| Os leitores e a gratuidade
do ensino universitário público Essa semana me debruço sobre as reações ao artigo
da quinzena passada, que defendia o fim da gratuidade nas universidades públicas
para alunos ricos. A primeira constatação que me ocorre é
que talvez os tempos tenham mudado, de uma maneira que nem eu e nem, tenho certeza,
a classe política brasileira imaginávamos. Há dez anos, escrevi
artigo defendendo ponto de vista semelhante na Folha de S. Paulo, e a reação
foi unânime e absolutamente visceral contra o fim da gratuidade. É
certo que os leitores de um site têm um perfil socioeconômico mais
elevado do que os leitores de jornal em geral, e deve haver um viés de
seleção nas respostas: aqueles que discordam radicalmente das idéias
de um economista da educação provavelmente não perdem seu
tempo acessando o seu site. Ambas as variáveis conspiram para que as opiniões
expressas no site não sejam representativas da média brasileira,
mas mesmo assim é notável que as opiniões tenham se dividido.
A unanimidade, certamente, acabou. O tópico deixou de ser tabu. Sinal de
que há espaço, na sociedade, para mudanças no setor em um
futuro, espero, não muito distante. Sobre os comentários dos
leitores, podemos dividir as opiniões discordantes em alguns tipos, a seguir: 1
- O que distorce o argumento
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| "O rico estuda de
graça em área que o enriquecerá ainda mais depois de formado" |
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Essas são as pessoas que discordam do fim da gratuidade
por não acharem que todos os alunos das universidades públicas são
ricos. Percebem o truque? O que o artigo original, da revista e site, dizia era
que os ricos deveriam pagar. Em nenhum momento se disse que todos os alunos, ou
a maioria, era rica e que, portanto, todos (ou a maioria) deveria pagar. É
uma tentativa de abater um argumento que me parece virtuoso - a idéia de
que todos os ricos devem pagar - tornando-o falacioso - como se todos os alunos
fossem ricos e tivessem de pagar. Espero que o silogismo tenha sido identificado
pelos mais criteriosos. Mas o argumento dá o ensejo para se falar sobre
o perfil socioeconômico do alunado das universidades públicas. Aí
reside outro empulhe. Que consiste no seguinte: divulga-se a renda média
do aluno da universidade. Mostra-se que essa renda é de alguém da
classe média. Comprova-se, então, que a universidade pública
não é mais o reduto da elite, mas sim da classe média empobrecida
do Brasil, que não teria condições de pagar mensalidade.
A falácia é visível nas sábias palavras de um professor
de estatística: "na média, o ser humano tem um testículo
e um seio". A realidade das universidades públicas não é
de um grupo homogêneo de classe média, mas sim dois grupos de características
bem diferentes: um rico, outro relativamente pobre (relativamente! Não
se vêem mendigos nas universidades). E o que é pior: os ricos normalmente
freqüentam os cursos mais concorridos. Os cursos mais concorridos são
aqueles de maior retorno no mercado de trabalho. Dessa forma, o rico estuda de
graça em área que o enriquecerá ainda mais depois de formado,
enquanto que o pobre, que freqüentou más escolas, só consegue
entrar nos cursos de baixa procura, que não pagam bem, que o deixarão
na pobreza pelo futuro previsível. Vamos aos dados. Usemos os alunos aprovados
na USP no vestibular 2007, cujos dados estão disponíveis em http://www.fuvest.br/vest2007/estat/estat.stm.
A renda familiar média dos aprovados em Direito é de R$ 7.275. Em
Medicina, R$ 6.881. Administração: R$ 6.950. Agora vejamos algumas
carreiras menos prestigiosas. Matemática: R$ 3.266; Fonoaudiologia: R$
3.900; Letras: R$ 3.669. Os alunos das carreiras presitgiosas e rentáveis
vêm de famílias com praticamente o dobro da renda dos cursos menos
desejados.
Outra variável da distorção do argumento
é a que diz: que fração da população brasileira
é rica? Muito pequena. Mínima. Por que, então, se preocupar
com o pagamento dessa porção mínima, quando há problemas
muito maiores? A distorção aqui está no denominador: afinal,
não estamos falando da porcentagem de ricos no país como um todo
- que é pequena - mas sim dos alunos da universidade pública - que
é alta e significativa. 2 - Os que
insistem na tese de que têm direito a universidade gratuita pelo fato de
a escola básica ser ruim
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| "Na verdade, o Estado
está sempre ajudando a pagar até o ensino particular" |
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É como se a injustiça na universidade (de ricos
estudarem de graça, mesmo que podendo pagar) fosse a solução
para a injustiça do ensino básico - aquela que condena os milhões
de alunos ao ensino de baixa qualidade. Na verdade, é o oposto: a injustiça
do universitário rico que não paga, ao subtrair recursos necessários
para o sistema de ensino básico, ajuda a causar a injustiça do ensino
básico. Não bastasse esse problema, há um outro: não
existe, em realidade, ensino particular no Brasil. Porque todo brasileiro pode
deduzir de seu imposto de renda os gastos com educação particular,
de forma que o Estado está sempre ajudando a pagar até o ensino
particular. Mais um benefício injustificável que deveria ser extinto,
mas isso fica pra outro artigo.
3 - O formalista
"Não
se muda as regras no meio do jogo". Se uma família poupou a vida inteira
para mandar seus filhos para boas escolas pagas para que eles pudessem entrar
nas universidades gratuitas, então não podem ser penalizados justamente
quando os filhos estão chegando nas universidades. Esse é um argumento
que já carece de sutileza. A não ser que consigamos evitar que todos
os brasileiros gerem filhos por um período de 18 anos, o jogo sempre estará
sendo jogado, e qualquer mudança sempre afetará o processo no seu
decurso. A pergunta não deve ser essa, portanto. Deve ser se as regras
estão corretas, pra começo de conversa. Creio que não estão.
Devem ser mudadas. Alguns poucos irão sofrer - pero no mucho, não
é mesmo? Se fizeram sacrifício por 18 anos pra colocar o filho na
universidade, mais 4 não deve ser assim tão difícil - para
que muitos se beneficiem. Numa democracia, essa é a regra do jogo.
4 - O que diz que se trata da solução fácil
Difícil
mesmo seria melhorar o ensino básico. Ora, em primeiro lugar, se há
uma solução fácil e uma difícil, nós devemos
optar pela difícil?! Não faz sentido. É verdade que devemos
melhorar o ensino básico para que mais pessoas cheguem às universidades.
Mas para que elas efetivamente possam entrar, é preciso haver mais vagas.
E para haver mais vagas, é preciso haver mais recursos e menor custo por
aluno - e a solução pra ambos é a cobrança de mensalidade
dos alunos ricos. Não adianta nada melhorar o ensino básico e não
ampliar a capacidade das universidades públicas de acolherem um contingente
maior de alunos. |