A prática
na teoria
Profissionais
com vivência em empresas
e no governo criam escolas de administração
Carlos
Prieto
R. Fasanello/Strana
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| Sala
de aula da faculdade Ibmec: escola de banqueiros |
A
última novidade em matéria de ensino na área
de administração são as escolas montadas
por gente de mercado, e não por intelectuais puros,
aqueles criados nas chamadas torres de marfim. A tendência
que já existe em outras partes do mundo começa
a se firmar no Brasil. A tradicional empresa paulista Trevisan
Auditores e Consultores montou sua faculdade. Os professores
do curso são os contadores que verificam os balanços
de companhias e planejam privatizações de estatais.
A faculdade do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais
(Ibmec), que forma gente para trabalhar em bancos e corretoras,
foi comprada pelos economistas Claudio Haddad e Paulo Guedes,
ex-sócios dos bancos Garantia e Pactual, respectivamente.
Em sociedade com o ex-presidente da Bolsa de Valores de São
Paulo Eduardo da Rocha Azevedo, os fundadores do curso de
economia da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo e João Manoel
Cardoso de Mello, montaram, no ano passado, a Faculdade de
Campinas, no interior de São Paulo. Belluzzo carrega
a experiência de ex-secretário de assuntos econômicos
do governo José Sarney e ex-secretário paulista
de Ciência e Tecnologia. Azevedo comandou a Bovespa
de 1982 a 1990 e atua no mercado financeiro com uma corretora
própria.
O que eles esperam vender a seus alunos é justamente
a solução para um problema que quem se formou
num curso tradicional está cansado de conhecer: depois
de freqüentar uma escola por quatro ou cinco anos, a
pessoa só aprende o que precisa, de verdade, quando
vai trabalhar. O que, no mínimo, é um desperdício
de tempo. "Quem está investindo em educação,
agora, são empresários com alta escolaridade,
que conhecem o tipo de gente e as habilidades que as empresas
brasileiras estão procurando. Os educadores tradicionais
precisam se mexer porque já estão perdendo o
bonde da História", diz Luiz Carlos Queirós
Cabrera, sócio da PMC Amrop International, empresa
especializada na contratação de profissionais.
"Um garoto formado numa faculdade à moda antiga chega
ao mercado, hoje, sabendo apenas 30% do que seria necessário.
O restante, as empresas têm de ensinar."
Eis algumas características que diferenciam as novas
faculdades de negócios daquelas mais tradicionais:
Os cursos são dados em salas de aula que reproduzem
escritórios. Lousa e giz são considerados instrumentos
pré-históricos.
Há terminais ligados à bolsa de valores e a
sites que informam indicadores econômicos de todo o
mundo, nos quais os alunos simulam operações.
Os alunos são, desde que entram na escola, estagiários
em uma empresa. Na Trevisan, são todos trainees de
auditoria.
Em sua face teórica, os cursos dão ênfase
aos conceitos clássicos da economia. Nada de modismos,
de debates sem-fim sobre as idéias do último
guru da administração.
Há intercâmbio regular com universidades no exterior.
Como negócio, abrir uma faculdade também traz
suas lições. Educação, no mundo
inteiro, é considerado um investimento e tanto. Recentemente,
educadores e investidores de todo o mundo se reuniram na cidade
de Vancouver, no Canadá, para discutir o potencial
do ensino como negócio. Um dos frutos do encontro foi
um trabalho realizado pela Canaccord Capital, uma consultoria
canadense de investimentos, que concluiu que o mercado mundial
de educação é de aproximadamente 2 trilhões
de dólares. Ao lado da mídia e da internet,
a educação é apontada como um dos três
maiores centros de negócios do futuro. São essas
três áreas que vão produzir e distribuir
o conhecimento, principal matéria-prima da nova economia.
"Vamos ter uma verdadeira revolução no setor
da educação no Brasil, e o momento é
propício para novos investimentos. A educação
é um ótimo negócio", diz Claudio Haddad.
É
certo que muita gente já ganhou dinheiro com a educação
no Brasil. A diferença agora é que o mercado
está mais exigente e não aceita qualquer diploma.
O tempo da formação específica ficou
para trás e o profissional é avaliado por seu
conjunto de competências. Muitas universidades não
estão conseguindo acompanhar a evolução
pedagógica e tecnológica. Defasadas, formam
profissionais cada vez mais distantes da realidade das empresas.
Para quem vive esse abismo no dia-a-dia, a chegada de novos
investimentos e novas tecnologias é muito bem-vinda.
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Instrução
a distância
Claudio Rossi
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| Curso
a distância da FGV: os alunos se encontram
só uma vez por semana |
O governo não reconhece e não fiscaliza,
mas estão se multiplicando rapidamente no Brasil
os cursos a distância, que não dão
diploma mas ensinam que, afinal, é o que
importa. As universidades católicas de Brasília
e Campinas oferecem aulas nas áreas de negócios
e administração pela internet, por teleconferência
e por correspondência (via pela qual as apostilas
chegam às mãos dos alunos). A Fundação
Getúlio Vargas montou em São Paulo um
centro de educação a distância e
há três anos dispõe de cursos virtuais.
Uma vez por semana os alunos reúnem-se numa sala
de aula, mais por uma exigência formal. De maneira
geral, os estudantes discutem seus trabalhos de grupo
em chats, assistem a aulas pela internet e entregam
seus trabalhos por e-mail. Parece prático, não
é? Agora, se já não é fácil
para o professor tradicional prender a atenção
dos alunos, calcule o desafio que enfrenta o mestre
com uma audiência distante quilômetros de
sua braveza. A fórmula para que o ensino a distância
funcione tem duas incógnitas que precisam ser
bem definidas: a uniformidade do grupo de alunos e a
adequação do instrumental pedagógico
aos objetivos da turma.
Parece fácil, mas não é. Não
adianta filmar um professor dando uma aula tradicional
e distribuir a fita pelo país afora. Ninguém
agüentaria assistir a ela. Há seis meses
no mercado, a Klickeducação descobriu
uma mina de ouro. Desenvolve material pedagógico
por encomenda para quem quer lecionar usando bem a internet.
Trabalha sem parar. "A geração de conteúdos
e o uso da pedagogia correta é que determinam
a qualidade de ensino de uma escola", diz Patrícia
Rousseau, diretora da Klickeducação. Outro
veio foi descoberto pelos irmãos Luiz Carlos
e José Roberto Mendonça de Barros, os
economistas que passaram a vida entre seus bancos e
cargos de governo. Os dois criaram a MBG & Associados,
especializada em cursos a distância para um público
muito específico. Suas aulas são programadas
e organizadas para atender encomendas de empresas interessadas
em capacitar funcionários. Começaram a
atuar em julho. Montaram um curso denominado "Empresa
e meio ambiente". Quem bolou as aulas foram especialistas
em geologia, direito, geografia e biologia. Outro pacote,
sobre o impacto da internet nos negócios, demandou
outros profissionais. "Em nenhuma universidade teríamos
tamanha liberdade para contratar técnicos de
áreas diversas para participar de um mesmo curso",
diz Lídia Goldenstein, sócia da MBG &
Associados.
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