de alfabetização
Cristina Poles
Ricardo Benichio
 |
| Amanda, 9 anos,
e uma psicopedagoga: vitória sobre os problemas
do passado |
Aos 9 anos, a paulista Amanda de Carvalho Melillo
é uma das melhores alunas da 3ª série da escola onde
estuda. Lê e escreve com desenvoltura. Ao ver seu
desempenho em sala de aula, é difícil acreditar que
teve uma alfabetização difícil e penosa. Na 1ª série,
os colegas de Amanda liam pequenos textos em voz alta
sem cerimônia. Ela, não. Escreviam com letra corrida.
Ela, não. Aos 7 anos, ainda encontrava dificuldades
para ler e escrever vocábulos simples. Detergente,
por exemplo, era detrengente, em letras disformes,
garrafais. "Ela só conseguiu se alfabetizar depois
de meses de tratamento profissional", conta a
empresária Heloísa, mãe da garota. Vítima de uma anemia
quando bebê, filha caçula, única menina, Amanda foi
superprotegida pelos pais desde muito pequena. Chegada
a hora de aprender a ler e escrever, era uma criança
insegura, com baixa auto-estima. Tinha tanto medo
de errar que nem tentava lançar-se ao desafio da leitura
e da escrita.
A vitória de Amanda sobre limitações do passado é
um estímulo para quem tem um problema semelhante dentro
de casa. Casos de crianças com comprometimento no
processo de alfabetização são mais comuns do que os
pais gostariam de imaginar. Médicos e pedagogos estimam
que cerca de 10% dos alunos enfrentam dificuldades
para aprender a ler e escrever. Os motivos variam
de distúrbios emocionais (caso de Amanda) e de atenção
a falhas pedagógicas e pequenos problemas de saúde.
Desinformados, professores e pais muitas vezes rotulam
essas crianças de preguiçosas, quando não suspeitam
que possam ser menos inteligentes do que a maioria.
A demora na identificação do problema pode produzir
conseqüências sérias para as crianças. Sem entender
por que seu desempenho escolar é inferior ao dos colegas
de classe, esses meninos e meninas muitas vezes se
julgam incapazes. "Quanto mais o tempo passa,
mais o quadro tende a se complicar", alerta a
psicopedagoga Carmen Carvalho, da Universidade de
São Paulo. Um problema isolado que poderia
ser contornado em alguns meses com a ajuda de especialistas
transforma-se num emaranhado de difícil solução
que irá acompanhar o aluno por toda sua vida escolar:
indisciplina, auto-estima prejudicada e falta de estímulo
para aprender.
Para
não perder tempo, é preciso fazer algumas checagens
acompanhadas de orientação profissional, claro. A
primeira é ver se a criança não apresenta distúrbios
auditivos, anemia, episódios de ausência (falha neurológica
que faz a criança literalmente sair do ar) ou mesmo
um quadro depressivo. Doenças podem gerar sintomas
ligados ao entrave na hora de aprender a ler e a escrever.
Descartados esses males, é preciso ficar de olho se
o problema não está ligado à dislexia, distúrbio de
origem genética que afeta até 2% da população, para
o qual a ciência desenvolveu tratamentos eficientes.
As principais características da dislexia são dificuldade
em relacionar a letra ao som correspondente e em escrever
as sílabas da palavra na ordem correta. Muitas vezes,
crianças que sofrem desse problema passam por desorganizadas,
desinteressadas e preguiçosas na sala de aula.
Para os especialistas, na busca das razões que levam
à dificuldade de aprendizagem, os pais devem prestar
atenção não só aos filhos, mas também às escolas.
"Cerca de 80% dos alunos que chegam ao meu consultório
com resistência ao aprendizado têm problemas construídos
ao longo da vida escolar", diz a psicopedagoga
Maria Lúcia Weiss, da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro. Quando o processo de alfabetização não
acontece com facilidade, além de redobrar a atenção
com o aluno, os professores deveriam destacar suas
outras habilidades. Precisam ser também mais atenciosos
com a criança para que ela não perca o estímulo de
aprender. "O ideal é que os professores festejem
cada pequeno progresso, respeitando o tempo da criança",
afirma a psicopedagoga paulista Renata Simon. Infelizmente,
nem todos os professores fazem isso.
Saiba
mais |
|
|
|