| Pelo direito à ruindade AFP
 | | Estudantes
da Coréia fazem exame de admissão para a universidade: entre 1980
e 1997, a taxa de matrícula universitária naquele país aumentou
353%. No Brasil, apenas 36% |
Já virou clichê afirmar
que a educação é uma das ferramentas estratégicas
mais importantes provavelmente a mais importante para um povo que
queira se desenvolver nos dias que correm. Algumas pesquisas
da década de 90, olhando para o crescimento econômico dos trinta
anos anteriores, apontavam que a educação secundária era
significativa para o crescimento, mas não a primária. É muito
provável que os pesquisadores de 2040 identifiquem o ensino superior, e
não mais o secundário, como a variável relevante para explicar
o desenvolvimento dos países no começo deste milênio. Nos
países mais avançados, a educação secundária
já foi massificada há tempo, e vários desses países
caminham rapidamente para 100% de matrícula no ensino universitário.
Segundo os últimos dados da Unesco,
a Coréia e a Finlândia já passaram dos 90%; a Suécia,
a Dinamarca, os Estados Unidos e a Nova Zelândia já superaram os
80%. A média dos países da América do Norte e da Europa está
em 70%. É no nível de ensino superior, portanto, que os países
cada vez mais se diferenciarão.
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| "Se o aluno não
está em universidade melhor, é sinal de que não tem condições intelectuais ou
financeiras de chegar lá. A pergunta que faz sentido não é se seria melhor para
esse aluno e para o país que ele cursasse a USP ou a faculdade da esquina. A pergunta
certa: é melhor que ele curse a faculdade da esquina ou faculdade nenhuma?" |
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Esse é um fenômeno recente, ocorrido nos últimos
25 anos. Os países que buscavam o desenvolvimento rápido entenderam
que a qualificação de suas populações era um caminho
obrigatório e trataram de criar mecanismos que permitissem a massificação
do conhecimento em seu nível mais alto. Entre
1980 e 1997, por exemplo, a Coréia aumentou sua taxa
de matrícula universitária em 353%, a Turquia em 320%, Portugal
em 255%, e assim por diante. O resultado é que vários países,
inclusive aqueles que partiram de um patamar muito baixo, chegaram aos dias de
hoje em condições de sonhar. O Chile, por exemplo, tem atualmente
48% dos seus alunos em idade universitária no ensino superior. O Líbano
tem 46%. O Panamá tem 44%, o Uruguai tem 42%, a Venezuela tem 41%. A China
vem assombrando o mundo com a rapidez da sua ascensão: de 6% de matriculados
em 1999, passou para 22% em 2006. O Brasil foi mais uma vez a exceção
negativa. Apesar de termos universidades tradicionais, no período 1980-1997
aumentamos nossa matrícula em apenas 36%, e mesmo o crescimento acelerado
nos últimos dez anos ainda nos deixa com apenas 24% de matrícula
no ensino superior. Praticamente um terço dos países desenvolvidos
e metade de vários dos nossos vizinhos continentais, portanto. Estagnamos
por três razões. A primeira é a péssima qualidade da
educação básica, que gera um número pequeno de concluintes
aptos a entrar no ensino superior. A segunda é o estrangulamento do modelo
financeiro: as universidades públicas brasileiras estão entre as
mais caras do mundo e sua replicação em escala é inviável,
e falta renda na população para custear mais ensino privado. Finalmente,
faltavam até há pouco opções de cursos superiores
mais adaptadas às demandas desse novo contingente de estudantes, que querem
programas mais curtos e mais direcionados às necessidades do mercado de
trabalho, sem ter interesse em uma formação acadêmica, humanista.
Nos países desenvolvidos, entre 15% e 30% da matrícula costuma ser
nesses cursos mais curtos e profissionalizantes, contra 4% no Brasil. Em
um cenário como esse, de tremenda defasagem do Brasil em relação
ao resto do mundo, deveríamos estar correndo a todo o vapor para recuperar
o tempo perdido, focando na melhoria do ensino básico, na expansão
das vagas em universidades públicas, na criação de mecanismos
de financiamento das universidades privadas e em campanhas antievasão dos
alunos já matriculados.
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| "Quem reclama dos
bacharéis que viram donos de armazém comete erro duplo: primeiro, ao retratar
a exceção como se fosse regra; segundo, por não entender que é preferível para
o país ter um balconista com diploma superior a outro analfabeto" |
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Causa estranheza e certo desalento, portanto, que nesse cenário
o Ministério da Educação tenha iniciado uma campanha para
monitorar e eventualmente fechar os cursos de baixa avaliação institucional,
primeiro na área de direito,
agora na área de pedagogia.
A ação parte do pressuposto de que esses maus cursos são
uma arapuca, que enganam seus alunos oferecendo um ensino que não os prepara
para nada. Seriam meras fábricas de diploma, prejudicando seus alunos e
pondo em risco a sociedade atendida por seus formandos. É mais um caso
do viés ideológico antiliberal contaminando uma área estratégica
para o país. A idéia de que os alunos são enganados
não se sustenta. Quem está em idade universitária e já
passou por todo o sistema de ensino, e trabalha para poder pagar suas mensalidades
(dos sessenta
cursos de pedagogia, 57 são privados; todos os oitenta de
direito
também), não é exatamente um ingênuo, uma criança
perdida. Todas as instituições brasileiras passam por um amplo processo
de avaliação, tanto externa como por meio de exames feitos pelos
próprios alunos, e seus resultados estão disponíveis na internet.
Quando um aluno se matricula em um curso barato de uma instituição
de pouco prestígio, ele não está atrás de uma posição
de presidente de empresa ou de eminência intelectual: ele quer subir um
pouco na vida, ganhar um pouco mais. Como em qualquer área, há serviços
melhores e piores, com preços correspondentes. Se o aluno não está
em universidade melhor, é sinal de que não tem condições
intelectuais ou financeiras de chegar lá. Sem a universidade ruim, esse
aluno não cursará faculdade alguma. A pergunta que faz sentido não
é se seria melhor para esse aluno e para o país que ele cursasse
a USP ou a faculdade da esquina. A pergunta certa: é melhor que ele curse
a faculdade da esquina ou faculdade nenhuma? A resposta a essa pergunta
é dada de forma categórica pelo mercado de trabalho. Uma pessoa
com ensino superior concluído ganha cerca de três
vezes mais do que outra que tenha cursado apenas alguns anos do
ensino superior, e quase cinco vezes mais do que aquela que cursou somente o ensino
secundário. Estudo
recente aponta que a taxa de retorno a um diplomado de ensino
superior isto é, o aumento salarial decorrente desse nível
de estudo, descontado o seu custo é de incríveis 19% a 20%
ao ano. Educação superior, no Brasil, é melhor do que qualquer
investimento e não precisa ser economista para ter esse conhecimento
intuitivo. A idéia de que universidades, ou o sistema escolar como
um todo, possam ser meras fábricas de diplomas é antiga. Sua formulação
acadêmica já surgia na década de 70. Faz
sentido imaginar que um empregador busque, no meio da incerteza do mercado de
trabalho, um indicador para garantir a competência e a confiabilidade do
futuro empregado. Um diploma seria esse indicador. A escola não agregaria
muito em termos de conteúdo, mas seria mera ferramenta de sinalização,
como que dizendo: "pode me contratar. Eu passei dez anos sem bater nas minhas
professoras quando tirava nota baixa nem ficar pelado cada vez que me sentia atraído
por uma coleguinha. Não vou espancá-lo se não me der um aumento,
nem lhe causar processos de assédio sexual". Se essa hipótese
fosse correta, os salários das pessoas com diploma e sem
tenderiam a seguir um padrão aleatório ao longo do tempo, à
medida que a produtividade de cada uma determinasse seus ganhos. Em realidade,
acontece exatamente o oposto: não só as pessoas com maior instrução
recebem maiores salários ao longo de toda a vida como a diferença
entre os com e os sem-instrução aumenta com o passar dos anos. O
mercado de trabalho não paga maiores salários aos mais instruídos
pela beleza do seu diploma: paga mais porque essas pessoas vêm mais preparadas
e aprendem mais com a sua experiência profissional. As reportagens e editoriais
que reclamam dos bacharéis que viram donos de armazém cometem erro
duplo: primeiro, ao retratarem a exceção como se fosse regra; segundo,
por não entenderem que é preferível para o país ter
um balconista com diploma superior a outro analfabeto. Os alunos que cursam
faculdades ruins não estão sendo enganados nem vitimados. Estão
dando duro para galgar o seu degrau na escada social, com poucos recursos e tendo
como ponto de partida uma péssima educação de base. O
estado não precisa proteger o cidadão de si mesmo. Melhor seria
se o protegesse da inépcia do próprio governo. Teríamos um
país muito melhor se nossos líderes voltassem sua atenção
para melhorar a área que lhes compete a educação básica
e as universidades públicas em vez de se preocuparem em limitar
a oferta de um serviço já fiscalizado pelo MEC e controlado pelo
mercado. |