| Vestiburrar
Tiago Queiroz/AE  |
Nessa época do ano, milhões de brasileiros estão
prestando ou preparando-se para prestar o vestibular. Esse é um exame amaldiçoado
desde que se tem notícia dele, e por quase uma unanimidade dos que o analisam.
Fica então a dúvida de por que esse instrumento imperfeito, para
se dizer o mínimo, permanece em existência. Três
possíveis soluções
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| "A meritocracia
é o mecanismo superior de seleção. A dúvida é
por que o Brasil se utiliza dessa forma incompetente de meritocracia (o vestibular)" |
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Em primeiro lugar, porque há uma necessidade de selecionar.
Os melhores alunos querem ir para as melhores universidades e não há
vagas, nessas universidades, para todos, de forma que é necessário
algum mecanismo de seleção. Me ocorrem três maneiras de resolver
esse dilema. A primeira é a solução argentina, populista,
de simplesmente abrir a universidade pública a todos aqueles que terminam
o ensino secundário. Esse projeto faz com que a Universidade de Buenos
Aires, por exemplo, tenha 250.000 alunos matriculados. Consegue-se educação
para todos, mas o custo é a qualidade do ensino, já que instituições
desse porte são totalmente inadministráveis. A segunda solução
- digamos um populismo light - é escolher aleatoriamente, por sorteio,
aqueles que entram na universidade. O vestibular tem um quê de sorteio,
já que certamente o desempenho de um aluno em uma prova que dura algumas
horas em alguns dias dificilmente será representativa de suas habilidades
intelectuais construídas ao longo de uma vida, mas o seu forte é
indubitavelmente a dimensão meritocrática: entram os que mais sabem.
A meritocracia é o mecanismo superior de seleção. A dúvida
é por que o Brasil se utiliza dessa forma incompetente de meritocracia,
sujeita a tantos acasos e causadora de níveis ridículos de tensão
em seus participantes. Certamente não é por falta de modelos. O
americano, por exemplo, é bem conhecido, e sua multidimensionalidade -
são consideradas notas escolares, desempenho em exames padronizados que
podem ser feitos inúmeras vezes, entrevistas, recomendações
de professores, currículo etc. - dá trabalho, mas certamente é
mais rica do que uma simples prova. Por que não a utilizamos?
Em
poucas palavras, porque não há necessidade. As universidades americanas
tomam todo esse cuidado na hora de selecionar seus alunos porque sabem que a qualidade
do corpo discente é tão ou mais importante do que a qualidade do
corpo docente para a qualidade da universidade. E essa qualidade é fundamental
para o avanço e o progresso das universidades: as melhores universidades
cobram mensalidades mais altas, recebem mais doações e verba para
pesquisa e assim conseguem atrair melhores professores, melhores alunos etc. As
boas prosperam, as ruins perecem. Falta competição
entre Universidades
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| "Se você fosse
um bom professor, em qual universidade preferiria ensinar, uma pública
ou uma particular?" |  |
No sistema educacional brasileiro não há essa necessidade,
pois há pouca competição entre universidades. Há pouca
competição porque, historicamente, há muito pouca gente no
mercado universitário para criar a escala necessária para uma competição
verdadeira. Isso vem mudando nos últimos dez anos, com a proliferação
de novos cursos, mas ainda somos um país com taxa de matrícula universitária
na casa dos 20%, contra as taxas de 50% a 80% que se observam nos países
desenvolvidos. Mas, fundamentalmente, há pouca competição
porque o sistema foi criado para ser assim.
As universidades públicas
foram e são desmesuradamente beneficiadas, de uma maneira que as torna
quase inalcançáveis. O professor de universidade pública
tem um bom salário, pois a constituição manda que seja contratado
em regime de trabalho integral, como pesquisador, mesmo quando ele não
faz pesquisa nem trabalha em tempo integral. Ou seja, o professor de universidade
pública trabalha menos do que o seu colega da maioria das universidades
privadas, recebe mais por hora trabalhada e ainda tem um generoso sistema de aposentadoria.
Suas condições de trabalho também são melhores. Como
a elite brasileira conseguiu capturar o sistema universitário, há
muito poucos alunos por curso, de forma que os professores têm um ambiente
mais aprazível. A universidade pública também é quase
que monopolista na verba para pesquisa - a atividade que sempre atraiu as mentes
mais curiosas. Se você fosse um bom professor, em qual universidade preferiria
ensinar, portanto? Uma pública ou uma particular?
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| "A universidade
privada no Brasil só se salva porque tem alguns idealistas que constroem
instituições com o Ibmec, a FGV ou a PUC-RJ" |
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Do lado do aluno, a equação é semelhante.
Você pode estudar nas instituições onde estão os melhores
professores, e de graça, ou pode pagar para estudar em faculdades com menos
gabarito e professores menos reconhecidos. Onde você vai querer estudar?
Na universidade pública. A universidade privada no Brasil só se
salva porque tem alguns idealistas que constroem instituições com
o Ibmec, a FGV ou a PUC-RJ e porque a morosidade e o mofo intelectual que dominam
algumas universidades públicas são fortes o suficiente para afugentar
os mais ambiciosos intelectualmente. Mesmo em um cenário onde não
há mais uma diferença significativa de qualidade entre as universidades
públicas e privadas, como o finado Provão indicava, a pública
é gratuita e, portanto, mais desejada. Por isso há, segundo a última
sinopse
estatística do ensino superior, 7 candidatos por vaga na universidade
pública contra 1,3 alunos por vaga nas instituições privadas.
Preferência
pelas universidades públicas Como a grande maioria do alunado almeja,
assim, entrar na universidade pública, ele irá tentar o sistema
de seleção das universidades públicas. Como as universidades
públicas não dependem da qualidade do alunado para sua sobrevivência,
elas tendem a continuar com um exame de seleção não-ideal,
como o vestibular. Já que os almejantes a universitários se preparam
para o vestibular e só vão para a universidade privada caso não
entrem na pública, e como praticamente não há falta de vaga
- mas sim de aluno - na universidade privada, não faz sentido para ela
criar outro tipo de exame. Mais fácil surfar na onda das universidades
públicas. Só se dá ao luxo de criar um sistema de seleção
diferente a universidade que é boa que chega para fazer com que os candidatos
a tomem como prioridade, acima da universidade pública. Por isso é
que a mesma sinopse estatística aponta que 75% dos ingressantes nas universidades
passaram pelo vestibular, enquanto que só 8% entraram através de
outros processos seletivos, como os resultados no ENEM ou notas escolares. (Os
outros 17% entram via transferências etc.)
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| "75% dos ingressantes
nas universidades passaram pelo vestibular, 8% entraram através de outros
processos seletivos" |  |
Quais as soluções para que nossos jovens deixem
de passar por esse calvário todos os anos? Em primeiro lugar, mais gente
sendo aprovada pelo ensino médio e tendo que ir para as universidades -
quando a universidade for massificada, haverá mais espaço para mais
métodos alternativos de seleção. E em segundo e mais importante,
o fim da gratuidade das universidades públicas. Quando esta depender da
qualidade do seu aluno e da satisfação do seu aluno para sobreviver,
pode ter certeza: o vestibular pode até continuar a existir, mas deverá
ser apenas uma etapa de um processo mais interessante e interessado de seleção
de alunos, incapaz de causar insônia e calafrios em pais e alunos. Até
lá, aos que passarão pelo calvário nessas semanas: boa sorte.
Talvez seja difícil acreditar nisso agora, mas qualquer que seja o resultado
do exame, você não apenas sobreviverá, como não terá
o seu curso de vida significativamente alterado..
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