Em artigo de 12 de dezembro, com o título Professor
não é coitado, Gustavo Ioschpe argumenta que a realidade
da carreira de professor é bastante diferente da imagem
difundida (leia
aqui) e abriu espaço para os leitores darem
sua opinião. Abaixo, os emails selecionados:

Não |
|
Detestei sua matéria. Há um texto bem engraçado sobre
os professores que de vez em quando aparecem nas escolas.
Entre outras coisas, cita isto: "Quando o aluno tira
dez é porque estudou, quando tira zero é por culpa
do professor". Nós, professores, damos risadas, pois
sabemos que os alunos são assim mesmo. Mas, quando
o mesmo argumento parte de alguém que se diz especialista
em educação, dá vontade de chorar. É lamentável e
patético. Aposto um pedaço de giz que se os resultados
sobre a educação brasileira fossem bons, a façanha
seria atribuída ao... Não é necessário completar,
é? A propósito, sou professora de Inglês da rede privada
de ensino há mais de 25 anos. Trabalho muito e amo
o que faço.
Sandra Mara Padilha

Sim |
|
Concordo com o título de seu artigo, realmente o
Professor não é Coitado. Eu não me considero uma coitada,
mas desvalorizada profissionalmente. Historicamente
neste país, nem o governo nem a sociedade dão valor
à educação, mas reconheço também que embora a nossa
classe profissional seja numerosa ela é bastante desarticulada.
Izula Luiza

Não |
|
Prezado Gustavo Ioschpe:É com muita satisfação que
venho ratificar a sua idéia de que professor não é
um "coitado". Somos sim cidadãos honestos, honrados
e batalhadores por uma educação de qualidade em meio
a tantos dissabores existentes em nossa sociedade.
Não nos generalize com frases tão frias e manipuladoras
(uma vez que é um dos agentes formadores de opinião,
infelizmente!). Repense que em todas categorias profissionais
existem os bons e maus. E qual o seu "prazer" em denegrir
ainda mais a imagem do professor? Venha pessoalmente
a uma sala de aula e faça um estágio. Aí sim seus
dados estatísticos (questionáveis, se assim posso
dizer, uma vez que interferiu em uma área que não
é a base de sua formação acadêmica) serão mais verdadeiros
e contribuirão para ajudar a melhorar a Educação de
nossos jovens.
Ana Paula

Sim |
|
No primeiro dia de aula na universidade Sorbonne,
um professor indicou aos aluno (eu incluso) cinco
títulos de obras literárias didáticas. Todos os
títulos eram da autoria dele, do próprio professor.
A produção literária dos nossos professores universitários
mereceria algum tipo de pesquisa?
Valton Sergio von Tempski-Silka

Não |
|
Senhor Gustavo, os dados citados em seu artigo intitulado
"Professor não é coitado" não correspondem à realidade.
Tenho certeza! E tenho essa certeza porque sou professora,
vivo uma situação calamitosa todos os dias. A maioria
dos professores trabalha em mais de uma escola, sim!
Os salários são ruins, sim! Os alunos são cada vez
mais desinteressados, sim! E quanto ao fato de crescer
a procura por cursos de licenciatura, mais um engano.
A cada ano diminui, em Minas Gerais, o número de professores
de determinadas matérias, porque nenhum jovem se interessa
mais pela profissão de professor. Trabalhei em pré-vestibular
muitos anos e o que mais ouvia dos alunos: "Fazer
licenciatura, no Brasil? De jeito nenhum!" Conheço
muitos professores que não vêem a hora de trocar a
sala de aula por outra atividade! Não acredito naqueles
dados apresentados em seu texto. Para mim, aquilo
é uma falácia que para pintar um quadro irreal da
educação no Brasil. O real, infelizmente, é a idéia
que todos têm sobre a educação!
Rosana Magalhães Andrade

Sim |
|
Concordo com o seu ponto de vista e acrescento: trabalho
há oito anos na Secretaria de Estado da Educação de
Sergipe. Exerço a função de pedagogo, no horário noturno
- das 18h40 às 22h40. Rotineiramente e diariamente
até as 19 horas nenhum professor foi para a sala de
aula, ficam na sala de professores batendo papo. Às
22 horas encerram suas aulas. Ou seja, 1 hora e 20
minutos de aula a menos todos os dias. Porém a aula
é registrada e assinada como se tivesse sido ministrada
na íntegra. Por ocasião de paralisações as aulas são
supostamente repostas. O Sindicato, a Secretaria,
as diretorias nunca acompanham a efetividade dessas
reposições. Nesta época do ano (novembro a dezembro),
a evasão é uma realidade cruel. Antes das 22 horas
o Colégio já está vazio. (...) Tenho um salário líquido
de cerca de 1.000 reais. É pouco? Depende. Não dá
para minhas despesas pessoais. Mas estou num país
em que o trabalhador recebe um salário de 380 reais
para trabalhar oito horas diárias. O coitado sou eu
(que trabalho bem menos) ou é esse operário que não
teve a oportunidade de trabalhar nas SEED’s espalhadas
pelo Brasil? Parabéns pelo artigo, um verdadeiro retrato
da nossa educação.
O professor desvalorizado
Meu artigo
na revista VEJA dessa semana fala sobre a "coitadização"
do nosso professor - um discurso infantilizador de
alguns, que trata o professor brasileiro como um pobre
coitado, uma vítima - objeto, e não
sujeito, de sua ação.
Parte desse
discurso, rotineiramente proferido por membros da
categoria e suas lideranças sindicais, diz
respeito à desvalorização social
do professor. Diz-se que a carreira de professor é
desmerecida pela sociedade, e que a baixa auto-estima
resultante dessa estigmatização está
entre as causas do insucesso docente e do fracasso
da nossa educação. Parece-me que é
um caso de, na melhor das hipóteses, causalidade
reversa.
 |
|
"Acredito
que a sociedade brasileira entende o papel fundamental
do professor na formação de seus filhos."
|
 |
Digo "na
melhor das hipóteses" porque efetivamente
não acredito que a profissão de professor
seja vítima de preconceito. Pelo contrário,
aliás. Onde quer que eu vá, vejo manifestações
de apreço e encorajamento aos professores.
Há uma série de prêmios, regionais
e nacionais, destinados à categoria. Seguidamente
jornais, revistas e programas de TV se referem aos
professores como heróis. Quando acontece alguma
agressão a professores ela logo vira destaque
e é vista com espanto e reprovação.
Acredito que a sociedade brasileira entende o papel
fundamental do professor na formação
de seus filhos. Pesquisa realizada pelo Inep
(acesse
a pesquisa) com os pais de alunos revelou
que 83% dos entrevistados acreditam que os professores
estão preocupados em ensinar e dar boas aulas,
77% diz que o professor tem paciência para tirar
dúvidas dos alunos, 89% declaram que o professor
é atencioso com os pais. Quando os pais são
instados a dar notas para os professores de seus filhos,
estes recebem uma avaliação exemplar:
8,6 para a qualidade do ensino e 8,4 para o conteúdo
ensinado.
Essa já
seria uma avaliação lisonjeira para
qualquer profissão, mas no caso da educação
brasileira, que é um fracasso indiscutível,
ela é verdadeiramente miraculosa. Os professores
brasileiros têm uma situação privilegiada:
mesmo sendo os principais responsáveis pelo
ensino, não recebem praticamente nenhuma condenação
pelo seu fracasso, que recai todo sobre os próprios
filhos (os alunos) e os governantes. Deve ser um caso
único em que o pai vitima o filho, já
vitimado pelo péssimo ensino que recebe.
 |
|
"O
que a escola, e o que os profissionais fazem
dentro dela, importam - e muito - para o desempenho
do aluno."
|
 |
Se há, em alguma região do país
ou contexto específico, reclamações
dirigidas aos professores que os façam sentir-se
desvalorizados, só podemos dizer que é
de se esperar. Poucas categorias profissionais no
país apresentam resultados tão decepcionantes
como a dos trabalhadores do ensino. E em nenhum outro
caso esse desempenho é tão importante
para o país. Durante décadas imperou
a visão de que os problemas educacionais eram
todos exógenos aos profissionais do ensino
- causados pelas supostas faltas de interesse e de
investimento da sociedade ou por problemas do próprio
aluno. Atualmente, com as avaliações
às quais o sistema educacional está
sujeito, essa visão tornou-se insustentável.
É absolutamente transparente que, com os mesmos
níveis de recurso e atendendo pais e alunos
dos mesmos estratos sociais, escolas diferentes têm
resultados muito distintos. Sinal de que a escola,
e o que os profissionais fazem dentro dela, importam
- e muito - para o desempenho do aluno.
Está
na hora de os nossos professores pararem de demonizar
o Outro - governantes, diretores, políticos,
pais, neoliberalismo, alunos - pelo insucesso da escola.
Não vamos chegar a lugar nenhum com transferência
de responsabilidades. E não se trata aqui de
atribuir culpas - essa linguagem cabe nos confessionários
religiosos, não em discussões de políticas
públicas. Não interessa o que passou.
O que importa é o que podemos fazer daqui pra
frente. Tenho certeza de que se os professores tiverem
o desprendimento de aceitarem realizar uma instrospecção
honesta e conseguirem identificar suas carências,
a sociedade brasileira - por meio de seus representantes
eleitos, mas não apenas eles - saberá
estender-lhes a mão, sem recriminações,
e ajudar-lhes na melhoria das nossas escolas.