Livros para gênios?
"Um livro para alunos modestos de
2º grau
no Brasil é mais árido e difícil que livros
usados por universitários americanos"
Ilustração: Alê
Setti
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O Brasil tinha um currículo para gênios. Pena que
faltassem alunos à altura. Em uma erupção de bom senso,
o MEC produziu algumas diretrizes curriculares que
encurtaram e enxugaram os conteúdos.
Examinei recentemente um livro de matemática e física,
já enquadrado nas novas diretrizes e voltado para
alunos de modestíssimas ambições. Li para ver se entendia.
Não entendi quase nada. Ou me perdia nas fórmulas
ou não via ali algo que se conectasse com o meu mundo.
Será que minha vida teria sido mais interessante
ou produtiva se houvesse aprendido os princípios supremamente
importantes da lei de Pouillet, de Kirchhoff ou o
teorema de Binet, o D'Alembert, a extensão do teorema
do resto, o plano de Argand-Gauss, a divisão de números
complexos na forma trigonométrica, o dispositivo de
Briot-Ruffini e as relações de Girard em uma equação
do terceiro grau?
De metade a dois terços dos capítulos de física são
dedicados a fórmulas matemáticas. Sobra pouco espaço
para explicar o que significam no mundo real ou para
que servem. Comparei com um texto americano de física
para o 1º ano de universidade: tem a mesma matemática,
mas explica muito mais o que querem dizer os conceitos.
No caso da parte de matemática, jamais se sugere que
possa servir para alguma coisa. Em meu curso de doutorado,
o conceito tão central de probabilidade merecia inúmeras
páginas do livro. Imagino que alunos do secundário
requeressem explicação ainda mais pausada. Mas terão
de entender o mesmo conceito em cinco linhas e uma
fórmula matemática. As fórmulas da hipérbole, parábola
e elipse são apresentadas em sete páginas. Em um livro
americano de 1º ano universitário, o mesmo material
é mastigado em 28.
A lei de Ohm, peça fundamental da eletricidade, ocupa
um quarto de página. Os solenóides (sobre os quais
o autor se esquece de dizer que todos os chamam de
bobina), os capacitores e transformadores não têm
melhor sina. Pergunte-se a qualquer técnico o que
é um "curto-circuito" e ouviremos descrições
de "pipocos" e fagulhas. O livro diz apenas
que "um circuito estará em curto-circuito se
interligado por um fio ideal". Fiquei imaginando
o tal "fio ideal". A eletrônica se perde
em fórmulas e em uma abundância de teorias e conceitos
que jamais se usam na prática e também não ajudam
a entender a miríade de equipamentos eletrônicos que
nos cercam. De fato, não se fala nos semicondutores
e transistores que revolucionaram a eletrônica e criaram
a informática.
Estamos diante de um precipício que separa duas visões
do ensino. Pensava-se que pouco importava saber para
que servem as teorias, o importante era o exercício
mental de aprender a manipular conceitos abstratos
(como os da matemática). Mas qual o sentido de percorrer
superficialmente e deitar erudição sobre centenas
de teorias, o mesmo que se fazia nos lamentáveis livros
em que estudei? E se o aluno jamais entender o furor
algébrico e apenas decorar as fórmulas? Era de esperar
progresso quase meio século depois.
Hoje vimos que não é por aí, e os novos parâmetros
curriculares "propõem um currículo baseado no
domínio de competências básicas e não no acúmulo de
informações" (MEC). São cruciais os conselhos
para que o livro "contextualize" o que ensina.
Isto é, que "tenha vínculos com os diversos contextos
da vida do aluno", que conecte o que está sendo
ensinado a problemas, fatos e circunstâncias próximos
de sua vida. Sabemos com segurança, o importante é
entender em profundidade algumas poucas idéias e não
chafurdar em um pantanal de fórmulas e teoremas.
Despejei peçonha nos currículos enciclopédicos do
passado. Agora, o MEC tomou jeito, mas alguma coisa
permanece travada. Um livro para alunos modestos de
2º grau no Brasil é mais árido e difícil que livros
usados por universitários americanos. Sobrevive a
miragem de que haja alunos capazes de entender e aproveitar
o que está nesse livro.
Claudio de Moura Castro
é economista (claudiomc@earthlink.net)