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Assim
não, ministro!
Ceslo Junior/AE
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O ministro Tarso Genro, que ostenta uma admirável
e ilibada vida pública, vem protagonizando repetidos
abusos à democracia nas últimas semanas,
desde a deflagração da operação
Dantas. A operação em si, comandada pela
Polícia Federal subordinada ao Ministério
da Justiça de Tarso, já teve todas as
vicissitudes que a imprensa não se cansa de apontar.
No imbróglio que se seguiu a ela, o governo chegou
ao absurdo de grampear uma conversa entre o seu próprio
delegado e um superior e fazer um vazamento altamente
seletivo para confirmar uma mentira – de que o delegado
Protógenes afastava-se do inquérito por
livre e espontânea vontade. Na seqüência,
Tarso deu uma entrevista à Folha de São
Paulo em que violava o princípio básico
de qualquer sistema penal – a presunção
de inocência dos réus – ao dizer que Dantas
teria muito trabalho para provar sua inocência.
Quem terá trabalho é a PF e Promotoria
Pública, e para provar a culpabilidade de Dantas,
não o inverso. Logo depois, o ministro envolveu-se
em refrega com o presidente do STF, Gilmar Mendes, que
aparentemente foi espionado por agentes da PF/Abin.
Agora Tarso volta à carga, em discurso proferido
nesta quinta-feira, dia 24, dizendo que "Estamos chegando
num ponto em que temos de nos acostumar com o seguinte:
falar no telefone com a presunção de que
alguém está escutando (...) Se alguém
quiser hoje escutar um telefone nosso, digo algum indivíduo,
alguma instituição privada, tem meios
para isso, dado o grau de sofisticação
que a parafernália eletrônica chegou".
Logo adiante, no mesmo discurso, Tarso afirmou que o
uso ou não de algemas está em discussão
agora porque atinge o que ele chamou de "elites".
Assim não, ministro! Vamos por partes.
A afirmação sobre a escuta telefônica
é um embuste e um perigo. Um embuste porque o
uso de escutas, legais e ilegais, não está
grassando por conta do desenvolvimento tecnológico
da "parafernália eletrônica",
mas sim por conta da fraqueza institucional do país,
patrocinada principalmente pelo próprio governo.
Se a questão fosse tecnológica, os países
onde as parafernálias são ainda mais sofisticadas
e baratas do que as nossas, como Estados Unidos, Inglaterra,
Japão e Coréia, viveriam com problemas
de escutas constantes e privacidade inexistente. Não
é isso que acontece. E não acontece porque
se o sujeito espiona alguém, vai em cana. A afirmação
é perigosa porque não veio de um cidadão
qualquer, mas de um Ministro da Justiça, uma
das autoridades responsáveis pelo zelo ao Estado
de Direito no país. Se essa autoridade diz que
os cidadãos devem esperar que o ilícito
vire comum, que a ilegalidade seja a regra, qual é
a mensagem para os bandidos, públicos e privados?
É quase que um salvo-conduto.
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"As
algemas em Dantas e Nahas não incomodam porque
eles são membros "das elites". Elas incomodam
porque são um indicador de que estamos em um estado
em que certas arbitrariedades são permitidas,
em que
a aplicação da lei
é seletiva."
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A questão das algemas vai pelo mesmo caminho.
A colocação de algemas em criminosos não
está sendo discutida porque eles são ricos
ou "das elites", mas sim por conta do crime
que foi cometido. Quando devem ser usadas algemas? Quando
o criminoso precisa ser imobilizado. Quando um criminoso
precisa ser imobilizado? Quando a sua mobilidade representa
uma ameaça de novo crime, de fuga das forças
da lei ou de agressão a aqueles que o prendem.
Quando um ladrão de banco armado é preso,
faz sentido colocar algema? Faz. Normalmente quem participa
de crimes como esse é jovem, tem força
física e pode portar armas de fogo ou brancas
escondidas. Pode sair correndo e fugir? Pode – e faz,
frequentemente. Pode tentar agredir ou atirar/esfaquear
um policial? Pode. Agora veja os criminosos de colarinho
branco. Em sua maioria, já não estão
mais na idade de sair correndo da polícia. Não
costumam portar armas de fogo. Nem opor resistência
física à prisão. Seus crimes são
cometidos com suas mentes, não seus punhos. Faz
sentido colocar algema em um criminoso como esse? Alguém
realmente acredita que um Pitta, Nahas, Dantas ou Cacciola
possa sair correndo ou dar uma porrada em agentes da
PF fortemente armados? Duvido. Até porque esses
senhores sabem que, com a legislação penal
brasileira, a possibilidade de que jamais tenham que
ir para a cadeia pelos seus crimes é bastante
alta. Eles sabem que uma agressão a policial
ou tentativa de fuga só pioraria seus casos perante
a lei. As algemas em Dantas e Nahas não incomodam
porque eles são membros "das elites"
ou porque "as elites" tenham especial apreço
por esses senhores. Não têm. As algemas
incomodam porque são um indicador de que estamos
em um estado em que certas arbitrariedades são
permitidas, em que a aplicação da lei
é seletiva.
E o vetor dessas arbitrariedades, operações
espetaculares e declarações infelizes
vão sempre no mesmo sentido: aquele de culpar
e humilhar aqueles que estão no topo da pirâmide
social. Porque, por essa leitura, estes das "elites"
foram os responsáveis pela culpabilização
e humilhação dos despossuídos,
de forma que agora devem pagar por seus pecados históricos
sendo justiçados pelo governo "do povo".
Pessoalmente, discordo dessa leitura – não posso
aceitar um conceito de culpa que não seja estritamente
individual; não aceito ser responsável
pelos crimes dos meus antepassados nem desejo que os
meus descendentes sejam imputados pelos delitos que
eu vier a cometer. Mas afora a discussão do mérito
da questão, o que a história da humanidade
não se cansa em demonstrar é que dois
erros não fazem um acerto, mas apenas um erro
maior; que o revanchismo jamais leva a algo construtivo
e que, fundamentalmente, um Estado pode começar
a desrespeitar a lei para agradar às massas e
punir as elites, mas nunca pára por aí:
um Estado sem lei acaba sendo um Estado sem lei para
todos, e na ausência de leis os que mais sofrem
são justamente aqueles que não dispõem
do instrumento que substitui as leis, que é o
poder. Está aí a história do século
20 a mostrar que as revoluções que derrubaram
uma plutocracia em troca de um regime "popular"
acabaram apenas trocando uma elite por outra, a financeira
pela política, os czares pela nomenklatura.
A maneira de instaurar a justiça social no país
não é de se criar um regime em que os
ricos e poderosos são perseguidos, mas sim um
regime em que a lei vale para todos e é aplicada
homogeneamente, sem distinção de cor,
idade, sexo ou classe social. Há toda uma escola
de economia, capitaneada pelo prêmio Nobel Douglas
North, que mostra o papel determinante das instituições
legais – especialmente o respeito aos direitos da propriedade
privada – para o desenvolvimento das nações.
Aqueles que pensam em entortar as leis para alcançar
a igualdade terminam ficando sem leis, sem liberdade
e só alcançam a igualdade em um cenário:
aquele em que todos são igualmente pobres.
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