|
A
neutralidade como dever
"A pesquisa CNT/Sensus
publicada nesta edição corrobora esse
quadro: só 18% dos professores da escola pública
dizem que seu discurso em sala de aula é politicamente
neutro. Setenta e quatro por cento escolhem formar
cidadãos como missão do professor
apenas 8,4% dizem que é ensinar
a matéria. Os resultados são praticamente
idênticos nas escolas particulares"
Sabendo que, em uma população
de 190 milhões de habitantes, temos mais de 50
milhões de alunos no ensino básico e aproximadamente
100 milhões de pais desses alunos e apenas 2
milhões de professores, e sabendo que vivemos
em uma democracia, a pergunta que se impõe a
todo professor, diretor, secretário municipal,
estadual ou ministro da Educação do país
de agora em diante é: como se pode justificar
que uma minoria imponha sobre a maioria a sua visão
da educação? Em uma sociedade democrática,
quem decide que tipo de educação será
oferecido no sistema público: o público
ou as corporações do setor? Como se justifica
que professores e administradores escolares ditem uma
política educacional à revelia dos desejos
expressos da sociedade brasileira? A educação
para a cidadania não pressupõe, afinal,
o respeito à vontade coletiva e a valorização
da sabedoria popular?
Quando se discutem as razões
pelas quais nosso sistema escolar não consegue
ensinar a maioria dos alunos a ler e a escrever ou a
realizar operações aritméticas
simples, muitos supostos fatores vêm à
baila: o salário dos professores, a condição
da infra-estrutura das escolas, o descaso da sociedade
etc. Essa análise parte do pressuposto de que
todos os atores do processo educacional estão
engajados no mesmo projeto, o que não é
verdade. Seguimos ignorando um problema que me parece
cada vez mais crucial: o ensino acadêmico é
percebido pelos nossos professores como uma tarefa desimportante
do processo educacional. Quando instado, em pesquisa
da Unesco, a apontar as finalidades mais importantes
da educação, o professorado brasileiro
disse o seguinte: com 72% dos votos, a campeã
foi "formar cidadãos conscientes".
A segunda mais lembrada foi "desenvolver a criatividade
e o espírito crítico" (60,5%). Lá
atrás, na rabeira, apareceram "proporcionar
conhecimentos básicos" (8,9%) e "transmitir
conhecimentos atualizados e relevantes" (17%).
No mesmo levantamento, 73% dos professores concordaram
com a afirmação que segue: "O professor
deve desenvolver a consciência social e política
das novas gerações". Cinqüenta
e cinco por cento rejeitam a idéia de que "a
atividade docente deve reger-se pelo princípio
da neutralidade política". Mais de 75% dos
professores acham que a igualdade é um valor
superior à liberdade. A pesquisa CNT/Sensus publicada
nesta edição corrobora esse quadro: só
18% dos professores da escola pública dizem que
seu discurso em sala de aula é politicamente
neutro. Setenta e quatro por cento escolhem "formar
cidadãos" como missão do professor
apenas 8,4% dizem que é "ensinar
a matéria". Os resultados são praticamente
idênticos nas escolas particulares.
É triste constatar
que o pendor atingiu o nível de formação
de políticas públicas e, como tal, virou
uma questão sistêmica. Na avaliação
que o MEC faz dos livros didáticos que serão
escolhidos para todas as escolas do país, a obra
ganha pontos se mostrar preocupação com
a questão da cidadania. Não apenas na
área de humanas, mas também em ciências
e matemática. Na avaliação de livros
didáticos de ciências do ensino fundamental,
por exemplo, há seis itens. Um deles é
"cidadania e ética". Lá está
dito que o livro deve incentivar a "valorização
do debate sobre direitos do trabalhador e do cidadão"
e que se deve atentar "à relação
entre conhecimento popular e científico, com
respeito e valorização de ambos".
Não sei muito bem o que isso quer dizer, mas
imagino que, se perguntarem a um aluno numa prova a
razão da existência das chamadas "estrelas
cadentes", ele tirará 10 se responder que
é para atender aos três desejos da vizinha.
Se complementar dizendo que os três desejos são
uma conquista da cidadania, aí então será
10 com louvor.
Acho que a formação
política de cada um é sua prerrogativa
individual, sujeita apenas à interferência
dos pais. Não é para ser condenada ou
legitimada na escola. Mesmo que os pais não pratiquem
sua prerrogativa, isso não dá ao professor
o direito de se assenhorear da tarefa. Não acredito
que a maioria dos professores brasileiros, com seu baixo
preparo intelectual, tenha condições de
oferecer ao aluno a exposição complexa
e multifacetada que as questões inerentes à
formação da cidadania exigem. Vira panfletagem.
Também não acredito no poder do discurso
dissociado da prática. Se essas razões
são válidas para qualquer tipo de escola,
creio que as regras devessem ser ainda mais rigorosas
para as escolas públicas, nas quais o aluno não
tem condições de optar por escola diferente.
Aqui o texto de referência é de Max Weber,
em "Wissenschaft als Beruf" (A Ciência
como Vocação). Falando sobre o dever de
neutralidade dos professores universitários
creio que não lhe passaria pela cabeça
que pudesse ocorrer como no Brasil de hoje a politização
de alunos de 10 anos de idade , Weber disse: "Só
se pode exigir do professor que tenha a integridade
intelectual para ver que uma coisa é declarar
fatos, determinar as relações matemáticas
ou lógicas ou a estrutura interna de valores
culturais; outra coisa é responder a questões
sobre o valor da cultura e seus componentes individuais
e como alguém deve agir na comunidade cultural
e em associações políticas. Se
ele perguntar por que não deve lidar com os dois
tipos de problema em sala de aula, a resposta é:
porque o profeta e o demagogo não pertencem ao
espaço acadêmico. (...)" Uma discussão
político-ideológica profícua pressupõe
a igualdade de poder entre os participantes. A relação
professor-aluno é totalmente assimétrica:
se o aluno questionar as convicções de
seu mestre, correrá o risco de sofrer represálias,
enquanto o oposto é impossível. Pela mesma
razão que o estado é laico, as aulas do
estado também deveriam ser politicamente neutras.
|