A empresa na sala de aula
A universidade corporativa é
uma novidade entre
os programas de treinamento para funcionários
Adriana Setti
Ricardo Benichio
 |
| Boston School, do BankBoston:
desde cursos de inglês para office-boys
até MBAs |
Um dos grandes desafios do empresariado é manter
os funcionários em constante processo de aprendizagem.
Para atingir esse objetivo, as boas companhias pagam
a faculdade do empregado, reembolsam despesas com
as aulas de inglês, financiam viagens culturais
ao exterior e muitas vezes chamam especialistas para
dar palestras. A última novidade nesse campo
são as universidades corporativas. Há
mais de 2.000 delas em
atividade nos Estados Unidos. No Brasil, já
existem vinte iniciativas semelhantes. Como isso funciona?
É bom esclarecer que o nome "universidade"
é uma licença poética. Elas não
são reconhecidas pelo Ministério da
Educação como estabelecimentos de ensino
superior. Mas nem é essa a preocupação
das empresas. Para elas, o fundamental é garantir
ao funcionário uma estrutura de ensino permanente,
na qual ele aprenda coisas que serão utilizadas
no dia-a-dia da companhia. O modo como isso é
feito varia de lugar para lugar. As aulas podem ser
dadas numa estrutura física com professor,
slides ou quadro-negro, mas também podem ser
ministradas pela internet ou por redes internas. Algumas
empresas cobram a presença dos funcionários,
outras apenas delegam exercícios e depois os
corrigem. Em geral, os cursos fornecem diploma de
participação e o principal: chance de
promoção para o empregado. Dentro desse
sistema são oferecidas oportunidades incríveis
de aprimoramento. Há desde aulas de inglês
até cursos com master in business administration,
MBA.
A primeira universidade corporativa foi criada pela
General Electric na década de 70. O grande
impulso dessa revolução aconteceu nos
anos 90, com o surgimento das empresas ligadas à
nova economia. As previsões dos especialistas
apontam que, num prazo de dez anos, haverá
mais universidades corporativas nos Estados Unidos
do que os seus cerca de 3.000
institutos de ensino superior. Os analistas afirmam
que esse é um indício de que, no futuro,
as empresas americanas serão as maiores responsáveis
pela educação de pós-graduação
e especialização naquele país.
"As companhias sabem que profissional bem treinado
é sinônimo de lucro. E esse melhor treinamento
passa, sem dúvida, por uma sólida formação
educacional", diz o consultor César Souza,
que dá palestras sobre o tema nos Estados Unidos.
No Brasil, mantêm universidades corporativas
gigantes como Telemar, Brahma, BankBoston, McDonald's
e Grupo Algar. A expectativa é de que vinte
novas estruturas desse tipo apareçam a cada
ano no país. "O objetivo é descobrir
competências internas, padronizar nossas melhores
práticas e valorizar o pessoal", diz Renata
Moura, diretora de recursos humanos da Telemar.
A Boston School, fundada pelo BankBoston há
um ano, tem um MBA interno para uma turma de 26 alunos.
Para ser admitido, o "aluno" passa por um processo
de seleção rigoroso. O MBA conta com
um seleto time de consultores, professores universitários
brasileiros e seminários conduzidos por docentes
de universidades americanas. Além disso, o
curso incluirá temporadas no exterior. A Boston
School possui uma sede com salas de aula, laboratórios
de informática, catorze terminais multimídia,
biblioteca e custou 3 milhões de dólares.
Apenas até o final do ano passado 6.500
treinamentos já haviam sido dados aos 4.000
funcionários do banco. Há cursos para
os mais variados níveis hierárquicos,
do office-boy ao diretor, e até para familiares
e clientes. "Seguimos altos padrões porque
estamos buscando reconhecimento internacional para
nosso MBA", afirma Marcelo Santos, vice-presidente
de recursos humanos do BankBoston.
Não é de hoje que as empresas investem
em treinamento de pessoal. Desde a década de
70, oferecer oportunidades de aprimoramento ao funcionário
faz parte da estratégia de crescimento de uma
grande empresa. Mas existem diferenças marcantes
entre as universidades corporativas e os programas
de treinamento convencionais. Em primeiro lugar, a
universidade não é um simples amontoado
de cursos e seminários comprados aleatoriamente,
em que o aluno assiste à aula, volta para a
mesa do escritório e esquece o assunto. O conhecimento
transmitido na universidade quer atingir em cheio
as necessidades daquela empresa em particular. Ele
deve ser adaptado a uma realidade específica.
Para isso, conta não apenas com professores
e consultores externos mas também com seus
funcionários mais experientes, pois a aprendizagem
não pode estar desvinculada do dia-a-dia do
empregado. Os problemas reais da empresa e a criação
de soluções devem ser debatidos dentro
da sala de aula e seus resultados aplicados em projetos.
Com isso, o objetivo do treinamento deixa de ser despejar
qualificações sobre o funcionário
e passa a ser estimular continuamente o desempenho
no trabalho e a capacidade de solucionar problemas.