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Educação e a incomunicabilidade dos Brasis Nós
brasileiros de classe média para cima somos vítimas de dois erros
de percepção. O primeiro é de que o Brasil é como
nós: relativamente instruído, informado, desejoso de progresso nos
moldes dos países desenvolvidos, liberal e democrático. O segundo,
um pouco derivado do primeiro, é de que nossa ação pode influenciar
os destinos da nação através da pressão sobre a classe
política e os formadores de opinião. Para
derrubar o primeiro erro, basta conversar mais prolongadamente com as pessoas
que compõem a base e maioria de nossa pirâmide social para descobrir
que nossas experiências e leituras de mundo são separadas por um
enorme fosso. Para quem não quer fazer o trabalho de campo, basta ler A
Cabeça do Brasileiro (Record; 280 páginas; 42 reais), do sociólogo
Alberto Carlos Almeida, e notar quão diferente é o Brasil das duas
pontas do espectro sociocultural. Entre os que têm estudo até a 8ª
série, 58% acha certo o "jeitinho", contra 33% entre aqueles
com ensino superior. Entre os analfabetos, 51% acredita que Deus decide o destino,
contra 9% dos bacharéis. A tortura de presos pela polícia é
tolerada por 51% dos analfabetos contra 14% dos diplomados. 76% daqueles que têm
ensino até a 4ª série é contra a masturbação
masculina, contra apenas 26% dos possuidores de ensino universitário. E
por aí vai.
A idéia de que podemos influenciar decisivamente
a ação política deriva de um elitismo de antanho e do desconhecimento
do funcionamento do "mercado" político. Esse é um mercado
movido a voto. A maioria elege. Todo político que queira ser eleito deve
aderir ao chamado teorema do votante mediano: você precisa defender posições
que agradem ao eleitor que está no meio do espectro político/ideológico.
Quem "captura" o eleitor mediano tem grandes chances de ser palatável
para a maioria do eleitorado e, portanto, sair vencedor. Quem defende uma posição
extremada só captura a minoria dos votantes que compartilha daquela visão
e tende, portanto, a perder eleições majoritárias ou ser
minoritário em eleições proporcionais. No Brasil, as posições
majoritárias são diferentes daquelas posições defendidas
pelos setores mais ilustrados da população. Dois terços das
pessoas com até 4 anos de escolaridade acreditam que os bancos devem ser
controlados pelo governo, 45% defende a censura, 51% defende o "jeitinho",
85% acredita que cada um deve cuidar somente do que é seu e deixar que
o governo cuide do que é público, 31% acredita que os políticos
devem usar seus cargos em benefício próprio, "como se fosse
sua propriedade", 77% não confia nem nos amigos. Segundo a amostra
do livro, 34% da população tem até 4 anos de estudo e 57%
tem até 8 anos. Segundo o IBGE, a escolaridade média do grupo parecido
com o dos eleitores - aqueles de 15 anos de idade ou mais - é de 7 anos.
Não é por acaso, portanto, que Renan Calheiros é eleito,
faz o que faz e é absolvido por seus pares. O brasileiro médio,
e portanto o político médio, é mais parecido com Renan e
sua trupe do que gostaríamos de reconhecer.  Por
isso o esforço de editoriais de jornais, correntes de e-mail ou apelos
desesperados de sites é irrelevante ao processo decisório político.
Para começar, 74% da população brasileira, segundo dados
do INAF, não consegue ler e entender um simples texto. E, segundo, mesmo
que o lesse, provavelmente não partilharia do espanto das classes letradas.
Os políticos sabem que não perderão seus mandatos por usarem
de "jeitinhos" ou trafegarem nas zonas cinzentas da moral política.
E nós sabemos que, se perderem, serão substituídos por pessoas
muito parecidas. O corolário lógico dessa percepção
é que, se as elites intelectuais quiserem modernizar o Brasil, elas precisam
entender que, em um sistema democrático, seu trabalho passa necessariamente
pelo convencimento dos "corações e mentes" da maioria
de seus concidadãos - que não lêem jornal, não têm
acesso à internet e pensam de maneira muito diferente. O que deveria estar
ficando cada vez mais claro é que ou construímos um país
para todos e pensando em todos ou não conseguiremos fazer nada. Numa democracia,
minorias não geram mudanças. Não há um caminho
óbvio para gerar essa mudança. O fato de pessoas mais instruídas
terem uma determinada posição não significa que essa posição
tenha sido causada pela educação. Mas, dentre as alternativas possíveis,
é a mais provável: como já foi observado em todo o mundo,
o aumento de escolaridade traz uma série de conseqüências positivas
para o desenvolvimento econômico - e político. No pior dos casos,
pelo menos fará com que mais pessoas possam pelo menos ler e entender os
pensamentos de terceiros, e participar do debate sobre a construção
do Brasil que queremos. |