Cegueira
e Comunismo
Divulgação  |
Assisti
à pré-estréia do filme Ensaio Sobre a Cegueira, de
Fernando Meirelles. Não conseguiria fazer uma crítica do filme.
Primeiro porque não tenho conhecimento pra tanto – deixo a tarefa pra sabida
colega Isabela Boscov. E segundo porque o filme é tão forte, tão
pesado, tão difícil, que sinceramente não consegui prestar
atenção em nenhum aspecto cinematográfico da obra.
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| "O caminho 'natural',
inercial, de uma comunidade humana é sucumbir ou à barbárie ou à ditadura, mas
obviamente esse não é o cenário por mim desejado" |
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O filme, baseado em livro homônimo de José Saramago
– que eu não li – narra a história de uma cidade repentinamente
acometida por uma epidemia de cegueira, da qual só se salva uma mulher,
interpretada por Julianne Moore, casada com um médico oftalmologista que
é um dos primeiros a cair com a doença. O que se passa a partir
daí é uma fábula política: como a civilização
se desfaz, e como a barbárie substitui toda a modernidade de uma grande
metrópole ocidental (no caso, primariamente São Paulo) simplesmente
com o detalhe do desaparecimento de um dos sentidos. O cenário da barbárie
primordial é uma questão trabalhada há séculos pelos
grandes pensadores da filosofia política. Há duas visões
basicamente antagônicas desse "estado natural": a de Hobbes e
a de Locke. Na primeira, o estado natural é palco da famosa guerra de todos
contra todos, em que a vida é nasty, bruttish and short. O caos
primordial sugere a necessidade de um ditador, para controlar à força
os impulsos dos homens. O estado natural de Locke é bem diferente, quase
idílico, de uma comunidade que funciona, ainda que com percalços.
Nesse cenário, o estado surge com funções mínimas,
primordialmente um garantidor do direito de propriedade, que não interfere
na busca da felicidade de cada indivíduo. Essas idéias têm
peso real: Locke é o pai-inspirador da independência americana e
o estado liberal que dela surgiu. Hobbes é a fonte conceitual das ditaduras.
Pessoalmente, me parece que a percepção de Hobbes é mais
correta no que tange à descrição do estado natural, e acredito
que a biologia moderna e a psicologia evolucionista vêm dando cada vez mais
suporte empírico a essa proposição. Entendo, portanto, que
o caminho "natural", inercial, de uma comunidade humana é sucumbir
ou à barbárie ou à ditadura, mas obviamente esse não
é o cenário por mim desejado, e os países de inspiração
lockeana são testemunho da capacidade humana de superar algumas de nossas
tendências naturais, instintivas, pelo poder da nossa racionalidade. A
visão de Saramago, transposta por Meirelles, é francamente hobbesiana.
E o filme retrata esse universo de maneira bastante gráfica, dolorosa de
se ver. Até aí, tudo bem. A coisa começa a desandar, caindo
para o terreno do wishful thinking, quando a protagonista decide o que
fazer com seus superpoderes. Se em terra de cego quem tem um olho é rei,
imagine quem tem dois. Mas Moore não usa a sua visão para se aproveitar
dos seus colegas ou obter maior poder, e demora uma barbaridade para combater
aqueles que o usurpam, com fins francamente gananciosos, para se dizer o mínimo.
Pelo contrário: Moore se torna uma verdadeira Madre Teresa, correndo grandes
perigos e passando por enormes privações para ajudar um grupo de
cegos que ela não conhecia antes da epidemia e com os quais não
tem nenhum vínculo de parentesco nem nenhuma identidade ou afinidades eletivas
compartilhadas. Foi difícil não enxergar nessa escolha as tonalidades
rubras do comunismo professado até hoje por Saramago. Impossível
também não remeter a situação do Ensaio ao
mito da caverna, d’A República, de Platão. Naquele caso,
a pessoa com o dom da clarividência, um alter-ego do papel do filósofo
na sociedade, vê a luz e se liberta de sua ignorância mas, ao voltar
para a caverna e tentar iluminar seus colegas de grilhões, é rejeitado
e morto por eles. O visionário de Saramago não tenta libertar seus
colegas da cegueira, mas sim os ajuda a conviver com as suas deficiências
como elas são. Cria uma comuna de pessoas díspares – não
sei como era o original de Saramago, mas na versão do filme é uma
verdadeira Babel, com um casal de americanos, uma criança, uma jovem latina,
um velho negro e um casal de japoneses – e usa suas habilidades especiais para
prover o conforto de todos. Em um cenário, como esse, em que o mundo se
transformou num caos de brutalidade e barbárie e onde toda a atividade
produtiva cessou, a decisão de abrigar uma comuna, dentro de uma cidade,
é francamente suicida: toda comida que se dá ao estranho, em um
mundo de estoques não apenas finitos mas bastante limitados, é uma
caloria a menos que a heroína e seu marido vão ter para comer.
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| "O comunismo é um sistema
em que ninguém tem incentivo para produzir e o caminho natural é ou a exaustão
dos recursos coletivos e a pobreza geral ou a instituição de um governo tirânico
para compelir os recalcitrantes." |  |
Aqui a história perdeu, para mim, o realismo que era
sua atratividade principal, e a alegoria vira fantasia, surrealismo. Não
deixa de ser um bom contraste entre capitalismo e comunismo. Como dizia Adam Smith,
não é por bondade que o leiteiro entrega o leite, mas por ganho.
Da ganância individual é que nasce a pujança coletiva, trazida
à luz pela mão invisível do mercado. O comunismo é
um sistema em que ninguém tem incentivo para produzir, além de apelos
a uma humanidade que me parece estar aquém das nossas fronteiras biológico-evolutivamente
determinadas, e o caminho natural é ou a exaustão dos recursos coletivos
e a pobreza geral ou a instituição de um governo tirânico
para compelir os recalcitrantes. Ou, como mostrou a história do século
passado, uma mistura das duas coisas. Saramago, ao construir seu microcosmo de
felicidade e fraternidades terrestres na comuna urbana dos cegos, tem ao seu dispor
o superpoder que mesmo o reformista mais totalitário não dispunha
na vida real, que é o poder absoluto do ficcionista sobre sua obra. Saramago
deve ter percebido que, levada à sua conclusão lógica, o
desenrolar da sua história levaria à uma rápida morte coletiva
ou à dissolução da comuna e sua substituição
por unidades menores e egoístas. Sacou então de um deus ex-machina
para terminar a história de modo feliz, de modo que o altruísmo
da heroína fosse recompensado com a redenção de seu grupo. A
maneira como isso se dá, eu deixarei a aqueles que tem nervos de aço,
para que descubram nos cinemas. |