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Gustavo Ioschpe responde
aos leitores
Em seu último artigo neste espaço,
Educação sem povo (leia
aqui), Gustavo Ioschpe defende que a sociedade precisa
ser envolvida na discussão pública de
nossa educação. Mais de 50 mensagens comentaram
o artigo. Ioschpe responde alguns desses leitores
Não existe um método único de alfabetização,
cada ser humano é ímpar, por isto é
legal o professor ter esta consciência de que
método é método, o que é
bom para um não é para o outro, ele(professor)
tem que estar aberto a usar novos e antigos métodos,
lembrando que o mais importante é o aluno. Então
não adianta verificar qual o melhor método
que deverá ser aplicado, mas preparar o professor
para aplicar o melhor de acordo com o perfil de seus
alunos. Adorei seu artigo.
Agnes
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Realmente, é fundamental a flexibilidade
de se adaptar métodos diferentes de acordo com
a realidade efetiva da sala de aula. Mas também
é importante saber se há alguma metodologia
comprovadamente superior, testada empiricamente, para
que essa sirva como ponto de partida. Me parece melhor
partir de um ponto geralmente superior e mudar em caso
de insucesso do que reinventar a roda a cada ano ou
a cada aluno. O professor precisa ter essa flexibilidade
na implementação, mas os sistemas de ensino
precisam buscar uma metodologia que seja recomendada
para todos.
Caro Iochspe, acho que você se equivoca ao falar
de uma possível neutralidade de professor. Sou
professor de português e inglês, no entanto
não leciono gramática como muitos compêndios
prescrevem ou desejam, e sei muito bem porque faço
isso, minha concepção de língua
e aprendizagem não permitiriam, nem por isso
meus alunos deixam de aprender esse conteúdo
no momento adequado. Portanto, como seria possível
pedir para um professor ensinar algo em que ele não
acredita? Por exemplo, poderíamos pedir a você
que falasse e escrevesse a favor do ensino público
e gratuito? Acho que não? Você é
desonesto por isso? Não? Em relação
à alfabetização, o conceito de
letramento mostra que não há grande diferença,
ou sequer significativa diferença, em relação
ao modo como se aprendeu a ler e escrever, uma vez que
o aprendiz de uma forma ou outra compreenderá
o sistema e passará a utilizá-lo. Então
pergunto por que o professor tem que fazer aquilo que
o governo quer, sem consultar os professores. Nesse
caso acho melhor convidá-los para participar
voluntariamente da pesquisa. Por que não se ouve
o professor em relação ao como e por que
algo deve ser ensinado? Se fosse professor de história
não diria que no Brasil não há
democracia racial por causa da miscigenação
do povo, por exemplo, a revista em que você trabalha
diz que há democracia racial, e aí? Como
fica?
Rinaldo Vitor da Costa
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A questão da neutralidade é complexa
e fascinante, e mereceria um longo artigo. Para resumir,
a minha visão é aquela que Weber examina
em Wissenschaft als Beruf (A Ciência Como
Vocação). Talvez a neutralidade completa
seja impossível, mas ela precisa assim mesmo
ser buscada – ainda mais em escolas públicas.
Creio que há uma confusão de papéis
e autoridades na educação brasileira.
Em uma escola pública, o professor tem a autonomia
para implementar os métodos que acha mais eficazes,
mas não a linha, o objetivo do ensino: este é
determinado pela sociedade, através de seus governantes,
e cabe ao professor segui-la. Isso implica o mesmo exercício
de todas as outras profissões: avaliar se a linha
do seu empregador é compatível com os
padrões morais e éticos do empregado.
Em caso negativo, verificar se é possível
adaptar-se aos padrões estabelecidos ou mudá-los.
Caso ambos sejam impossíveis, cabe a renúncia/demissão.
O que não se pode fazer é se usar do espaço
privilegiado em sala de aula, em que a sociedade dá
ao professor a tarefa de ensinar suas crianças,
para que o professor faça suas pregações
ideológicas particulares. Isso é um abuso
da confiança depositada no professor pela sociedade
e uma violação da ética entre professor
e aluno, que prevê a suspensão da descrença
deste último em relação ao que
emana do primeiro. Quanto mais jovem for essa criança
e menor for a sua capacidade de discernimento e quanto
mais a posição pessoal do professor impactar
os resultados objetivos do processo educacional, como
avaliações de desempenho do alunado e
decisões de promoções e retenções,
tanto mais séria será a infração
do professor.
O professor não é soberano na decisão
dos objetivos educacionais a serem alcançados
– a soberania vem da sociedade. Para trabalhar em estabelecimento
pago por essa sociedade, ele precisa respeitar suas
diretrizes.
A analogia com o meu trabalho não procede.
Sou pago para pensar, e pensar com liberdade. Esse é
o "contrato" que eu tenho com a VEJA e com
todos os outros veículos de imprensa ou editoras
com as quais trabalho e trabalhei. Se me fosse imposto
um ponto de vista ou vetada uma posição
em que acredito, certamente procuraria outro empregador.
O professor da rede pública não é
pago para ser intelectual nem para fazer doutrinamento
ideológico dos alunos. Sua função
é ensinar sua matéria. Repito: se esse
"contrato" com a sociedade não o agrada,
que procure escola com linha diferente ou mude de profissão.
O que não pode é querer impor a sua visão
pessoal sobre um processo que é de responsabilidade
do Estado.
Senhor Gustavo, você está generalizando
os profissionais de educação, concordo
que a educação não deve ficar apenas
nas mãos dos educadores, deve passar por uma
discussão com pais, representantes do poder público
e da sociedade civil de forma geral. Sei que os professores,
sobretudo os da rede pública, são verdadeiros
heróis, lutando contra um cotidiano violento
das salas de aula, principalmente nas grandes periferias,
onde o tráfico de drogas dá as cartas,
as famílias estão destroçadas pela
miséria imposta pela desigualdade e a presença
do poder público é nula. Nem falo dos
baixos salários, que correspondem a salários
de jovens em início de carreira e da exaustiva
carga horária para viver com o mínimo
de dignidade. Quase todos sabem das estatísticas
da educação, porém a sua realidade
ainda está distante para uma parcela da população.
A educação vai mal pelo mesmo motivo que
vai mal a saúde, a segurança, a habitação,
o transporte público, o emprego, o salário
mínimo, o descaso com a desigualdade, o abismo
que se formou entre ricos e pobres - o preço
disso já estamos pagando. Apesar da fragilidade
dos sindicatos, ainda conseguem evitar o isolamento
do professor, que cotidianamente é castigado
pelas políticas públicas, é hostilizado
pela mídia, é vilão para os pais
e refém de uma situação caótica
que, com certeza, ele é tão vítima
quanto você.
José Silva
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Veja que raciocínio torto: a causa da má
educação seria a desigualdade de renda.
Para solucionar a educação, portanto,
seria necessário solucionar a questão
da desigualdade de renda. Os estudos mostram, porém,
que a causa principal da desigualdade de renda é
a desigualdade de educação. Estaríamos
em um ciclo fechado, insolúvel. A relação
é inversa: é a má educação
que causa o abandono da escola que gera a desigualdade
educacional que contribui fortemente para a desigualdade
de renda. Há vários países com
altos graus de desigualdade social e de grande pobreza
que fizeram verdadeiros milagres na educação.
O professor precisa entender que a nossa situação
social é dada, não será mudada
imediatamente. O que pode, sim, ser mudado, são
a competência e o esforço que cada professor
dedica a cada dia de aula, a cada aluno. E que esse
esforço e essa competência são,
na verdade, a melhor ferramenta para a verdadeira mudança
social – muito melhor do que qualquer discurso ideológico
a favor da revolução dos oprimidos etc.
– porque dá ao sujeito a capacidade de mudar
a sua vida. Essa educação ideológica
que deixa o aluno analfabeto e despreparado para a vida
é a mais reacionária que existe – garante
que o pobre permaneça pobre.
Por favor, não faça esse tipo de pedido
este colunista que não entende nada de educação.Você
ainda não percebeu que ele é um disseminador
das políticas burguesas, políticas estas
que em nenhum momento favorecem as "massas".
Carlos
Realmente, clamar por uma educação
de qualidade para todos, exigir do sistema educacional
que se adeque às necessidades dos nossos pais
e alunos ao invés de culpa-los pelo fracasso
é realmente o ápice das políticas
burguesas, o que quer que isso signifique. Não
favorece as massas, nem os biscoitos.
Muito de fala de professores e de sua incapacidade
de melhorar o processo ensino/aprendizagem. Não
tenho lido nada a respeito da responsabilidade de diretores
que vivem no cargo sem nenhum compromisso. São
indicações políticas.
Garibalde Ferreira de Farias
É verdade, é um problema sério.
Será tratado em artigo dos próximos meses,
aguarde.
Achei interessante o "causo" apresentado pelo senhor
sobre os métodos de alfabetização.
A meu ver tanto a sua postura quanto a da pedagoga estão
erradas. Passei por experiência semelhante quando
o governo do estado do Rio de Janeiro adotou a teoria
construtivista como obrigatória nas escolas do
estado. A teoria foi adotada por um grupo da Secretaria
de Educação e imposta aos professores
(que em sua maioria a desconhecia) e não foram
preparados para aplicá-la. Poucos cursos de atualização
sobre essa teoria foram implementados nos anos seguintes
para um número pequeno de professores. Os resultados
foram pífios. Os professores que utilizavam o
método fônico com bons resultados ficaram
perdidos e sentiam que estavam enganando os alunos.
Se a SEE tivesse promovido reuniões e cursos
antes de criar a obrigatoriedade de adoção
da teoria construtivista, o resultado poderia ter sido
outro, pois, pude acompanhar bons resultados quando
os professores aproveitaram conhecimentos adquiridos
com a teoria construtivista e a prática do método
fônico. O que falta à educação
é que professores, teóricos, pesquisadores
(inclusive economistas) e famílias troquem informações
e procurem caminhos que melhorem as práticas
dentro da sala de aula.
Lourdes
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É verdade. Infelizmente há uma enorme
resistência dos profissionais da educação
por dialogar com qualquer pessoa que não seja
professor. Além de uma infantilidade, é
um erro estratégico. A sociedade civil brasileira
está começando a acordar e perceber o
tremendo prejuízo que significa, para o país,
a falência da nossa educação. O
tempo em que a escola podia falhar e o professor podia
fazer o que bem entendesse estão com os dias
contados. Se os professores participarem do diálogo
social, entendendo-se como agentes de um processo social
e não como "donos" da educação,
terão muito a contribuir e todos ganharemos.
Se rechaçarem o diálogo com todos aqueles
que compõem o vasto leque das pessoas que se
preocupam e pesquisam sobre o tema, acabarão
ficando de fora do processo de reforma que a educação
brasileira obrigatoriamente terá de passar e
acabarão recebendo soluções prontas
que terão de ser implementadas à sua revelia
e para o seu desgosto.
Respeito sua opinião, mas gostaria de comentar
uma parte dela. Quando você diz na revista que
o professor deve acatar as políticas públicas
previstas pelos seus governantes democraticamente eleitos
penso que: 1) Mesmo um governo eleito pode sim ser questionado
em suas atitudes, coisa que a revista VEJA faz, corretamente,
com o governo Lula; 2) Num país como o nosso,
nem sempre as pessoas que têm um cargo público
de chefia tem competência para isso. Quanto à
questão salarial, mesmo que isso não melhore
a qualidade dos professores atuais (eu inclusive), talvez
atraia para a carreira pessoas mais inteligentes como
a doutora que escreveu para a seção de
cartas da VEJA. No mais, acho de suma importância
a revista abrir espaço para uma discussão
saudável e democrática. Obrigado pela
atenção.
Lawrence Moraes
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Concordo. Acredito que deve haver um profundo diálogo
no processo de reforma da educação brasileira.
Mas no momento em que uma política é decidida
e pactuada pela sociedade, o professor não tem
a liberdade de decidir se a segue ou não. Terá
sempre, é claro, a liberdade de qualquer cidadão
de questionar democraticamente qualquer política.
Mas não de usurpar a missão que lhe foi
dada para impor a sua própria agenda aos alunos.
Sobre a questão salarial, há dois
problemas. O primeiro é que políticas
como essa já foram tentadas e não resolveram
o problema. Em alguns estados do Nordeste, por exemplo,
houve aumentos salariais de 60% ou mais, e ainda assim
a qualidade da educação continuou sofrendo.
Talvez essa política surtisse efeito se o salário
saltasse de, digamos, R$ 800 para R$ 5.000, mas esse
aumento é absolutamente impossível dada
a realidade orçamentária não só
do Brasil, como de qualquer país. Precisamos
trabalhar com hipóteses factíveis, ou
ficaremos sempre empacados.
Concordo com as posições do ilustre colunista.
Trabalhei na rede pública de ensino de Belo Horizonte
por 15 anos, e por fim desisti. Cansei de ver colegas
entrando em sala de aula para ler jornal, enquanto os
alunos se divertiam atirando papéis uns nos outros.
Cansei de ver o sinal bater e a sala dos professores
continuar cheia. Cansei de ver colegas faltando 20 dias
no mês, sem que a prefeitura pudesse (ou quisesse)
fazer alguma coisa, o que acarretava conseqüências
para o ânimo dos alunos com a escola e, por conseguinte,
com a matéria daqueles professores que levavam
o ensino a sério. Cansei de ver a pressa com
que a maioria dos professores adotaram o projeto municipal
denominado "Escola plural", que se comprometeu a, em
síntese, aprovar os alunos sem conhecimento ("fim
do trauma da reprovação") com o único
fito de criar estatísticas falsas de excelência
da rede de ensino municipal. Cansei. Fiz outro vestibular
e mudei de profissão. Que pena!!! Cinco anos
depois, meus colegas sérios ainda estão
lá, tentando vencer, primeiramente, a inércia
e leniência dos professores que fingem que dão
aula, num sistema falido de ensino que, para piorar,
adotou o modelo de aprovação automática.
Rosalina Miranda
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É muito bom ouvir relatos como esse, furando
o bloqueio de silêncio da corporação
dos professores. Só lamento que haja tão
poucos casos de pessoas dispostas a contar suas experiências
de maneira franca, e ainda mais que essas pessoas o
façam apenas depois de abandonar o magistério.
Recebo várias mensagens de professores indignados
como você, contando as barbaridades que presenciam,
mas que pedem anonimato. Têm receio do linchamento
moral que receberiam se viessem a público com
as suas críticas. O receio procede. Em alguns
artigos, recebo duzentos ou trezentos e-mails de reclamações,
críticas e acusações, alguns destes
com xingamentos desagradáveis e ameaças
de agressão física. Faz parte. O silêncio
apenas perpetuará o atual estado de coisas. Espero
que mais professores, aqueles preocupados com o aprendizado
de seus alunos, consigam romper essa barreira do silêncio
e da intimidação e ajudem a expor as maçãs
podres do setor.
Por que será que existem professores tão
ruins assim? O que você acha? Eu sei que existem,
conheço alguns. Você parou pra pensar que
a resposta pode estar dentro do sistema educacional
(onde o professor é o lado mais fraco da corda)
ou dentro da própria sociedade como um todo?
Uma sociedade onde os valores mais singelos (como respeito,
solidariedade) são deixados de lado e que refletem
com toda certeza dentro de uma sala de aula. Acho uma
atitude muito simplista atacar toda uma categoria, generalizando.
É o mesmo que dizer que todos os políticos
não prestam, ou que são corruptos.
Aparecido Arcanjo Pereira Rasteiro
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Esse escapismo e a culpabilização
sempre dos outros são uma grande derrota para
os próprios professores e para a educação
brasileira. Jamais disse que todos os professores são
assim ou assado, mas quando falamos de sistemas educacionais
precisamos falar da situação geral, não
da exceção. É mais fácil
ser professor na Finlândia do que na Rocinha?
Sem a menor dúvida. A pobreza e o subdesenvolvimento
conspiram contra a educação de qualidade?
Sem a menor dúvida. Mas esse cenário não
desculpa a incompetência do profissional: pelo
contrário, faz com que a competência individual
seja ainda mais importante. A educação
é a única ponte que pode levar o aluno
pobre a ter uma vida digna, a quebrar o ciclo secular
da pobreza. Se os professores lavarem as mãos
e esperarem a mudança social, estamos fritos.
A educação tem de sempre ser melhor do
que a sociedade se quisermos avançar. Nem igual,
nem pior: melhor. Se não formarmos gerações
futuras melhores do que as atuais, estamos condenados.
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