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Sérgio
Abranches
A
educação dos despossuídos
"Demos
a virada, mas é preciso
correr mais
rápido e começar a saltar os obstáculos
para
podermos, realmente, nos qualificar para
este novo século"
Ilustração Ale Setti
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No início da década de 90, os filhos das famílias
mais pobres, entre 7 e 14 anos, tinham escolarização
23% inferior à dos filhos dos mais ricos. Entre os jovens
de 15 a 17 anos essa diferença ultrapassava os 40%. O acesso
à educação era, portanto, fator de manutenção
da desigualdade. Independentemente da qualidade, havia 23% a mais
de crianças pobres fora do 1º grau. Pior ainda, 53%
dos jovens mais pobres com idade para cursar o 2º grau estavam
fora da escola. Entre os mais ricos, essa proporção
era bem menor, embora muito alta, 20%.
Esse quadro desenhava uma trajetória trágica, com
a perspectiva de reprodução da desigualdade pela diferença
no acesso à educação e com a possibilidade
de um déficit educacional alto demais, no momento em que
o mundo entra em uma ordem econômica muito mais exigente em
educação e conhecimento.
No fim da década, a situação era radicalmente
distinta, permitindo prever um cenário mais positivo, tanto
para nosso quadro social quanto para nossa inserção
na economia mundial. Em 1999, o hiato entre os mais ricos e os mais
pobres não chegava a 7% no 1º grau. Entre
os jovens na idade de cursar o 2º grau, ele caiu de 41% para
26%. Permanece, porém, um déficit de 30% na escolarização
dos jovens mais pobres com idade entre 14 e 17 anos. Entre os mais
ricos, ele já está em 7,5%. Os dados estão
na recém-lançada Síntese dos Indicadores
Sociais 2000, do IBGE.
Houve um notável avanço. Já é possível
dizer que o desafio da universalização do 1º
grau foi vencido. Temos, agora, de modo mais rápido,
de avançar no 2º grau e enfrentar de forma
mais justa o desafio do 3º grau. Há quem
despreze essas evidências, porque o avanço seria "meramente
quantitativo". A qualidade do ensino continuaria muito baixa, sobretudo
para os mais pobres. É inegável a defasagem de ritmo
e extensão entre o progresso quantitativo e o qualitativo.
Mas insisto que qualquer escola é melhor que nenhuma escola.
Além disso, são visíveis os esforços
para melhorar a qualidade do ensino por toda parte.
Quando se examina a escolarização entre as regiões,
para o mesmo grupo de renda, as diferenças são menores
do que entre os grupos de renda. No início da década,
o hiato de escolarização das crianças de famílias
mais pobres entre 7 e 14 anos do Nordeste e do Sudeste era de 14%
e não havia diferença para os jovens entre 15 e 17
anos. A taxa era até ligeiramente superior no Nordeste. No
fim da década, essa diferença havia caído para
menos de 3% e, para o 2º grau, a taxa dos nordestinos
era quase 6% maior. No começo dos anos 90, o hiato de 28%
entre os mais pobres do Nordeste e os mais ricos do Sudeste, para
o 1º grau, não era muito superior ao verificado para
o país como um todo. Mas era muito grande para o 2º
grau: 45%. Essas diferenças caíram, em dez anos,
para 8% e 24%, respectivamente. Novamente se vê que o desafio
se localiza agora no 2º grau.
No 3º grau, a oferta de vagas no interior do país por
faculdades privadas está se expandindo de forma acelerada.
Há cursos de qualidade comparável à das universidades
públicas. Mas o ensino superior gratuito continua aberto
aos ricos e inacessível aos pobres.
A maior escolarização garante a ascensão social
futura desses jovens de baixa renda. Estamos vencendo um dos obstáculos
à redução das desigualdades. Mas há
outros em ação e demoramos a reconhecê-los,
havendo, até, quem negue sua existência. Um deles é
a discriminação racial. A taxa de analfabetismo entre
os brancos caiu, na década passada, de 10,6% para 8,3% e
entre os negros, de 29% para 21%. O analfabetismo funcional entre
os brancos é de 22%, alto, e de 41% entre os negros, altíssimo.
Nos anos 90, aumentou em 13% o número médio de anos
de estudo entre os brancos e em 41% entre os negros. Mas a renda
média dos brancos cresceu 1,5 salário mínimo
e a dos negros apenas 0,55 salário mínimo.
Demos a virada, mas é preciso correr mais rápido e
começar a saltar os obstáculos que, até agora,
temos elidido, para podermos, realmente, nos qualificar para este
novo século.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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