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Falência educacional: complô
ou lógica?
"Quem coloca seus filhos em escolas particulares
(12% do total das matrículas da educação básica) comete
um grave equívoco: acredita que essas escolas são boas
apenas porque são melhores do que as escolas públicas.
Assim, despreocupa-se da educação dos filhos e da qualidade
da escola pública"
Quando se fala em educação
no Brasil, algo não faz sentido. Todos exaltam
o benefício da educação e apontam-na
como a solução de nossos problemas. Todos
parecem engajados em sua melhoria. Apesar desse consenso
e da boa vontade, nossas escolas patinam, e sua qualidade
só tem decaído. Para explicar essa curiosa
dissonância, era comum ouvir, dez anos atrás,
a ideia de que nosso fracasso na área se devia
à falta de "vontade política"
de nossos governantes, ou ainda ao complô das
elites pela alienação do proletariado,
ou, finalmente, às imposições do
Fundo Monetário Internacional (FMI), que supostamente
exigia o corte de gastos na educação em
seus acordos com o país.
De lá para cá,
os dotados de "vontade política" chegaram
ao poder, as elites de antanho deram lugar à
república dos sindicalistas e o Brasil já
não precisa mais da tutela do FMI, ao qual não
deve nada. Mas a melhora esperada não veio. O
resultado do Sistema de Avaliação da Educação
Básica (Saeb) de 2005 é mais baixo que
o de 1995. Apesar disso, o discurso da área educacional
continua o mesmo. Será que eles estão
certos, e que há um complô tão poderoso
a favor da nossa ignorância que nem os próprios
atores da nossa tragédia percebem a sua insignificância?
Estariam as "forças ocultas" de Jânio
Quadros rondando novamente os palácios, de onde
talvez jamais tenham saído? Ou será que
nosso atraso é mais compreensível à
luz de uma análise racional dos envolvidos na
área, presumindo-se que eles agem de maneira
lógica e maldosa? Creio que a segunda hipótese
é a mais provável: nossa inércia
é compreensível se entendemos a economia
política dos grupos envolvidos.
Comecemos pelos alunos.
Eles aprendem muito pouco, e são os maiores interessados
em seu próprio sucesso acadêmico. Por que
não protestam? Há, em primeiro lugar,
a questão etária: não é
possível imaginar que crianças de 10 ou
12 anos se mobilizem em passeata pública por
um ensino de melhor qualidade. Quando os alunos se dão
conta das deficiências do seu ensino, costuma
já ser tarde demais, e a própria carência
educacional dificulta a reclamação: é
improvável que um semiletrado escreva um artigo
cativante ou uma carta pungente ao seu congressista.
Em segundo lugar, os alunos são condicionados
pelo seu sistema de ensino a acreditar que o culpado
pelo insucesso do aluno é ele mesmo. Nessa missão,
seus mestres são extremamente efetivos: em pesquisa
recente da Unesco, 82% dos alunos ouvidos dizem que,
se o aluno não passa de ano, a culpa é
sua, muito mais que da escola (mencionada por apenas
5%) ou dos professores (3,7%). Para piorar, os próprios
pais culpam o filho pelo insucesso na escola: pesquisa
publicada no livro A Escola Vista por Dentro
indica que 63% dos pais da escola municipal e 54% dos
da estadual culpam o filho por sua repetência.
Cercados por esse mar de desconfiança e assolados
pelo próprio desconhecimento, os alunos protestam
mais com os pés que com a cabeça: quando
entendem que a escola lhes consome muito tempo sem dar
muito em troca, abandonam-na.
Juca Varella/Folha
Imagem
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O FMI SE
FOI
E as elites
saíram do poder, agora ocupado por governantes
com "vontade política", mas a
esperada melhora da educação não
veio
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O próximo grupo
de interessados pela educação é
o dos pais dos alunos. Por que eles aceitam bovinamente
uma péssima educação para seus
filhos? Aqui devemos dividir esse universo em dois:
há o grupo de classe média e alta, que
coloca os filhos em escola particular, e o restante
da população, que usa a escola pública.
Quem coloca seus filhos
em escolas particulares (12% do total das matrículas
da educação básica) comete um grave
equívoco: acredita que essas escolas são
boas apenas porque são melhores que as escolas
públicas. Assim, despreocupa-se da educação
dos filhos e da qualidade da escola pública.
O problema é que a escola particular é
também muito ruim basta ver os resultados
dos alunos de alto nível socioeconômico
em testes internacionais como o Pisa, em que nossos
alunos ricos têm desempenho pior que o dos alunos
mais pobres dos países desenvolvidos. E o segundo
problema é que, como a escola pública
forma, via de regra, os professores da escola particular,
enquanto não melhorarmos todo o sistema, não
teremos educação de qualidade para ninguém.
Mas os pais das escolas particulares não entendem
isso; afastam-se da questão educacional por acreditar
que essa problemática não os afeta.
Esperar-se-ia, porém,
que os pais de alunos da escola pública (os outros
88% das matrículas) estivessem profundamente
descontentes com a educação dos filhos
e bradando por sua melhoria. Mas não estão:
as pesquisas apontam que, pelo contrário, estão
satisfeitos com a escola das crianças. Essa visão
não é causada por preguiça ou desinteresse,
mas por despreparo. Pesquisa do Inep mostrou que quase
60% dos pais do ensino público não completaram
nem o ensino fundamental, 73% têm renda inferior
a três salários mínimos, três
quartos nunca ou raramente leem jornal. Pesquisas qualitativas
mostram que esse pai compara a escola da sua época
em que faltava vaga, não havia merenda
nem transporte com a escola do filho. Vendo todas
as benesses materiais que o filho recebe, associa-as
a uma educação de boa qualidade. Reclama
quando o professor falta à aula, mas é
só. Se o pai acha a escola boa e o filho vai
mal, então é natural que o pai culpe o
filho e exima a escola, perpetuando o sistema roto.
Depois dos pais, temos
os diretores escolares. Destes, segundo o MEC, 60% são
indicados pelo Poder Executivo de sua cidade ou estado.
Menos de 10% são concursados, outros 19,5% são
eleitos. É provável que a maioria, indicada
por políticos, não esteja disposta a bancar
grandes revoluções em suas escolas, que
poderiam levar à sua destituição
especialmente se prescrevessem aos seus professores
as medidas impopulares que estão associadas ao
melhor desempenho acadêmico, como uso constante
de dever de casa, avaliação de alunos,
redução do absenteísmo docente,
uso intensivo de material didático e utilização
do tempo de aula para tarefas expositivas, e não
cópia do quadro-negro ou realização
de exercícios. A maioria dos diretores é
composta de ex-professores, o que reforça o corporativismo,
e não há no Brasil instituições
de ensino que preparem uma pessoa para o ofício
de diretor escolar, de forma que mesmo os diretores
bem-intencionados são frequentemente despreparados.
Vejamos o professor. Por
que ele não produz uma educação
de melhor qualidade? Em primeiro lugar, porque não
consegue. O professor brasileiro tem uma péssima
formação e não é preparado
para encarar uma sala de aula do Brasil real, especialmente
em áreas de vulnerabilidade social. Em segundo
lugar, porque é tomado por um viés ideológico
que torna o sucesso acadêmico insignificante.
Em pesquisa da Unesco, só 8,9% dos professores
indicaram "proporcionar conhecimentos básicos"
como uma das finalidades importantes da educação.
"Formar cidadãos conscientes" ficou
com 72,2% das preferências. Confrontados com o
seu fracasso, então, nossos professores têm
duas respostas-padrão: ou culpam o aluno e seus
pais, ou culpam a visão neoliberal e reducionista
de quem reclama da escola que forma analfabetos, porque
a educação "é muito mais do
que isso".
Finalmente, chegamos à
última peça dessa engrenagem, aquela que
é paga e eleita para administrar o sistema e
zelar pelo bem comum: os políticos. Se o político
for desonesto, a educação será
um ótimo lugar para tirar dinheiro: não
só concentra uma parte grande do orçamento
(no mínimo 25%) como ainda é cheia de
transferências do governo federal. Tem uma grande
vantagem: se o sujeito rouba da saúde e faltam
remédios ou médicos, a população
chia; se rouba dos transportes e faltam ônibus,
os eleitores reclamam; se rouba da educação
e os alunos não aprendem, ninguém se importa.
Mas, mesmo que o político seja honesto e comprometido
com o progresso da sua região, é confrontado
com uma decisão indigesta: se ele quiser mesmo
reformar seu sistema educacional, terá de parar
de investir em merenda ou em prédios e investir
na formação de diretores e professores,
terá de cobrar o seu desempenho, terá
de mobilizar pais e alunos, terá de remanejar
professores e funcionários incompetentes. Tudo
isso causa des-conforto. Se a experiência de estados
reformistas na área, como São Paulo, Rio
Grande do Sul, Minas Gerais ou Sergipe, servir de exemplo,
o descontentamento descambará em greve. Os professores
são uma das categorias profissionais mais numerosas
e vocais em suas reclamações. Os beneficiários
dessas reformas mal sabem que têm um problema
e, portanto, não reconhecerão a melhoria.
Se tiverem de deixar de trabalhar para cuidar dos filhos
sem aula por causa da greve, perigam ser contrários
às reformas. O lógico, nesse caso, para
os políticos, é fazer o quê? Exatamente:
nada. Assim vamos ficando, ano a ano, mais ignorantes
e despreparados.
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