| Pesquisa livre e
arejamento mental
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Semana passada li essa matéria
no NY Times, falando sobre a possibilidade de toda a pesquisa dos professores
da Universidade de Harvard ser disponibilizada, daqui pra frente, online no site
da instituição, de graça. Pelo prestígio que a universidade
tem, uma iniciativa assim pode fazer com que várias das outras universidades
do planeta optem pelo mesmo caminho, o que poderia aumentar substancialmente o
volume de conhecimento disponível gratuitamente. Em uma primeira reação,
pensando com o estômago, fiquei contente com a história, e fiz votos
de que a liberação ocorresse o mais rapidamente possível
e servisse de exemplo para todos. O valor da pesquisa acadêmica é
virtualmente inestimável. Os modelos modernos de crescimento econômico,
por exemplo, sugerem que é justamente a pesquisa - tanto a pura quanto
a aplicada - que pode explicar o crescimento constante de produtividade que, ao
fim e ao cabo, é o que explica o enriquecimento das nações.
É uma questão que está longe de ser trivial, portanto. Continuei
lendo a matéria, e as dúvidas começaram a surgir, induzidas
pelo texto. Os opositores da medida sugerem que a estrutura atual de divulgação
científica - em que os artigos são publicados em revistas acadêmicas
("journals"), onde passam por um processo de leitura crítica
feita por outros pesquisadores da área, que permanecem no anonimato - garante
a qualidade do que é publicado, o que não aconteceria em um sistema
em que tudo que é escrito vai diretamente do autor para a rede. A perda
de receita que as revistas acadêmicas fatalmente sofreriam também
poderia resultar na diminuição de verbas dessas instituições
a encontros acadêmicos, que são ferramentas importantes na geração
e transmissão de conhecimento. Me lembrei de uma aula na faculdade em que
descobri, algo chocado, que a distribuição gratuita de comida a
países pobres da África costumava ter o efeito de aumentar a pobreza
e a fome ao invés de diminui-las, pois a distribuição de
alimentos gratuitos reduzia o valor da colheita, diminuindo a principal fonte
de renda das populações nativas. Não seria a primeira vez
que boas intenções teriam o resultado oposto do pretendido, portanto. Há
outra questão não mencionada pelo artigo. O efeito negativo da publicação
gratuita se faria sentir não apenas nos periódicos atuais, mas também
diminuiria a probabilidade de abertura de novas revistas acadêmicas - uma
maneira importante de divulgar novas áreas do conhecimento e abrigar os
"rebeldes" de hoje que costumam se tornar os gurus de amanhã.
O assunto me veio à mente quando
lia alguns dos posts e e-mails de leitores acerca do meu último artigo,
"Pelo
direito à ruindade". Tem gente que concorda, tem
gente que discorda da argumentação ali exposta. Ok. O que me entristece
são aquelas pessoas que pensam com o estômago e cercam seu cérebro
de muros que as protegem de qualquer possibilidade de mudança de posicionamento.
É o que se chama de ideologia. Nesse
caso específico, são as pessoas que dizem coisas como "que
absurdo alguém defender uma educação de má qualidade"
ou "as pessoas só vão para essas universidades ruins porque
o mercado exige; é uma farsa, não aprendem nada". Defendo
a ruindade na educação tanto quanto amo forró e música
sertaneja. Defendo apenas que as pessoas tenham o direito de estudar em escolas
de baixa qualidade, tanto quanto elas têm o direito de escutar forró
e sertanejo, ritmos que me causam vertigem. Creio
que o artigo deixa bem claro que a educação superior é importante
para o país, e também que o mercado de trabalho valoriza os diplomas
de ensino universitário porque ele torna a pessoa mais produtiva do que
o seu concorrente sem diploma. Se não houvesse melhora no mercado de trabalho,
a maioria das pessoas não investiria muito tempo e recurso para se educar,
e se as empresas não verificassem melhorias de desempenho nos alunos diplomados,
por que pagariam a eles maiores salários? Claro que é possível
que em um caso ou outro isso não aconteça, e a imprensa sempre será
pródiga em relatar as exceções que confirmam a regra, mas
podemos sinceramente acreditar que em um sistema que atrai praticamente um milhão
de novos alunos, ano após ano, como ocorre na educação privada
superior brasileira, todos ou a maioria está errada? Difícil. A
questão não é tanto a correção ou não
do argumento. O mais interessante é a maneira como ele é tratado.
Os que pensam com chavões e idéias pré-concebidas não
estão pensando, apenas repetindo. Nesse caminho, se privam de uma das maiores
alegrias que um ser humano pode ter, que é de ver coisas novas ou ver lados
novos de uma moeda que já se imaginava conhecida. O risco do desconforto
de se ver errado é o preço que se paga para estarmos certos. Quem
não se dispõe a esse diálogo interno não obterá
nenhum ganho do diálogo com terceiros. Em tempo: depois da análise
mais cuidadosa, mantenho a opinião da análise "estomacal":
me parece que a postagem da pesquisa online, disponível a todos, representa
um ganho social maior do que as possibilidades de perda. Os professores de Harvard
também pensaram assim, e aprovaram maciçamente a nova política.
Dentro em breve, esses artigos estarão disponíveis no site da biblioteca
da universidade e através de mecanismos de busca como o Google Scholar. O
fato de a conclusão instintiva ser igual à decisão mais ponderada
não significa que a ponderação foi um equívoco ou
uma perda de tempo. Depois de ver o argumento pelos olhos de quem discordo e entender
suas posições, vejo que é preciso monitorar o impacto que
a nova medida terá sobre a qualidade da pesquisa publicada online, sobre
o preço das revistas acadêmicas, sobre a realização
de congressos de pesquisa e estar pronto para agir de modo a corrigir anomalias.
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