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dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

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Quarta-feira, 27 de agosto de 2008
 

Cegueira e Comunismo

Divulgação

Assisti à pré-estréia do filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. Não conseguiria fazer uma crítica do filme. Primeiro porque não tenho conhecimento pra tanto – deixo a tarefa pra sabida colega Isabela Boscov. E segundo porque o filme é tão forte, tão pesado, tão difícil, que sinceramente não consegui prestar atenção em nenhum aspecto cinematográfico da obra.

"O caminho 'natural', inercial, de uma comunidade humana é sucumbir ou à barbárie ou à ditadura, mas obviamente esse não é o cenário por mim desejado"

O filme, baseado em livro homônimo de José Saramago – que eu não li – narra a história de uma cidade repentinamente acometida por uma epidemia de cegueira, da qual só se salva uma mulher, interpretada por Julianne Moore, casada com um médico oftalmologista que é um dos primeiros a cair com a doença. O que se passa a partir daí é uma fábula política: como a civilização se desfaz, e como a barbárie substitui toda a modernidade de uma grande metrópole ocidental (no caso, primariamente São Paulo) simplesmente com o detalhe do desaparecimento de um dos sentidos. O cenário da barbárie primordial é uma questão trabalhada há séculos pelos grandes pensadores da filosofia política. Há duas visões basicamente antagônicas desse "estado natural": a de Hobbes e a de Locke. Na primeira, o estado natural é palco da famosa guerra de todos contra todos, em que a vida é nasty, bruttish and short. O caos primordial sugere a necessidade de um ditador, para controlar à força os impulsos dos homens. O estado natural de Locke é bem diferente, quase idílico, de uma comunidade que funciona, ainda que com percalços. Nesse cenário, o estado surge com funções mínimas, primordialmente um garantidor do direito de propriedade, que não interfere na busca da felicidade de cada indivíduo. Essas idéias têm peso real: Locke é o pai-inspirador da independência americana e o estado liberal que dela surgiu. Hobbes é a fonte conceitual das ditaduras. Pessoalmente, me parece que a percepção de Hobbes é mais correta no que tange à descrição do estado natural, e acredito que a biologia moderna e a psicologia evolucionista vêm dando cada vez mais suporte empírico a essa proposição. Entendo, portanto, que o caminho "natural", inercial, de uma comunidade humana é sucumbir ou à barbárie ou à ditadura, mas obviamente esse não é o cenário por mim desejado, e os países de inspiração lockeana são testemunho da capacidade humana de superar algumas de nossas tendências naturais, instintivas, pelo poder da nossa racionalidade.

A visão de Saramago, transposta por Meirelles, é francamente hobbesiana. E o filme retrata esse universo de maneira bastante gráfica, dolorosa de se ver. Até aí, tudo bem. A coisa começa a desandar, caindo para o terreno do wishful thinking, quando a protagonista decide o que fazer com seus superpoderes. Se em terra de cego quem tem um olho é rei, imagine quem tem dois. Mas Moore não usa a sua visão para se aproveitar dos seus colegas ou obter maior poder, e demora uma barbaridade para combater aqueles que o usurpam, com fins francamente gananciosos, para se dizer o mínimo. Pelo contrário: Moore se torna uma verdadeira Madre Teresa, correndo grandes perigos e passando por enormes privações para ajudar um grupo de cegos que ela não conhecia antes da epidemia e com os quais não tem nenhum vínculo de parentesco nem nenhuma identidade ou afinidades eletivas compartilhadas. Foi difícil não enxergar nessa escolha as tonalidades rubras do comunismo professado até hoje por Saramago. Impossível também não remeter a situação do Ensaio ao mito da caverna, d’A República, de Platão. Naquele caso, a pessoa com o dom da clarividência, um alter-ego do papel do filósofo na sociedade, vê a luz e se liberta de sua ignorância mas, ao voltar para a caverna e tentar iluminar seus colegas de grilhões, é rejeitado e morto por eles. O visionário de Saramago não tenta libertar seus colegas da cegueira, mas sim os ajuda a conviver com as suas deficiências como elas são. Cria uma comuna de pessoas díspares – não sei como era o original de Saramago, mas na versão do filme é uma verdadeira Babel, com um casal de americanos, uma criança, uma jovem latina, um velho negro e um casal de japoneses – e usa suas habilidades especiais para prover o conforto de todos. Em um cenário, como esse, em que o mundo se transformou num caos de brutalidade e barbárie e onde toda a atividade produtiva cessou, a decisão de abrigar uma comuna, dentro de uma cidade, é francamente suicida: toda comida que se dá ao estranho, em um mundo de estoques não apenas finitos mas bastante limitados, é uma caloria a menos que a heroína e seu marido vão ter para comer.

"O comunismo é um sistema em que ninguém tem incentivo para produzir e o caminho natural é ou a exaustão dos recursos coletivos e a pobreza geral ou a instituição de um governo tirânico para compelir os recalcitrantes."

Aqui a história perdeu, para mim, o realismo que era sua atratividade principal, e a alegoria vira fantasia, surrealismo. Não deixa de ser um bom contraste entre capitalismo e comunismo. Como dizia Adam Smith, não é por bondade que o leiteiro entrega o leite, mas por ganho. Da ganância individual é que nasce a pujança coletiva, trazida à luz pela mão invisível do mercado. O comunismo é um sistema em que ninguém tem incentivo para produzir, além de apelos a uma humanidade que me parece estar aquém das nossas fronteiras biológico-evolutivamente determinadas, e o caminho natural é ou a exaustão dos recursos coletivos e a pobreza geral ou a instituição de um governo tirânico para compelir os recalcitrantes. Ou, como mostrou a história do século passado, uma mistura das duas coisas. Saramago, ao construir seu microcosmo de felicidade e fraternidades terrestres na comuna urbana dos cegos, tem ao seu dispor o superpoder que mesmo o reformista mais totalitário não dispunha na vida real, que é o poder absoluto do ficcionista sobre sua obra. Saramago deve ter percebido que, levada à sua conclusão lógica, o desenrolar da sua história levaria à uma rápida morte coletiva ou à dissolução da comuna e sua substituição por unidades menores e egoístas. Sacou então de um deus ex-machina para terminar a história de modo feliz, de modo que o altruísmo da heroína fosse recompensado com a redenção de seu grupo.

A maneira como isso se dá, eu deixarei a aqueles que tem nervos de aço, para que descubram nos cinemas.

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