Surfe a sério

A popularização da internet está mudando
a forma e o conteúdo do dever de casa

Aida Veiga

Aluno e computador:
na hora de fazer lição,
um não vive sem o outro
Foto: Sergio de Divitiis  

Pais que têm filhos em boa escola particular, da 1ª série primária ao 3º colegial, sabem: material básico hoje em dia é caderno, livro, caneta e computador ligado à internet. Muito além da função inicial de produzir capas caprichadas para trabalhos escolares, o computador tornou-se instrumento fundamental de pesquisa e ajuda no famigerado dever de casa — que, por sua vez, fica mais rápido e agradável na tela do monitor. Nos Estados Unidos, 95% dos estudantes navegam na internet pelo menos uma vez por semana. No Brasil, embora não haja estatísticas a respeito, é provável que o número seja igual entre os alunos da classe média alta. "Praticamente não se faz mais pesquisa sem uma consulta à rede", atesta Reinaldo Espinosa, vice-diretor do ensino fundamental do Colégio Santa Cruz, de São Paulo. A demanda cresceu tanto que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, lança nesta semana o IBGE teen (www.ibge.gov.br/ibgeteen/index.html), site dedicado a estudantes, com mapas, tabelas e informações atualizadas sobre o país numa linguagem acessível à garotada. "Nos três meses de teste a procura foi grande", informa Marcio Imamura, um dos responsáveis pelo projeto.

Em matéria de uso da internet no dever de casa, é a escola que está correndo atrás do aluno. Sem que ninguém lhe mostrasse o caminho das pedras, a meninada descobriu que, com um clique do mouse, tinha acesso a um volume de informações muito maior do que na desanimadora enciclopédia caseira. Outro clique e lá estava, sem lápis nem papel vegetal, o mapa ou o animal certo para ilustrar a lição. Tudo pronto, só faltando imprimir. Tão pronto que as escolas, preocupadas com tanta cópia, começaram a investir em uma união criativa entre tarefa de casa e computador. Os professores agora orientam os alunos para que façam pesquisas mais aprimoradas na internet e entrecruzem diferentes informações e idéias acerca dos assuntos em estudo. O resultado tem sido animador. "Fiz um trabalho sobre presidentes do Brasil, com artigos pró e contra cada um deles", gaba-se Raphael Schimitt, 12 anos, aluno da 7ª série do Colégio Positivo, de Curitiba. Além de indicar os melhores procedimentos para obter o máximo da internet, alguns estabelecimentos já distribuem a lição de casa em disquetes. "Carrego menos peso na mochila e não perco horas copiando exercícios da lousa", constata Marília de Souza Paes, 16 anos, que cursa a 2ª série do 2º grau do Colégio Bandeirantes, de São Paulo. Os pais, por sua vez, ganham em tranqüilidade. Para o bem de todos, têm menos chance e necessidade de interferir na lição dos filhos (veja quadro).

Música e supermercado — O Centro Educacional da Lagoa, CEL, do Rio de Janeiro, está fornecendo neste ano um CD-ROM que permite aos alunos rever em casa o conteúdo das aulas e fazer pesquisas em sites selecionados para cada trabalho escolar. "Por meio da seleção, evitamos que o aluno se perca na busca e saia imprimindo informação inútil", explica Laura Coutinho, diretora da escola. Os paulistas Santa Cruz e Bandeirantes oferecem salas de bate-papo, os chats, aos alunos para eles realizarem trabalho em grupo sem sair de casa. A estudantada, como não poderia deixar de ser, adora. "Ler apostila é muito chato", comenta Bernardo da Costa Fontenelle, 13 anos, aluno da 7ª série do CEL. "Passei a estudar mais depois que comecei a surfar pelos sites." Como toda novidade que se preze, o assunto provoca polêmica. "Computador virou uma máquina de xerox modernosa", dispara Edgar Flexa Ribeiro, diretor do Colégio Andrews, um dos mais tradicionais do Rio. Ribeiro, nesse caso, rema contra uma corrente irreversível. Quem tem computador vai usá-lo na lição de casa, nem que seja disfarçadamente. Por isso, o ideal é incorporá-lo ao ensino da melhor forma possível.

Vinícius, no mercado:
checando rótulos
Foto: Claudio Rossi  

O acesso a informações superatualizadas e a dinâmica do dever eletrônico tiveram o efeito colateral de deixar os alunos ainda mais impacientes com a lição de casa tradicional. Resultado: mesmo sem aposentar de vez cópias e decorebas, muitas tarefas que não exigem computador ficaram mais próximas do cotidiano da criança e do jovem. Por sugestão de seu professor de estudos sociais, o paulista Vinícius Magnun, de 11 anos, que cursa a 5ª série no Colégio São Luís, foi ao supermercado para descobrir a composição dos alimentos. "Chequei o rótulo de uns 100 enlatados", conta. No Positivo, de Curitiba, o aluno é orientado a escolher uma música de que gosta, tirar dela todos os adjetivos e substantivos e formar novas frases com eles.

Bernardo, em casa:
"Apostila é chata"
  Foto: Oscar Cabral

Disputa em casa — Pesquisas de campo e atividades ligadas ao universo do estudante são ótimas maneiras de eliminar o efeito soporífero do dever de casa, mas nada como um computador para estimular um corpo discente desinteressado. Os que ainda não dispõem de uma máquina se viram como podem. O curitibano Renan Bernardo de Paula, 13 anos, um pesaroso sem-internet, recorre aos computadores dos colegas. "Senão, meu dever não fica tão bom quanto o deles", explica. O uso escolar é o grande pretexto da garotada para convencer os pais a comprar uma engenhoca. "Íamos todo dia fazer os deveres no escritório do papai", conta a mineira Kátia Regina Gandra, 15 anos. Presenteados com um computador no ano passado, ela, as irmãs Kelly e Karina e o primo Ricardo agora ficam em casa, disputando cada minuto na frente do monitor. "A prioridade é de quem tem lição para o dia seguinte", diz Kátia. Quando todos têm, é o caos. Ainda assim, é melhor do que enfrentar a monotonia do livro, caderno e caneta.




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