A
seguir, os depoimentos dos homossexuais que resolveram compartilhar
suas histórias com nossos leitores. As entrevistas, realizadas
pela editora-assistente Daniela Pinheiro, são exclusivas da edição
on-line de VEJA
Minha vida é cada dia melhor
Alcancei
hoje um patamar invejável. Tenho um excelente emprego, uma vida
confortável e amigos excepcionais. Mas, obviamente, a coisa não
foi assim desde o começo. É muito difícil esperar que se trate
o homossexual de forma não agressiva. Parece que isso já está
enraizado na cabeça das pessoas. Perdi as contas do número de
vezes em que me senti em situações absolutamente constrangedoras
ou que percebi muito bem a intolerância nos olhos das pessoas
com quem eu conversava. Tento entender, mas não consigo. Como
a minha sexualidade pode ser tão agressiva aos outros? Não fico
aparecendo, sou discreto, procuro não incomodar ninguém. Mesmo
assim, por muito tempo pareceu que as pessoas entendiam isso até
como provocação. Quando parei de pensar, de me preocupar e me
estressar com essa situação, a coisa ficou mais leve. E, desde
então, minha vida é cada dia melhor. Tenho um namorado de 23 anos,
saímos quase todos os dias, temos uma vida maravilhosa.
Clóvis Casemiro,
41 anos, gerente do Caesar Park Hotel de Fortaleza e presidente
da IGLTA, a empresa que reúne todas as agências de viagens GLS
no mundo
ccasemiro@truenet-ce.com.br
Não é uma escolha. É uma vontade
Aos
18 anos, resolvi contar para minha família. O motivo é que eu
não agüentava mais viver uma vida de mentiras e fingimentos. Dos
16 aos 18 anos, foi só isso o que aconteceu. Eu ia a boates gays,
ficava com vários caras, adorava, me divertia, mas quando chegava
em casa eu tinha de dizer que tinha saído com fulano ou sicrana.
Muitas vezes eu me perguntava por que as pessoas são homossexuais.
É uma vida muito difícil, cheia de preconceito. Mas eu nunca encontrei
uma explicação. O que de mais razoável vem à minha cabeça é uma
comparação um tanto esdrúxula. Por exemplo: eu não gosto de peixe.
Eu gosto de carne com gordura. Por que será que eu não gosto de
peixe? É a mesma dúvida que se tem ao tentar entender uma coisa
que é inerente à sua vida, à sua pessoa, não é uma escolha. É
uma vontade.
Caio Varella, 26 anos, estudante de filosofia
de Brasília
Minha situação é a exceção da exceção
Venho
de uma família que nunca encarou de forma dramática minha homossexualidade.
Foi tudo muito fácil, as conversas, a revelação, a convivência.
Agora, é muita ingenuidade achar que o mundo gay é assim, sempre
cor-de-rosa. Quando se tem notícia de que um homossexual estava
andando na rua e só por isso foi atacado, espancado e morto, é
a prova de que não é uma vida fácil. O preconceito burro e intransigente
corre pelas veias de muitos. A minha situação pessoal e de relações
com minha família é como se eu vivesse numa ilha. É a exceção
da exceção da exceção.
André Fischer, 34 anos, diretor do Mix
Brasil, o maior festival de cinema GLS da América Latina
www.mixbrasil.com.br
mixbrasil@uol.com.br
Tentei até me matar
Quando
comecei a perceber que eu sentia atração por outros homens, aquilo
se tornou horrível para mim. Eu me sentia mal, me sentia diferente,
me sentia a pior das pessoas. Eu ficava trancado o dia inteiro
em casa. Não queria encontrar outras pessoas nem falar com ninguém.
Eu tinha vergonha de mim e dos meus desejos. Tentei até me matar.
Eu me sentia uma pústula social. E nunca tinha nem beijado, nem
encostado em outro homem com essa conotação sexual. Um dia, ouvi
na televisão a história do Matthew Shepard, um garoto de 21 anos
que tinha sido atado a uma cerca, barbaramente espancado e abandonado
para morrer numa temperatura congelante por dois colegas de faculdade.
Eles fizeram isso só porque o cara era gay. Aquilo despertou em
mim um sentimento estranho. Decidi que eu tinha de me assumir
e lutar pelo direito dos homossexuais de qualquer maneira. Como
era possível uma pessoa morrer só porque ama outra? Só porque
sente atração por alguém do mesmo sexo? Nesse dia, contei para
a minha família, que teve uma reação muito mais amena do que eu
imaginava.
Yuzuru Abreu, 23 anos, estudante de química
e responsável por um dos mais visitados sites GLS do Brasil, o
Pagla
www.pagla.com.br
yuzuru@base.com.br
O primeiro beijo foi inesquecível
Desde
os 14 anos, eu sentia que era diferente. Não gostava das piadas
vulgares nem do ambiente hostil que era o dos garotos. Fui morar
numa república no Rio de Janeiro e conheci um homem mais velho,
que se tornou uma referência para mim. Eu vivi esse amor platônico
durante anos, mas a sexualidade era algo que me apavorava. Eu
tinha medo e vergonha. Não me masturbava, não falava sobre sexo,
não gostava de tocar nesse assunto. Aos 16 anos, me mandou para
um curso preparatório para sargentos da Aeronáutica. O clima lá
era estranho. Eu me sentia atraído por alguns colegas, mas ficava
na minha. Foi assim durante anos. Eu sabia o que acontecia comigo,
mas tentava me desviar dessa rota. Por isso, namorei várias garotas
e cheguei a ficar noivo de uma delas. Minha mãe, quando estava
em seu leito de morte, pediu para que eu me casasse logo. Até
hoje não sei se ela era desconfiada da minha homossexualidade
e, portanto, queria uma garantia ou se foi um pedido normal de
qualquer mãe. Aquilo piorou minhas dúvidas. Finalmente, fui morar
em São Paulo e lá conheci uma pessoa muito especial. Ele era casado
com uma mulher e tinha um filho. Nós trabalhávamos juntos na parte
administrativa da Legião da Boa Vontade, LBV. Ele é filho do Paiva
Netto, o presidente, e por isso eu me mantinha a distância. Começamos
a ficar muito amigos, muito próximos, e eu entendi que aquilo
tudo era a explosão da minha sexualidade. Estávamos numa rua deserta,
voltando de um jantar, quando eu segurei sua mão. Ele se virou,
ficamos em silêncio e me beijou com muito amor. Apesar de todas
as dificuldades, estamos juntos há seis anos.
Pedro Zarur, 28 anos, editor de
livros
pedroafaro@zipmail.com.br
É muito difícil
Viver
como homossexual é muito difícil. Você pode estar bem resolvido
com sua família e amigos. Mas não conheço ninguém que não tenha
sentindo o olhar de desprezo de um recepcionista de um hotel na
hora de pedir um quarto com uma cama de casal para dois homens.
Davi Bertges, 36 anos, dono da agência
de turismo GLS Tropicalis
tropivia@uol.com.br
Estamos noivos, de casamento marcado
Até
os 20 anos, assumir minha homossexualidade foi uma barra pesadíssima.
A gente só pensa na família, nos vizinhos, nos conhecidos. Eu
imaginava quanto estaria a desagradando minha mãe com isso, já
que meu pai morreu quando eu tinha 15 anos. Meus primos e irmãos
faziam mil piadas sobre gays. Quando alguém os fechava no trânsito,
a primeira coisa que gritavam era: ‘Veado!’Por isso, eu sempre
me senti uma ovelha negra. Sentia que seria o único que não cumpriria
a missão de casar, ter filhos, como tinham feito todos os meus
irmãos. Quando vim para São Paulo fazer faculdade parece que tudo
ficou mais fácil. Comecei a conviver com pessoas diferentes, de
mentes abertas, que não achavam que todo gay é um marginal. Todo
o período da minha faculdade foi de imensas descobertas. Mudei
minha opinião sobre tudo. Aos 25 anos, resolvi contar para minha
família. Contei separadamente para cada um. Menos para meus irmãos,
que certamente iriam rir na minha cara. A primeira vez de falar
é a pior. Me deu até falta de ar. Mas depois, à medida que ia
falando, que ia me expondo, me sentia cada vez mais fortalecido.
O fato de morar longe da família também é um amenizador de conflitos.
Hoje, depois de dez anos, quando encontro minha mãe, o assunto
é tratado de outra forma. Ela faz até brincadeiras falando que
vai arrumar uma noiva para que eu não fique ‘pra titio’. Há oito
anos, tenho um companheiro estável. Estamos noivos, usando aliança,
e de casamento marcado. Vamos fazer uma linda celebração na Comunidade
Cristã Gay.
Elias Lilikan, 34 anos, diretor do cursinho
pré-vestibular GLS
caehusp@writeme.com