Edição 1 638 - 1°/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas



Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Livros para gênios?

"Um livro para alunos modestos de 2º grau
no Brasil é mais árido e difícil que livros
usados por universitários americanos"



Ilustração: Alê Setti


O Brasil tinha um currículo para gênios. Pena que faltassem alunos à altura. Em uma erupção de bom senso, o MEC produziu algumas diretrizes curriculares que encurtaram e enxugaram os conteúdos.

Examinei recentemente um livro de matemática e física, já enquadrado nas novas diretrizes e voltado para alunos de modestíssimas ambições. Li para ver se entendia. Não entendi quase nada. Ou me perdia nas fórmulas ou não via ali algo que se conectasse com o meu mundo.

Será que minha vida teria sido mais interessante ou produtiva se houvesse aprendido os princípios supremamente importantes da lei de Pouillet, de Kirchhoff ou o teorema de Binet, o D'Alembert, a extensão do teorema do resto, o plano de Argand-Gauss, a divisão de números complexos na forma trigonométrica, o dispositivo de Briot-Ruffini e as relações de Girard em uma equação do terceiro grau?

De metade a dois terços dos capítulos de física são dedicados a fórmulas matemáticas. Sobra pouco espaço para explicar o que significam no mundo real ou para que servem. Comparei com um texto americano de física para o 1º ano de universidade: tem a mesma matemática, mas explica muito mais o que querem dizer os conceitos. No caso da parte de matemática, jamais se sugere que possa servir para alguma coisa. Em meu curso de doutorado, o conceito tão central de probabilidade merecia inúmeras páginas do livro. Imagino que alunos do secundário requeressem explicação ainda mais pausada. Mas terão de entender o mesmo conceito em cinco linhas e uma fórmula matemática. As fórmulas da hipérbole, parábola e elipse são apresentadas em sete páginas. Em um livro americano de 1º ano universitário, o mesmo material é mastigado em 28.

A lei de Ohm, peça fundamental da eletricidade, ocupa um quarto de página. Os solenóides (sobre os quais o autor se esquece de dizer que todos os chamam de bobina), os capacitores e transformadores não têm melhor sina. Pergunte-se a qualquer técnico o que é um "curto-circuito" e ouviremos descrições de "pipocos" e fagulhas. O livro diz apenas que "um circuito estará em curto-circuito se interligado por um fio ideal". Fiquei imaginando o tal "fio ideal". A eletrônica se perde em fórmulas e em uma abundância de teorias e conceitos que jamais se usam na prática e também não ajudam a entender a miríade de equipamentos eletrônicos que nos cercam. De fato, não se fala nos semicondutores e transistores que revolucionaram a eletrônica e criaram a informática.

Estamos diante de um precipício que separa duas visões do ensino. Pensava-se que pouco importava saber para que servem as teorias, o importante era o exercício mental de aprender a manipular conceitos abstratos (como os da matemática). Mas qual o sentido de percorrer superficialmente e deitar erudição sobre centenas de teorias, o mesmo que se fazia nos lamentáveis livros em que estudei? E se o aluno jamais entender o furor algébrico e apenas decorar as fórmulas? Era de esperar progresso quase meio século depois.

Hoje vimos que não é por aí, e os novos parâmetros curriculares "propõem um currículo baseado no domínio de competências básicas e não no acúmulo de informações" (MEC). São cruciais os conselhos para que o livro "contextualize" o que ensina. Isto é, que "tenha vínculos com os diversos contextos da vida do aluno", que conecte o que está sendo ensinado a problemas, fatos e circunstâncias próximos de sua vida. Sabemos com segurança, o importante é entender em profundidade algumas poucas idéias e não chafurdar em um pantanal de fórmulas e teoremas.

Despejei peçonha nos currículos enciclopédicos do passado. Agora, o MEC tomou jeito, mas alguma coisa permanece travada. Um livro para alunos modestos de 2º grau no Brasil é mais árido e difícil que livros usados por universitários americanos. Sobrevive a miragem de que haja alunos capazes de entender e aproveitar o que está nesse livro.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@earthlink.net)

 

 
 
voltar



VEJA on-line | VEJA Educação
copyright © 2001 - Editora Abril S.A. - todos os direitos reservados