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De pais e professores
"Não
é preciso ser psicólogo para imaginar
a profunda frustração e humilhação
sentidas por uma mãe que, por causa de suas próprias
carências, não consegue ajudar o filho
a fazer o dever de casa. Tampouco são necessários
poderes mediúnicos para imaginar que quem passa
por esse tipo de constrangimento relutará em
repeti-lo"
Moacyr Lopes/Folha
Imagem
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| Sala de aula: no Brasil,
é esse, basicamente, o cenário da luta pela educação |
Há uma relação
bastante estranha na educação brasileira:
aquela entre os professores de nossas escolas e os pais
de seus alunos, especialmente os das escolas públicas.
Se não, vejamos: nossas escolas são um
fracasso retumbante. Segundo o último Inaf,
72% de nossa população não é
plenamente alfabetizada. O Saeb revela que a qualidade
do ensino vem caindo desde
a primeira edição do exame, em
1995. Constatamos, por meio do Saeb, que apenas em torno
de 25%
dos alunos de 8ª série sabem que "3/4"
é igual a 0,75, e não 3,4. Oitava
série! O Pisa
mostra que, entre 57 países testados, o Brasil
fica em 53º lugar
em matemática e 52º em ciências. Segundo
a Unesco,
24% de nossos alunos repetem a 1ª série,
contra 2,5% no Chile e 4% na Índia. Diante desse
quadro, seria de esperar que a sociedade que gasta em
torno de 4% do seu PIB com educação pública
estivesse clamando por melhorias urgentes e se mostrasse
profundamente insatisfeita com o desempenho da escola
e de seus funcionários. Estes, por sua vez, deveriam
estar temerosos da desaprovação dos pais
e preocupados em melhorar seu desempenho. Pode-se dizer
que, no Brasil, ocorre praticamente o oposto.
Em ampla pesquisa com professores,
que resultou no livro O
Perfil dos Professores Brasileiros, a Unesco
pediu aos docentes que identificassem, em uma lista
com várias opções, quais os fatores
que mais influenciam o aprendizado de seus alunos. O
vencedor, disparado, foi "acompanhamento e apoio
familiar", com 78% dos votos. "Competência
do professor" ficou com apenas 32%. Em outra grande
pesquisa qualitativa, organizada pela Unesco e pelo
Inep (publicada no livro Repensando
a Escola: um Estudo sobre os Desafios de Aprender, Ler
e Escrever), os autores declararam o seguinte:
"Chama atenção a freqüência
com que professores e diretores se referem à
questão da família dos alunos: muito do
que acontece de bom e de ruim na escola é explicado
pela origem familiar". "Uma pergunta [aos
professores] do tipo como você avalia o
nível de leitura dos alunos da 4ª série?
é respondida da seguinte maneira: Eles
são fracos, não sabem ler muito bem, não
gostam de ler, porque em casa ninguém incentiva.
Raramente é colocada a função primordial
da escola na tarefa de ensinar a ler qualquer aluno,
de qualquer origem familiar ou social." Em vários
dos seminários com professores de que participo,
uma das primeiras perguntas da platéia depois
da exposição costuma ser a respeito da
família do aluno: como seria possível
ensinar com uma família que "não
apóia"?
Seria de esperar que a
família brasileira estivesse enfurecida com uma
escola que, além de não cumprir o seu
papel no ensino de seus filhos, ainda decide transferir
a responsabilidade para o próprio aluno e sua
família. Negativo. Os pais brasileiros estão
contentes com a escola do filho. Em pesquisa
do Inep
com 10.000 pais do país,
a nota que eles deram às instalações
da escola do filho foi 8,1. Oitenta e um por cento têm
uma percepção positiva dos diretores da
escola, dizendo que eles "resolvem os problemas".
Oitenta e três por cento acham que os professores
estão preocupados em ensinar e dar boas aulas.
A nota dada à qualidade do ensino é 8,6
(!).
Para entender como os pais
podem considerar tão boa uma escola de resultados
tão ruins, e por que os professores os percebem
como desinteressados, falta a variável fundamental
da equação: entender quem são esses
pais.
O dado mais importante
a notar é que 58% têm o ensino fundamental
incompleto. Só 3% têm diploma universitário.
Três quartos lêem jornais e livros nunca
ou raramente. Apenas 7% acessam a internet. São
pessoas de baixíssima formação
acadêmica e pouco grau de informação.
Como lhes é difícil julgar a qualidade
do ensino, uma variável intangível, eles
costumam usar como indicador aquilo que é visível.
Comparam a escola que cursaram com aquela de seu filho
e percebem: os prédios são mais limpos
e bonitos, há merenda de boa qualidade, há
transporte escolar, o filho recebe uniforme e livros
didáticos e, fundamentalmente, há matrícula
garantida. Cinqüenta e sete por cento dos pais
dizem que a escola do filho é melhor que aquela
que o pai cursou. O pai fica contente pelo fato de o
filho ter as oportunidades escolares que ele não
teve. Não possui conhecimento suficiente do processo
escolar, nem acesso a fontes de informação
mais aprofundadas, que lhe permitam entender que a qualidade
do ensino do filho é fraca.
Da mesma maneira, o seu
pouco envolvimento na vida estudantil do filho não
é fruto de desinteresse ou desamor. Ele é
facilmente compreensível quando entendemos que
uma pessoa com ensino fundamental incompleto é
minimamente alfabetizada. Uma mãe, ouvida em
um grupo focal no estudo da Unesco, descreveu da seguinte
forma a tentativa de ajudar o filho no dever de casa:
"A professora mandou uma lição para
o meu filho. Tinha a zebra, o desenhozinho da zebra
na palavra. Daí era pra ele achar cinco palavras
com as duas primeiras letras de zebra e cinco com as
duas últimas. Eu olhei revista, jornal e não
consegui achar as cinco palavras com Z nem as cinco
com B. Achei duas de cada! Começa a embaralhar,
sabe? Não consigo". Note que a dificuldade
da mãe com a escrita é tão grande
que, além de não conseguir identificar
a letra que procura, ela procura a letra errada: "B"
não faz parte das duas primeiras ou das duas
últimas letras de "zebra". Não
é preciso ser psicólogo para imaginar
a profunda frustração e humilhação
sentidas por uma mãe que, por causa de suas próprias
carências, não consegue ajudar o filho
a fazer o dever de casa. Tampouco são necessários
poderes mediúnicos para imaginar que quem passa
por esse tipo de constrangimento relutará em
repeti-lo. É terrível sentir-se incapaz
de ajudar um filho a completar uma tarefa banal.
Nossos professores precisam
se resignar ao fato de que os pais de seus alunos podem
dar uma contribuição limitada ao ensino
dos filhos. Devem entender que a incapacidade de ajudar
os filhos com os deveres de casa ou a estudar não
é fruto de menosprezo pela sua educação,
mas sim de despreparo. Nossa escola precisa se preparar
para educar as crianças brasileiras, filhas de
pais e mães brasileiros, inseridos na realidade
brasileira. Sem dúvida, seria tudo mais fácil
se os pais de seus alunos fossem finlandeses ou coreanos:
a família é, sim, um elemento importante
no aprendizado dos filhos. Mas o fato é que a
realidade brasileira é essa. Por mais que um
professor se lamente e condene os pais de seus alunos,
ele não fará com que aquele pai se torne
um companheiro de estudos do filho. A família
brasileira está dada, não será
mudada através da atuação do professor
em sala de aula. Em uma situação como
essa, a atuação de cada professor é
ainda mais importante: a escola é a porta de
saída que o aluno tem de um ciclo intergeracional
de ignorância e miséria. Longe de poderem
lavar as mãos e culpar os outros, é nessa
situação de dificuldade geral que os funcionários
de uma escola devem se preocupar em dar sempre mais
de si.
Essa mudança de
comportamento dentro da escola se dará quando
houver pressão nesse sentido, vinda de fora de
seus muros. A grande dificuldade é chegar aos
pais dos alunos, informar-lhes que a escola de seu filho
é fraca, que aquilo que eles acham bom é,
na verdade, muito ruim e que a cobrança que hoje
vem do professor para os pais deve ter sentido inverso.
Essa é uma missão ingrata. Primeiro, porque
se trata de dar más notícias a quem acredita
que tudo vai bem. Segundo, por ter de inverter a percepção
filosófica de grande parte da nossa população
a respeito do estado brasileiro, que deve parar de ser
visto como o provedor generoso que concede benefícios
e passar a ser encarado como o prestador de serviços
que está aí para atender à vontade
do cidadão, financiado pelo imposto que nós
pagamos.
Como se isso não
bastasse, ainda temos de penetrar a redoma da incomunicabilidade
dos semiletrados, que não lerão este artigo,
nem as notícias dos jornais sobre educação,
nem livro algum sobre o assunto. Precisamos de um pouco
de civismo. Precisamos que os bacharéis que colocam
os filhos em escolas particulares ajudem seus concidadãos
menos afortunados a clamar por uma escola pública
melhor. A opção por ignorar o que se passa
à nossa volta só continuará nos
levando à barafunda do desconhecimento e do atraso.
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