|
Educação é o legado
mais duradouro de Cuba
Reuters
 |
| Em Cuba, 100% dos
alunos atingem o nível básico de leitura |
Chega ao fim, melancolicamente,
o reinado de Fidel Castro sobre Cuba. É difícil
de prever o que acontecerá com a ilha no curto
prazo, enquanto Fidel e seu irmão estiverem no
poder, mas a médio e longo prazos parece inevitável
que a ilha abandone o comunismo e se integre à
economia global, provavelmente de maneira distinta das
demais ilhas caribenhas, pois Cuba tem um patrimônio
altamente estratégico: capital humano, a capacitação
de sua população.
O sistema educacional cubano será certamente
o legado mais duradouro e positivo que a passagem de
Fidel deixará sobre o país (nada que justifique
ou desculpe, é claro, a ditadura que se instalou
por lá. A liberdade é um direito inegociável.)
Cuba é a exceção
educacional da América Latina, o país
que alcançou os níveis educacionais do
Primeiro Mundo. Estudo da UNESCO
do final da década de 90 coloca o ensino cubano
com grande folga em relação aos demais
países latinos. 100% de seus alunos atingem o
nível básico de leitura e 92% dos alunos
da rede urbana alcançam também o nível
de compreensão mais avançado do estudo
da linguagem (no Brasil são 58%, na Argentina
59% e no Chile 60%). A nota média cubana na área
de linguagem foi de 342 pontos, contra 277 dos argentinos
e 269 dos brasileiros. As diferenças são
ainda mais gritantes na área de Matemática,
em que três quartos dos cubanos das regiões
urbanas chegam ao nível máximo de aproveitamento,
contra índices de 10% a 12% de países
como Chile, Argentina e Brasil.
O país matricula
praticamente 90% de sua população
entre 3 e 18 anos de idade. No nível de educação
pré-primária, essa taxa é de 100%,
índice que se mantém praticamente inalterado
no ensino primário. A taxa de conclusão
do ensino secundário bate nos 80%. A matrícula
no ensino superior está em 61%, nível
semelhante a vários países europeus.
Infelizmente, se sabe menos
do que o ideal sobre como Cuba chegou a esses níveis.
Sabe-se que o país investe muito em educação
e que treina seus professores com afinco. Descobri recentemente
que eles também utilizam um sistema surpreendentemente
meritocrático na avaliação
e remuneração dos professores.
O salário é vinculado ao resultado da
avaliação dos professores, e aqueles que
recebem a avaliação mais baixa ganham
um ano sabático em que o professor deve estudar
e se requalificar. Não obtendo êxito no
processo de requalificação, é demitido.
Até que ponto o arcabouço educacional
que norteia a educação cubana será
compatível com um sistema democrático
em que governantes têm de lidar com sindicatos
e imprensa livre, além de precisar ratear as
verbas federais para outras áreas por questões
de conveniência política é
uma questão em aberto que só poderemos
responder depois que o país migrar para a democracia.
Nesse momento, também será possível
pesquisar o sistema cubano com maior liberdade
tanto em relação ao governo local quanto
às patrulhas ideológicas que cercam a
questão cubana fora da ilha.
Oxalá essa experiência
de sucesso possa ser mantida no novo capítulo
da história daquele país que agora se
abre, e que possa servir de fonte de políticas
públicas replicáveis em outros países.
P.S.
AINDA CUBA
Em entrevista
sobre Cuba para a UOL News, em 19 de fevereiro, Frei
Betto declarou que seria ilusão pensar que a
queda de Fidel representa o fim do socialismo, bem como
afirma que não há nenhum setor significativo
dentro da sociedade cubana hoje interessado na volta
do capitalismo.
Acredito que pela primeira vez concordo integralmente
com as palavras do religioso. O fim do socialismo como
alternativa viável de sistema de economia política
ocorreu há mais de quinze anos, com o esfacelamento
do Pacto de Varsóvia. Nada a ver com Fidel, Kim
Jong Il ou o PSTU, portanto. E os setores que gostariam
do retorno do capitalismo estão mortos, presos,
em Miami ou são suficientemente prudentes para
saber que não devem abrir o bico ou correm o
risco de ir parar nas masmorras do regime castrista
endurecidas y sin ninguna ternura. Estive em
Cuba há uns quinze anos, e era visível
o pânico que até gente simples e anônima,
como taxistas e garçons, tinha de fazer qualquer
crítica ao regime. Que alguém acredite
na suposta opinião pública de um estado
ditatorial beira a má-fé.
|