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dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

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Quinta-feira, 24 de abril de 2008
 

Método de alfabetização: o experimento gaúcho


Getty Images

Escrevi aqui em janeiro sobre um experimento gaúcho focado em métodos de alfabetização. O estado escolheu aleatoriamente 677 turmas de primeira série em 536 escolas, que receberiam quatro tipos de intervenção na sua metodologia de alfabetização: um grupo seria instruído através do método construtivista, a cargo do GEEMPA, outro pelo método fônico, do Instituto Alfa e Beto, o terceiro através da metodologia do Instituto Ayrton Senna e um quarto grupo serviria de controle, recebendo a instrução convencional do estado.

Divulgo aqui os resultados desse experimento em primeira mão. O relatório completo está disponível aqui.

A primeira notícia relevante é de que os três métodos de instrução melhoraram o aprendizado das crianças. O grupo de controle teve uma média de 54 pontos, contra 68 do Alfa e Beto e 63 do IAS e GEEMPA.

A segunda, como se pode depreender dos dados acima, é que o método fônico desenvolvido pelo Instituto Alfa e Beto teve o melhor desempenho. A diferença de performance se deu em todos os níveis. 74,5% dos alunos deste método ficaram acima de um resultado de 40 pontos (o limite do nível "insatisfatório"), contra 68,7% do IAS e 68,2% do GEEMPA. Mais surpreendentemente, 43% obtiveram performance acima de 90 pontos ("muito bom"), comparado a 36% do IAS e 32% do GEEMPA.

Essa diferença de pontuação é particularmente surpreendente porque, apesar da natureza bem controlada e sofisticada do experimento, os três métodos não se desenvolveram em igualdade de condições: conforme o relatado no artigo de janeiro, há uma forte preferência por parte de professores, orientadores pedagógicos e diretores de escolas pelo método construtivista, e forte resistência ao método fônico.

Essa resistência, somada à pesquisa empírica a que tenho acesso sobre o tema, me levaram a imaginar que não haveria diferença de desempenho entre os três métodos. Fico contente pelo engano: como a alfabetização é sem dúvida a área mais nevrálgica da educação brasileira, é bom saber que há métodos que geram melhorias comprovadas, e mais útil ainda a descoberta de que um método em particular sai-se melhor do que os outros. É claro que um estudo relativamente pequeno em um estado da federação não prova nada e nem deveria fazer com que todos os municípios e estados do país adotassem o método fônico do dia para a noite, mas é sem dúvida um indício, um ponto de partida. Deveríamos dar mais atenção ao método fônico e trabalhar para acabar com as resistências a ele, e implementar mais estudos, em outras áreas do país, testando a eficácia desse método. E deveríamos faze-lo com urgência, pois se contam nos milhões as crianças brasileiras que são amputadas para toda a vida por conta de sua inabilidade de ler e escrever.

Perguntei à secretária da educação do RS, Mariza Abreu, se havia alguma diferença relevante de custos entre os três métodos, que tornasse um deles mais eficiente em termos financeiros, e também quais seriam os desdobramentos desse estudo sobre os métodos de alfabetização praticados no estado. Eis a sua resposta, que transcrevo na íntegra:

Os custos são praticamente os mesmos. Os três programas são diferentes. O Ayrton Senna não é propriamente um método de alfabetização e sim uma gestão da aprendizagem - auxiliam os professores a fazerem avaliações formativas durante o ano letivo e a definirem estratégias de intervenção pedagógica para assegurar a aprendizagem dos alunos. O Alfa e Beto (metodo fônico) e o GEEMPA (pós-construtivismo) são métodos de alfabetização decorrentes de diferentes concepções / teorias relativas ao processo de construção do conhecimento. A resistência dos professores ao Alfa e Beto deve-se ao preconceito em relação ao método fônico no Brasil construtivista (ou pós construtivista) e ao fato de que é mais estruturado com menos margem para a "livre ação" do professor e também exige muito trabalho - pelo menos esse é um argumento que alguns professores utilizam para manifestarem sua discordância com esse método. A Secretaria não pretende definir um método oficial de alfabetização. Nosso objetivo é construir a matriz de habilidades cognitivas em leitura / escrita e em matemática que devem ser necessariamente devolvidas com as crianças de 6 e de 7 anos nos dois primeiros anos do ensino fundamental de 9 anos, de forma a contribuir para o atingimento da meta do Todos pela Educação relativa a alfabetização de todas as crianças até os 8 anos de idade. Cada escola poderá escolher seu método de alfabetização mas deve cumprir com a meta de desenvolver as habilidades fixadas nesta matriz. Além disso, a Secretaria pode divulgar características e resultados das diferentes propostas pedagógicas de alfabetização para que as escolas tenham mais elementos para fazerem suas escolhas metodológicas.

É um posicionamento louvável. Espero que os dados referentes ao desempenho dos diferentes métodos de alfabetização sejam amplamente divulgados, e que rapidamente tenhamos uma convergência para aquele que tiver melhores resultados.

Para quem quiser obter maiores informações sobre o projeto pode consultar, a partir desta quinta-feira, o site da Secretaria de Educação do estado: www.educacao.rs.gov.br.

 

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