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COLUNISTAS
dubitandum
Gustavo Ioschpe
Economista, especialista em educação “de omnibus dubitandum est”
(duvide de tudo)

DICAS
Site
MEC em Números
Esse site traz um panorama geral dos dados quantitativos da educação brasileira. Do “mapa do ensino superior” vieram informações usadas para esse texto e artigo da revista.
Livro
A Escola Vista por Dentro, de Simon Schwartzman e João Batista Oliveira
(Ed. Alfa Educativa)
De dois dos pensadores mais respeitados e experientes da educação brasileira, uma pesquisa fundamental para entender o que pensam pais e professores do nosso ensino.
ARQUIVO
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03/12/2008: Violência escolar: quem é a vítima?
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2/1/2008: Os professores e a "frieza das estatísticas"
20/12/2007: Opinião dos leitores
10/12/2007: O professor desvalorizado
7/12/2007: Professor não é coitado
26/11/2007: Vestiburrar
9/11/2007: O caminho passa por consertar a escola pública
1/11/2007: Preocupe-se. Seu filho é mal educado
19/10/2007: Os leitores e a gratuidade do ensino universitário público
16/10/2007: Opinião dos leitores
05/10/2007: Contra a gratuidade nas universidades públicas
20/09/2007: Educação e a incomunicabilidade dos Brasis
29/08/2007: Quem sou, de onde vim e por que estou aqui

NOTAS
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23/1/2008
 
Terça-feira, 20 de dezembro de 2007
 

Opinião dos leitores (até 20/12)

Em artigo de 12 de dezembro, com o título Professor não é coitado, Gustavo Ioschpe argumenta que a realidade da carreira de professor é bastante diferente da imagem difundida (leia aqui) e abriu espaço para os leitores darem sua opinião. Abaixo, os emails selecionados:


Não
 

Detestei sua matéria. Há um texto bem engraçado sobre os professores que de vez em quando aparecem nas escolas. Entre outras coisas, cita isto: "Quando o aluno tira dez é porque estudou, quando tira zero é por culpa do professor". Nós, professores, damos risadas, pois sabemos que os alunos são assim mesmo. Mas, quando o mesmo argumento parte de alguém que se diz especialista em educação, dá vontade de chorar. É lamentável e patético. Aposto um pedaço de giz que se os resultados sobre a educação brasileira fossem bons, a façanha seria atribuída ao... Não é necessário completar, é? A propósito, sou professora de Inglês da rede privada de ensino há mais de 25 anos. Trabalho muito e amo o que faço.
Sandra Mara Padilha


Sim
 

Concordo com o título de seu artigo, realmente o Professor não é Coitado. Eu não me considero uma coitada, mas desvalorizada profissionalmente. Historicamente neste país, nem o governo nem a sociedade dão valor à educação, mas reconheço também que embora a nossa classe profissional seja numerosa ela é bastante desarticulada.
Izula Luiza


Não
 

Prezado Gustavo Ioschpe:É com muita satisfação que venho ratificar a sua idéia de que professor não é um "coitado". Somos sim cidadãos honestos, honrados e batalhadores por uma educação de qualidade em meio a tantos dissabores existentes em nossa sociedade. Não nos generalize com frases tão frias e manipuladoras (uma vez que é um dos agentes formadores de opinião, infelizmente!). Repense que em todas categorias profissionais existem os bons e maus. E qual o seu "prazer" em denegrir ainda mais a imagem do professor? Venha pessoalmente a uma sala de aula e faça um estágio. Aí sim seus dados estatísticos (questionáveis, se assim posso dizer, uma vez que interferiu em uma área que não é a base de sua formação acadêmica) serão mais verdadeiros e contribuirão para ajudar a melhorar a Educação de nossos jovens.
Ana Paula


Sim
 

No primeiro dia de aula na universidade Sorbonne, um professor indicou aos aluno (eu incluso) cinco títulos de obras literárias didáticas. Todos os títulos eram da autoria dele, do próprio professor. A produção literária dos nossos professores universitários mereceria algum tipo de pesquisa?
Valton Sergio von Tempski-Silka


Não
 

Senhor Gustavo, os dados citados em seu artigo intitulado "Professor não é coitado" não correspondem à realidade. Tenho certeza! E tenho essa certeza porque sou professora, vivo uma situação calamitosa todos os dias. A maioria dos professores trabalha em mais de uma escola, sim! Os salários são ruins, sim! Os alunos são cada vez mais desinteressados, sim! E quanto ao fato de crescer a procura por cursos de licenciatura, mais um engano. A cada ano diminui, em Minas Gerais, o número de professores de determinadas matérias, porque nenhum jovem se interessa mais pela profissão de professor. Trabalhei em pré-vestibular muitos anos e o que mais ouvia dos alunos: "Fazer licenciatura, no Brasil? De jeito nenhum!" Conheço muitos professores que não vêem a hora de trocar a sala de aula por outra atividade! Não acredito naqueles dados apresentados em seu texto. Para mim, aquilo é uma falácia que para pintar um quadro irreal da educação no Brasil. O real, infelizmente, é a idéia que todos têm sobre a educação!
Rosana Magalhães Andrade


Sim
 

Concordo com o seu ponto de vista e acrescento: trabalho há oito anos na Secretaria de Estado da Educação de Sergipe. Exerço a função de pedagogo, no horário noturno - das 18h40 às 22h40. Rotineiramente e diariamente até as 19 horas nenhum professor foi para a sala de aula, ficam na sala de professores batendo papo. Às 22 horas encerram suas aulas. Ou seja, 1 hora e 20 minutos de aula a menos todos os dias. Porém a aula é registrada e assinada como se tivesse sido ministrada na íntegra. Por ocasião de paralisações as aulas são supostamente repostas. O Sindicato, a Secretaria, as diretorias nunca acompanham a efetividade dessas reposições. Nesta época do ano (novembro a dezembro), a evasão é uma realidade cruel. Antes das 22 horas o Colégio já está vazio. (...) Tenho um salário líquido de cerca de 1.000 reais. É pouco? Depende. Não dá para minhas despesas pessoais. Mas estou num país em que o trabalhador recebe um salário de 380 reais para trabalhar oito horas diárias. O coitado sou eu (que trabalho bem menos) ou é esse operário que não teve a oportunidade de trabalhar nas SEED’s espalhadas pelo Brasil? Parabéns pelo artigo, um verdadeiro retrato da nossa educação.

 

O professor desvalorizado

Getty Images

Meu artigo na revista VEJA dessa semana fala sobre a "coitadização" do nosso professor - um discurso infantilizador de alguns, que trata o professor brasileiro como um pobre coitado, uma vítima - objeto, e não sujeito, de sua ação.

Parte desse discurso, rotineiramente proferido por membros da categoria e suas lideranças sindicais, diz respeito à desvalorização social do professor. Diz-se que a carreira de professor é desmerecida pela sociedade, e que a baixa auto-estima resultante dessa estigmatização está entre as causas do insucesso docente e do fracasso da nossa educação. Parece-me que é um caso de, na melhor das hipóteses, causalidade reversa.

"Acredito que a sociedade brasileira entende o papel fundamental do professor na formação de seus filhos."

Digo "na melhor das hipóteses" porque efetivamente não acredito que a profissão de professor seja vítima de preconceito. Pelo contrário, aliás. Onde quer que eu vá, vejo manifestações de apreço e encorajamento aos professores. Há uma série de prêmios, regionais e nacionais, destinados à categoria. Seguidamente jornais, revistas e programas de TV se referem aos professores como heróis. Quando acontece alguma agressão a professores ela logo vira destaque e é vista com espanto e reprovação. Acredito que a sociedade brasileira entende o papel fundamental do professor na formação de seus filhos. Pesquisa realizada pelo Inep (acesse a pesquisa) com os pais de alunos revelou que 83% dos entrevistados acreditam que os professores estão preocupados em ensinar e dar boas aulas, 77% diz que o professor tem paciência para tirar dúvidas dos alunos, 89% declaram que o professor é atencioso com os pais. Quando os pais são instados a dar notas para os professores de seus filhos, estes recebem uma avaliação exemplar: 8,6 para a qualidade do ensino e 8,4 para o conteúdo ensinado.

Essa já seria uma avaliação lisonjeira para qualquer profissão, mas no caso da educação brasileira, que é um fracasso indiscutível, ela é verdadeiramente miraculosa. Os professores brasileiros têm uma situação privilegiada: mesmo sendo os principais responsáveis pelo ensino, não recebem praticamente nenhuma condenação pelo seu fracasso, que recai todo sobre os próprios filhos (os alunos) e os governantes. Deve ser um caso único em que o pai vitima o filho, já vitimado pelo péssimo ensino que recebe.

"O que a escola, e o que os profissionais fazem dentro dela, importam - e muito - para o desempenho do aluno."


Se há, em alguma região do país ou contexto específico, reclamações dirigidas aos professores que os façam sentir-se desvalorizados, só podemos dizer que é de se esperar. Poucas categorias profissionais no país apresentam resultados tão decepcionantes como a dos trabalhadores do ensino. E em nenhum outro caso esse desempenho é tão importante para o país. Durante décadas imperou a visão de que os problemas educacionais eram todos exógenos aos profissionais do ensino - causados pelas supostas faltas de interesse e de investimento da sociedade ou por problemas do próprio aluno. Atualmente, com as avaliações às quais o sistema educacional está sujeito, essa visão tornou-se insustentável. É absolutamente transparente que, com os mesmos níveis de recurso e atendendo pais e alunos dos mesmos estratos sociais, escolas diferentes têm resultados muito distintos. Sinal de que a escola, e o que os profissionais fazem dentro dela, importam - e muito - para o desempenho do aluno.

Está na hora de os nossos professores pararem de demonizar o Outro - governantes, diretores, políticos, pais, neoliberalismo, alunos - pelo insucesso da escola. Não vamos chegar a lugar nenhum com transferência de responsabilidades. E não se trata aqui de atribuir culpas - essa linguagem cabe nos confessionários religiosos, não em discussões de políticas públicas. Não interessa o que passou. O que importa é o que podemos fazer daqui pra frente. Tenho certeza de que se os professores tiverem o desprendimento de aceitarem realizar uma instrospecção honesta e conseguirem identificar suas carências, a sociedade brasileira - por meio de seus representantes eleitos, mas não apenas eles - saberá estender-lhes a mão, sem recriminações, e ajudar-lhes na melhoria das nossas escolas.

 

Professor não é coitado
(artigo publicado em VEJA de 7/12/2007)

Materiais mencionados no artigo

Sinopse Estatística do Ensino Superior
Dados da PNAD tabulados por Simon Schwartzman
Perfil dos Professores Brasileiros
Absenteísmo docente no estado de São Paulo
Alunos por turma: Sinopse da Educação Básica 2005
Dados sobre a infra-estrutura das escolas
Dados sobre violência contra o professor
Salários dos professores: OECD, Education at a Glance 2005

 
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