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Notas
Errar é humanas
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Eu só descobri que não entendia nada
de matemática quando conversava com um colega
russo, no mestrado, sobre o assunto. Aquilo que pra
mim exigia um grande esforço mental, de montagem
de equações e de tentativa de operações
algébricas, para ele era visivelmente algo automático,
instintivo, como a construção de uma frase
em sua língua natal. Não sei exatamente
como os russos ou os asiáticos ensinam a matemática,
mas hoje entendo por que o nosso ensino é tão
fraco. No Brasil, não se ensina matemática.
Se ensina a resolução de problemas matemáticos.
Nossas escolas explicam a mecânica da coisa.
Pra somar e subtrair, você "passa um pra
lá", "tira um de lá" e
pronto, está aí o resultado. Multiplicação
é simples: basta decorar a tabuada e, para números
maiores, adicionar a mecânica da adição.
A divisão é também uma questão
quase geográfica: coloque o divisor aqui, o dividendo
ali, na "cadeirinha", puxe a tabuada da memória
e vá seguindo até que se encontre o resultado
e o "resto". Trigonometria é um exercício
de decoreba de fórmulas e ângulos. Geometria
é como se fosse um quebra-cabeça com algumas
peças faltando: basta saber que a soma dos ângulos
de um triângulo é 180 graus, ou o teorema
de Pitágoras ou a fórmula do raio de uma
circunferência para se resolver todo e qualquer
problema. Os problemas costumam ser de uma inutilidade
total, mais na linha de "um círculo inscrito
em um quadrado de lados..." do que "para colocar
uma pizza em uma caixa quadrada...".
O problema é fundamentalmente filosófico,
epistemológico: a maioria das pessoas entende
a matemática como uma ferramenta que precisamos
dominar para resolver alguns problemas do cotidiano.
Mas a matemática não é isso. A
matemática é uma linguagem que descreve
o mundo. Todo o mundo físico é traduzível
em números, com acuidade muito maior do que a
descrição feita por palavras. Além
disso, a matemática é a árvore
da qual brotam os frutos das ciências exatas:
física, química, biologia, estatística,
engenharia, medicina - nada disso seria possível
sem a matemática.
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"Sem
uma comprovação empírica, qualquer pensamento
é apenas uma tese."
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Eu só fui descobrir isso quando já estava
no mestrado. De tudo que estudei na vida - e acabei
estudando, na faculdade, história, ciência
política, psicologia, sociologia, economia, geologia,
marketing, administração, contabilidade,
crítica literária, filosofia e outras
que nem me lembro mais, não apenas por desejo
e curiosidade próprias, mas porque o sistema
americano impõe essa multidisciplinaridade -
hoje vejo que a matéria mais importante é
estatística. Achava a matéria um porre
quando a cursei, no primeiro ano. O que é natural,
aliás: aos 18 anos, o cérebro humano está
demasiadamente encharcado de hormônios para que
os pensamentos possam nadar. Agora vejo que a estatística
é a base de tudo, é o que possibilita
a distinção entre a opinião e o
fato, a aparência e a realidade (as "formas"
platônicas). Sem estatística não
pode haver ciência exata nem ciência social.
Cada vez mais entendemos que comportamentos que antes
podiam ser debatidos apenas por filósofos, romancistas
e poetas agora são explicáveis através
da aplicação rigorosa de métodos
estatísticos. É claro que a estatística
não responde as perguntas fundamentais da existência
- como viver a boa vida? - mas tampouco o faz a filosofia,
com a agravante que uma filosofia desprovida de estatística
é apenas um teatro para o duelo de visões
antagônicas e insubstanciadas, com resultados
potencialmente nocivos. "Errar é humanas",
disse um professor de história da arte da Unicamp
que me acompanhava em um debate anos atrás, numa
daquelas manifestações de auto-ironia
que não têm sinceridade nenhuma. Não,
errar não é humanas. Há muito acerto
- e muito erro - naquilo que se produz nas humanas.
O difícil, sem o auxílio da estatística,
é separar o joio do trigo. Não é
que errar seja humanas, é que a convicção
do acerto só pode vir com a ajuda das exatas.
Sem uma comprovação empírica, qualquer
pensamento é apenas uma tese. Os filósofos
e historiadores que me lêem deve estar nauseados,
mas mal sabem eles que esse axioma os cerca em todo
lugar. Os remédios que eles tomam quando estão
doentes só são aprovados ao passar por
um processo estatístico que os separe de um placebo
ineficaz. Todos os processos produtivos/industriais
que geram os bens que consumimos são calibrados
e controlados por ferramentas estatísticas de
controle de qualidade. As peças dos carros que
dirigimos são submetidas a testes estatísticos
que asseguram sua confiabilidade. O computador no qual
você lê esse artigo só existe por
uma ferramenta estatística que determina a sua
eficiência. A civilização moderna
não é possível sem a estatística.
E, ainda assim, está na moda praguejar contra
números. Até professores renomados, como
esse da Unicamp, podem falar bobagens como "os
números são criações humanas
e, como tal, têm uma intencionalidade" e
se sentir bem, como se não estivessem cometendo
um crime intelectual.
Essas idéias me vêm à mente quando
vejo que filosofia e sociologia foram incluídas
como matérias obrigatórias no currículo
do ensino médio. Veja só: nosso sistema
educacional é um fracasso tão retumbante
que, na última medição em que o
desempenho dos alunos foi dividido em níveis,
o SAEB de 2003 apontou que 55% dos alunos da quarta
série estavam em situação crítica
ou muito crítica em leitura, o que quer dizer
que eram praticamente analfabetos. A maioria dos alunos
que faz a prova de Matemática no SAEB acha que
"3/4" é 3,4, e não 0,75. Não
entendem nem a notação de uma fração.
Achar que esses professores, com essa qualidade, conseguirão
ensinar filosofia e sociologia a esses alunos é
o que os ingleses chamam de wishful thinking,
um otimismo despropositado.
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"Se
fosse para incluir uma nova disciplina em nosso
currículo, adoraria que fosse estatística."
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No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito
bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso
read the word to read the world (ler a palavra para
ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês
ou se a tradução foi especialmente fortuita,
mas o enunciado é verdadeiro: é impossível
entender a complexidade do mundo se você não
sabe ler. É impossível estudar filosofia
se você não sabe ler. Essas aulas serão
apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o
doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas
escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se
os nossos alunos saíssem do ensino médio
ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo
ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas
próprias conclusões filosóficas
ao lerem seus próprios livros. E se fosse para
incluir uma nova disciplina em nosso currículo,
adoraria que fosse estatística. A maioria dos
alunos a detestaria e aprenderia muito pouco, mas talvez
uma minoria conseguisse extrair daí o ferramental
que lhe permitiria julgar, com a sua própria
racionalidade, a veracidade das teorias com que são
bombardeados na escola, nas ruas, na mídia. O
que de melhor pode haver no processo educacional do
que a capacidade de não apenas instigar a capacidade
de questionamento dos alunos, mas também dar-lhes
o instrumental que lhes permitirá solucionar
esses próprios questionamentos sozinhos?
Ainda números
Para quem gosta de números e, mais ainda, para
quem não gosta, vale a pena ver o filme Quebrando
a Banca (assista a crítica do filme no
vídeo abaixo), que conta
a história verídica de alunos do MIT que
se aproveitam da estatística (mais especificamente
o ramo da probabilidade) para encontrar uma maneira
honesta de derrotar o cassino no jogo de blackjack
e ganhar milhões de dólares no processo.
O filme saiu de cartaz há pouco em São
Paulo, então deve chegar às locadoras
em breve. Recomendado para todos os professores de matemática
que não conseguem fazer seus alunos se interessarem
pela matéria. Quem gostou do filme gostará
ainda mais do livro que lhe deu origem, Bringing
Down the House, de Ben Mezrich (Quebrando a Banca,
na tradução brasileira, da Companhia das
Letras).
Outro bom (e pequeno) livro para aqueles que querem
gostar de números é Fermat's Last Theorem,
de Amir Aczel (que eu saiba, inédito em português.
Não confundir com O Último Teorema
de Fermat, de Simon Singh).
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