Edição 1 647 -3/5/2000

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A empresa na sala de aula

A universidade corporativa é uma novidade entre
os programas de treinamento para funcionários

Adriana Setti


Ricardo Benichio
Boston School, do BankBoston: desde cursos de inglês para office-boys até MBAs


Um dos grandes desafios do empresariado é manter os funcionários em constante processo de aprendizagem. Para atingir esse objetivo, as boas companhias pagam a faculdade do empregado, reembolsam despesas com as aulas de inglês, financiam viagens culturais ao exterior e muitas vezes chamam especialistas para dar palestras. A última novidade nesse campo são as universidades corporativas. Há mais de 2.000 delas em atividade nos Estados Unidos. No Brasil, já existem vinte iniciativas semelhantes. Como isso funciona? É bom esclarecer que o nome "universidade" é uma licença poética. Elas não são reconhecidas pelo Ministério da Educação como estabelecimentos de ensino superior. Mas nem é essa a preocupação das empresas. Para elas, o fundamental é garantir ao funcionário uma estrutura de ensino permanente, na qual ele aprenda coisas que serão utilizadas no dia-a-dia da companhia. O modo como isso é feito varia de lugar para lugar. As aulas podem ser dadas numa estrutura física com professor, slides ou quadro-negro, mas também podem ser ministradas pela internet ou por redes internas. Algumas empresas cobram a presença dos funcionários, outras apenas delegam exercícios e depois os corrigem. Em geral, os cursos fornecem diploma de participação e o principal: chance de promoção para o empregado. Dentro desse sistema são oferecidas oportunidades incríveis de aprimoramento. Há desde aulas de inglês até cursos com master in business administration, MBA.

A primeira universidade corporativa foi criada pela General Electric na década de 70. O grande impulso dessa revolução aconteceu nos anos 90, com o surgimento das empresas ligadas à nova economia. As previsões dos especialistas apontam que, num prazo de dez anos, haverá mais universidades corporativas nos Estados Unidos do que os seus cerca de 3.000 institutos de ensino superior. Os analistas afirmam que esse é um indício de que, no futuro, as empresas americanas serão as maiores responsáveis pela educação de pós-graduação e especialização naquele país. "As companhias sabem que profissional bem treinado é sinônimo de lucro. E esse melhor treinamento passa, sem dúvida, por uma sólida formação educacional", diz o consultor César Souza, que dá palestras sobre o tema nos Estados Unidos. No Brasil, mantêm universidades corporativas gigantes como Telemar, Brahma, BankBoston, McDonald's e Grupo Algar. A expectativa é de que vinte novas estruturas desse tipo apareçam a cada ano no país. "O objetivo é descobrir competências internas, padronizar nossas melhores práticas e valorizar o pessoal", diz Renata Moura, diretora de recursos humanos da Telemar.

A Boston School, fundada pelo BankBoston há um ano, tem um MBA interno para uma turma de 26 alunos. Para ser admitido, o "aluno" passa por um processo de seleção rigoroso. O MBA conta com um seleto time de consultores, professores universitários brasileiros e seminários conduzidos por docentes de universidades americanas. Além disso, o curso incluirá temporadas no exterior. A Boston School possui uma sede com salas de aula, laboratórios de informática, catorze terminais multimídia, biblioteca e custou 3 milhões de dólares. Apenas até o final do ano passado 6.500 treinamentos já haviam sido dados aos 4.000 funcionários do banco. Há cursos para os mais variados níveis hierárquicos, do office-boy ao diretor, e até para familiares e clientes. "Seguimos altos padrões porque estamos buscando reconhecimento internacional para nosso MBA", afirma Marcelo Santos, vice-presidente de recursos humanos do BankBoston.

Não é de hoje que as empresas investem em treinamento de pessoal. Desde a década de 70, oferecer oportunidades de aprimoramento ao funcionário faz parte da estratégia de crescimento de uma grande empresa. Mas existem diferenças marcantes entre as universidades corporativas e os programas de treinamento convencionais. Em primeiro lugar, a universidade não é um simples amontoado de cursos e seminários comprados aleatoriamente, em que o aluno assiste à aula, volta para a mesa do escritório e esquece o assunto. O conhecimento transmitido na universidade quer atingir em cheio as necessidades daquela empresa em particular. Ele deve ser adaptado a uma realidade específica. Para isso, conta não apenas com professores e consultores externos mas também com seus funcionários mais experientes, pois a aprendizagem não pode estar desvinculada do dia-a-dia do empregado. Os problemas reais da empresa e a criação de soluções devem ser debatidos dentro da sala de aula e seus resultados aplicados em projetos. Com isso, o objetivo do treinamento deixa de ser despejar qualificações sobre o funcionário e passa a ser estimular continuamente o desempenho no trabalho e a capacidade de solucionar problemas.

 

 

 

 
 
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