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E se plantássemos cérebros?
O Brasil tem uma área de 8,5 milhões
de quilômetros quadrados. Mas pouco mais de um
terço desse território é para os
brasileiros. O restante – uma área de 5,4
milhões de km2, equivalente
a quase o triplo da área de França, Espanha,
Itália, Reino Unido e Alemanha somadas - é
destinado por lei para as árvores e os animais.
Não quaisquer animais, aliás: apenas aqueles
que não geram divisas. A criação
de bois e vacas não é permitida. O número
é uma subestimação, pois inclui
apenas as florestas federais e as reservas obrigatórias
da área da Amazônia Legal e dos campos
registrados pelo IBGE do resto do país. Faltaria
ainda incluir as áreas protegidas por legislação
estadual e municipal, áreas às margens
de rios, reservas indígenas etc.
Mesmo nas áreas em que a atividade industrial
é permitida, ela não escapa do controle
– e dos custos – da polícia verde. Qualquer obra
de grande impacto ambiental no país (fábricas,
siderúrgicas etc.) deve pagar uma taxa de 0,05%
do valor da obra ao Instituto Chico Mendes, órgão
do Ministério do Meio Ambiente. Essa taxa deve
gerar uma arrecadação de R$ 400 milhões
no triênio 2008-2010.
Além disso, a empresa precisa também
obter licenças do Ibama para operar. O caso de
geração de energia é emblemático.
Há anos o Brasil flerta com a escassez de energia,
e há grande risco de o apagão voltar num
futuro próximo. Apesar disso há, segundo
o site
do Ibama, 45 projetos de usinas hidrelétricas
aguardando a expedição de licenças
ambientais para iniciar a operação. Uma
delas, Tijuco Alto, se arrastou por sete anos antes
de ter o pedido negado, e o novo pedido foi iniciado
há quatro anos. As mais importantes são
provavelmente as duas usinas do rio Madeira, obras do
PAC, responsáveis conjuntamente pela geração
de 6.450 megawatts. O processo da maior delas, a do
Jirau, foi aberto em 2005. Dois anos depois, em julho
passado, foi expedida a licença prévia
da obra – com
33 condicionantes. Cumpridas essas condicionantes,
virá a licença de instalação
e só depois a licença de operação,
sabe-se lá quando. Os danos não serão
sentidos apenas em caso de apagão – são
perceptíveis desde já. No começo
deste ano, o preço da energia elétrica
no mercado atacadista subiu
91% em apenas uma semana, chegando ao patamar
mais alto desde o racionamento de 2002. Essa alta de
um dos insumos básicos da produção
causará cancelamento de investimentos, demissões
e aumento de preços ao consumidor.
O orçamento
da União de 2008 resume bem a punição
que o Brasil se impõe: o orçamento do
Ministério do Meio Ambiente (R$ 2,9 bilhões)
é mais do que o dobro daquele destinado ao Ministério
do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior (R$ 1,3 bi). Apesar de sermos um país
jovem e pobre, investimos mais na conservação
da nossa escassez do que na geração das
riquezas futuras. Este não é um fetiche
dos nossos governantes: é algo enraizado na sociedade
brasileira. Conforme o divulgado recentemente na coluna
Radar,
somos um dos povos mais ligados às questões
ambientais: 96% dos nossos compatriotas se dizem preocupados
com o aquecimento global, contra 85% da média
internacional. Os programas jornalísticos da
TV Globo transmitiram ano passado 281 matérias
sobre questões ambientais – quase uma por dia.
É só no Brasil que a Ford produz um carro
– este monumento à poluição e ao
sedentarismo - chamado "Ecosport".
O aquecimento global é um assunto que efetivamente
merece a consternação planetária
(ainda que, já desde Malthus, uma boa dose de
ceticismo para com as previsões catastrofistas
seja sempre recomendada). Faz todo sentido que os países
desenvolvidos, que aniquilaram seu patrimônio
natural (e, em muitos casos, aquele de suas colônias)
no caminho para o seu enriquecimento, queiram agora
usar um pouco dessa riqueza acumulada para melhorar
a qualidade de vida de seus cidadãos. Faz mais
sentido ainda que queiram dividir o custo com países
pobres – não apenas para reduzir a fatia do ônus
que lhes cabe, mas também pelo bônus adicional
de impor aos países em desenvolvimento uma série
de medidas restritivas ao seu crescimento.
O que espanta, no caso brasileiro, é que esse
discurso tenha sido integralmente "comprado"
por aqueles que certamente colhem mais custos do que
benefícios com a preservação ambiental,
da maneira como vem sendo praticada. Estudo
recente do economista U. Srinivasan, da universidade
de Berkely, estima que os países ricos imporão
perdas ambientais de até US$ 7,4 trilhões
aos países de renda per capita baixa e média
(como o Brasil) por conta de suas ações
no período 1961-2000. Segundo os autores, são
estimativas conservadoras, e não levam em conta
todo o dano causado desde os primórdios da Revolução
Industrial até os anos 60. Nem, aliás,
os danos atuais – sim, porque os países ricos
propagam seus gases poluentes com voracidade maior do
que a expansão de suas idéias preservacionistas.
Segundo relatório
do IPCC de 2005, a América Latina é responsável
por 5% do volume anual de emissão global de CO2
– os EUA respondem sozinhos por 25%, e os outros
países da OCDE por outros 24%.
Aos defensores da fraternidade universal, que afirmam
sermos todos igualmente responsáveis pelo destino
do nosso planeta, pergunto: por que essa solidariedade
toda só aparece na hora de socializar as perdas,
e não os ganhos? Por que parece natural e aceitável
dizer que os brasileiros devemos preservar nossas florestas
e rios para o bem dos europeus, mas parece ficção
científica sugerir aos mesmos europeus que devolvam
as toneladas de recursos naturais brasileiros que eles
roubaram durante séculos de colonização?
Por que eles podem defender nossas árvores e
ficar com o nosso ouro?
Não estou defendendo o desmatamento da Amazônia
nem a poluição de nossos rios. A beleza
das paisagens imaculadas me maravilha tanto quanto ao
manifestante do Greenpeace. Mas há uma questão
de prioridade e de foco. Nosso foco deve ser o bem-estar
do brasileiro, antes daquele de outros países.
Enquanto uma massa de brasileiros vive em condições
sub-humanas, sinto-me moralmente impedido de defender
a preservação do mico-leão dourado.
Se os países ricos querem que preservemos nossas
florestas, que paguem por isso. Se querem evitar o desmatamento,
por que não param de subsidiar os seus agricultores
e passam a transferir renda para os nossos? Precisamos
defender os nossos interesses, e pensar na estratégia
ambiental que interessa aos brasileiros. A generosidade
é um lindo traço da espécie humana,
mas ela precisa de um substrato material. Do contrário,
passa a ser autofagia. Faz sentido, em um país
com os nossos índices de criminalidade, com os
nossos problemas de tráfico de drogas e contrabando
nas fronteiras, deslocar mil
homens da Polícia Federal para vigiar
madeireiras no Pará, como o governo acaba de
anunciar?
No início do ano, foram revelados os últimos
resultados do Indicador
de Alfabetismo Funcional. De 2001 a 2007, o
índice de pessoas plenamente alfabetizadas no
Brasil permaneceu praticamente estável, passando
de 26% a 28% da população adulta. São
dados desesperadores. A cada dia, milhões de
crianças vão para as nossas escolas e
saem delas sem conseguir ler e escrever ou dominar as
operações aritméticas básicas.
Neste tipo de preservação, somos craques:
já está garantido que os cérebros
da nossa população permanecerá
território virgem pelos próximos trinta
anos. O país vai fechando suas possibilidades
de desenvolvimento.
Fico imaginando, otimista, o que aconteceria com o
Brasil se a nossa obsessão fosse a criação
e preservação de cérebros brilhantes.
Se todo essa energia despendida na preservação
de florestas e animais selvagens fosse investida na
consecução de um único, singelo
e não tão difícil objetivo: garantir
que todas as nossas crianças aprendam a ler e
escrever na primeira série. Pra começar,
só isso bastaria. Que revolução
seria se nos preocupássemos mais com a inteligência
das nossas crianças e menos com as opiniões
da intelligentsia estrangeira.
Se a colonização intelectual nos leva
à cópia de todas as porcarias que vêm
do hemisfério norte, do fast-food ao blockbuster,
será que não podíamos também
copiar o pragmatismo e o patriotismo que ajudaram a
levar esses países a onde eles estão hoje?
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