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| Segunda-feira, 8 de setembro de 2008 |
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Dever do próximo presidente:
vetar a expansão curricular
Abriu-se a Caixa de Pandora. Depois da inclusão
de filosofia, sociologia e música como disciplinas
obrigatórias no currículo do Ensino Básico,
já há 50 (!) projetos de lei no Congresso
prevendo a inclusão de mais matérias ao
currículo, do Direito à educação
ambiental. Se aprovados, os projetos fariam com que
o aluno permanecesse 16 horas/dia em aula. Depois da
inclusão das matérias citadas acima, será
difícil conter a expansão continuada do
currículo. Afinal, se a música é
indispensável, o que dizer do Direito?
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"Não
é possível ensinar filosofia, sociologia, Direito,
História ou Geografia a jovens semiletrados."
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E justo agora, no momento em que o país começava a fazer
a migração mental para entender que não precisamos de
mais educação, mas de educação melhor; em que o ciclo
do aumento da quantidade dá lugar à melhora da qualidade,
voltamos ao período expansionista. Já debelamos a inflação
na economia, mas na educação ela continua grassando.
No currículo do ensino médio, incluímos matérias, e
nas prefeituras só se fala na universalização da pré-escola
como solução para os problemas de qualidade do ensino
fundamental. É uma lástima. O Brasil - tanto a sociedade
quanto seus governantes - continua incapaz de tomar
as escolhas difíceis, de estabelecer prioridades, de
deixar setores descontentes. Nossa prioridade primeira
deveria ser fazer com que as crianças de primeira série
aprendessem a ler e escrever. Enquanto isso não for
estabelecido, todo o resto será mudança cosmética. Não
é possível ensinar filosofia, sociologia, Direito, História
ou Geografia a jovens semiletrados.
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"Não
coloquemos mais responsabilidades sobre a maioria
das escolas brasileiras, que ainda não conseguem
fazer o feijão com arroz."
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Vários leitores me escrevem defendendo a inclusão da
música no currículo dizendo que ela é beneficial ao
aprendizado de outras matérias, ajuda a desenvolver
o raciocínio matemático etc. É claro. Todas as áreas
do conhecimento humano auxiliam, de alguma forma, o
desenvolvimento da nossa intelectualidade. Não sou jurista,
mas tive uma cadeira de Direito na faculdade e fiquei
fascinado. É uma disciplina fulgurante, como também
o é a música. Mas daí a ser incluída no currículo obrigatório
de todo o país vai uma longa caminhada. Enquanto nossas
crianças estão saindo das primeiras séries semiletradas,
não acredito que possamos nos dar ao luxo de colocar
mais responsabilidades sobre os ombros de gestores escolares
que já não estão dando conta do recado básico. Aquelas
escolas que já atingiram um padrão de qualidade suficiente
e que são organizadas que chega para adicionar matérias
ao seu currículo, que o façam. Mas não coloquemos mais
responsabilidades sobre a maioria das escolas brasileiras,
que ainda não conseguem fazer o feijão com arroz. O
único ponto positivo dessas alterações curriculares
previstas é que elas têm alguns anos para entrar em
efeito. Espero que o próximo presidente, junto com o
próximo congresso, abdique do populismo em favor do
pragmatismo e as vetem.
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| Sexta-feira, 29 de agosto de 2008 |
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Preparados para perder
"No mês de julho, foram
disputados outros Jogos Olímpicos: os escolares. Tivemos
as Olimpíadas de Química, Física, Matemática e Biologia.
Das 142 medalhas de ouro distribuídas nessas competições,
o Brasil ganhou... zero."
O Brasil foi excepcionalmente
bem nos últimos Jogos Olímpicos. Com catorze
medalhas de ouro, ficamos em 14º lugar destaque
para o nadador Clodoaldo Silva, seis ouros. Infelizmente
falamos da Paraolimpíada
de Atenas, já que na última Olimpíada
convencional o Brasil teve desempenho pífio:
três ouros, 23ª
posição, atrás de países
como Jamaica, Quênia e Etiópia. Creio que
essa diferença de performance entre os dois tipos
de competição não seja totalmente
acidental.
As razões costumeiras
não parecem explicar bem os motivos do nosso
fracasso. O primeiro vilão apontado é
a nossa pobreza. Mas o Brasil é hoje a décima
economia do mundo, não a 23ª.
A segunda razão
comumente apontada é o pouco investimento em
esporte no país. Em 2008, não foi o caso.
Segundo a Folha
de S.Paulo, apenas o governo federal investiu
1,2 bilhão de reais em esportes olímpicos
desde Atenas. Sem incluir o orçamento de fontes
próprias do COB, esse valor significaria um custo
de 400 milhões de reais por ouro. O custo do
Comitê
Olímpico americano financiado
basicamente sem dinheiro público foi de
32 milhões de reais por ouro.
A impressão que
ficou de nossos atletas é que seus fracassos
se deveram mais a questões psicológicas
do que financeiras ou estruturais. E isso importa não
por causa da Olimpíada, que tem valor apenas
simbólico, mas porque essa mentalidade se reproduz
em toda a vida nacional, com conseqüências
reais.
No mês de julho,
foram disputados os Jogos Olímpicos escolares:
Química,
Física,
Matemática
e Biologia.
Das 142 medalhas de ouro distribuídas nessas
competições, o Brasil ganhou... zero.
Não temos apenas
carências materiais a nos complicar a vida: temos
uma cultura que abomina a competitividade, desconfia
dos vitoriosos e simpatiza com os fracassados. Quando
o nadador César Cielo, não por acaso treinado
nos EUA, declarou que iria em busca do ouro, o desconforto
dos comentaristas televisivos foi audível: muita
saliva gasta para deixar bem claro que se tratava de
"autoconfiança" e não "arrogância".
Porque melhor um bronze humilde do que um ouro arrogante!
Se Michael Phelps tivesse nascido no Brasil, seria provavelmente
exilado ao declarar a intenção de bater
o recorde de medalhas em uma Olimpíada. Só
num país de perdedores uma classificação
para final olímpica é vista como "garantia
de prata", e não uma chance de 50% de ouro.
Só no Brasil se ouvem atletas dizendo que o bronze
valeu ouro, só aqui se vê um chororô
constante e público de favoritos que foram vencidos
por seus nervos. Só aqui um atleta como Diego
Hypólito, depois de cair sentado em sua competição
e ainda ter a pachorra de culpar os céus ("Deus
não quis. Deus decidiu isso."), é
recebido com festa
e escola de samba. Nós nos preocupamos mais em
ser campeões morais do que campeões de
fato. Valorizamos o esforço mais do que o resultado.
Acreditamos que o sofrimento do percurso redime o fracasso
da chegada, ao contrário dos países que
dão certo, em que o sucesso do resultado é
que redime o sofrimento do percurso.
As desigualdades que se
acentuaram ao longo de governos autoritários
parecem ter originado a idéia estapafúrdia
de que, em uma democracia, os cidadãos devem
ser iguais. Não tratados da mesma maneira: pelo
contrário, tratados de maneira desigual, para
que no resultado final se estabeleça a igualdade.
Como é impossível elevar todos aos píncaros
da glória, já que as aptidões individuais
são diferentes, o objetivo passa a ser a mediocrização
total. Por isso a palavra-chave dos tempos que correm
é a "inclusão", e não
o "mérito": para trazer todos à
média, é preciso focar a atenção
nos deficientes e ignorar quando não reprimir
os talentosos.
Esse é sem dúvida
um traço cultural, difuso, do brasileiro. Mas
não há dúvida quanto ao locus no
qual essa mentalidade é mais amplamente difundida
e inculcada: a nossa escola. Há leis sobre o
acolhimento de crianças com deficiências
físicas e mentais na sala de aula; há
preocupação com a questão dos excluídos
no programa de livros didáticos do MEC, até
da área de ciências. Mas não existe
nenhuma preocupação oficial com a identificação
e o desenvolvimento daquilo que o país tem de
mais precioso: grandes mentes. Pelo contrário:
quando esses esforços existem, normalmente vindos
da iniciativa privada, são rechaçados
pelos políticos dos mais diversos matizes. Quando
uma ONG chamada Ismart, capitaneada por Marcel Telles,
quis institucionalizar seu programa de bolsas a jovens
talentos pobres de São Paulo, ouviu do então
secretário estadual, Gabriel Chalita, que o instituto
estava proibido de aplicar suas provas na rede estadual
para descobrir os talentos e também de divulgar
a iniciativa. Caberia à secretaria, com seus
métodos e em privado, identificar os candidatos.
Na secretaria municipal da gestão Marta Suplicy
a recomendação foi mais direta: se havia
uma preocupação com os alunos fora de
série, por que não focar naqueles com
síndrome de Down? Não é por acaso
que o nosso censo escolar identifica míseros
2 553 alunos superdotados
em um universo de 56 milhões de estudantes da
educação básica: é preciso
uma cegueira proposital para ver tão pouco.
A ojeriza à meritocracia
em nossas escolas vem sob a desculpa de que a competitividade
pode causar profundos danos à psique das crianças.
Um sistema educacional como o chinês, em que os
melhores alunos de cada sala são identificados
publicamente em algumas escolas, através
do uso de lenços coloridos e posteriormente
transferidos às melhores escolas, desperta em
nossos professores os seus instintos mais primitivos.
Freqüentemente ouve-se que sistemas assim levam
as crianças ao suicídio, depressão
etc. É a senha para que criemos uma escola inclusiva,
afetiva, que cria seres felizes e éticos. É
uma empulhação sem tamanho. A literatura
empírica educacional aponta o benefício
de o aluno fazer dever de casa e ser avaliado constantemente,
por exemplo. Práticas malvistas por nossos professores,
porque supostamente significariam acabar com o componente
lúdico da infância e, com certeza, roubariam
o tempo lúdico do professor. Pior ainda: a suposta
escola do afeto e da felicidade produz muito mais miséria,
e por período bem mais longo de tempo, do que
as agruras de um sistema meritocrático que premia
o trabalho. O que é melhor: "sofrer"
por algumas horas por dia na infância estudando
com afinco e ter uma vida próspera e digna ou
passar a juventude em brincadeiras e amargurar toda
uma vida na humilhação do analfabetismo,
do subemprego e da pobreza? Qual a sociedade que produz
menos violência e infelicidade: aquelas em que
os alunos brincam ou aquelas em que estudam?
Enquanto prepararmos a
futura geração para que escolha entre
o sucesso e a felicidade, o Brasil permanecerá
sem os dois.
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| Quarta-feira, 27 de agosto de 2008 |
| | Cegueira
e Comunismo
Divulgação  |
Assisti
à pré-estréia do filme Ensaio Sobre a Cegueira, de
Fernando Meirelles. Não conseguiria fazer uma crítica do filme.
Primeiro porque não tenho conhecimento pra tanto – deixo a tarefa pra sabida
colega Isabela Boscov. E segundo porque o filme é tão forte, tão
pesado, tão difícil, que sinceramente não consegui prestar
atenção em nenhum aspecto cinematográfico da obra.
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| "O caminho 'natural',
inercial, de uma comunidade humana é sucumbir ou à barbárie ou à ditadura, mas
obviamente esse não é o cenário por mim desejado" |
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O filme, baseado em livro homônimo de José Saramago
– que eu não li – narra a história de uma cidade repentinamente
acometida por uma epidemia de cegueira, da qual só se salva uma mulher,
interpretada por Julianne Moore, casada com um médico oftalmologista que
é um dos primeiros a cair com a doença. O que se passa a partir
daí é uma fábula política: como a civilização
se desfaz, e como a barbárie substitui toda a modernidade de uma grande
metrópole ocidental (no caso, primariamente São Paulo) simplesmente
com o detalhe do desaparecimento de um dos sentidos. O cenário da barbárie
primordial é uma questão trabalhada há séculos pelos
grandes pensadores da filosofia política. Há duas visões
basicamente antagônicas desse "estado natural": a de Hobbes e
a de Locke. Na primeira, o estado natural é palco da famosa guerra de todos
contra todos, em que a vida é nasty, bruttish and short. O caos
primordial sugere a necessidade de um ditador, para controlar à força
os impulsos dos homens. O estado natural de Locke é bem diferente, quase
idílico, de uma comunidade que funciona, ainda que com percalços.
Nesse cenário, o estado surge com funções mínimas,
primordialmente um garantidor do direito de propriedade, que não interfere
na busca da felicidade de cada indivíduo. Essas idéias têm
peso real: Locke é o pai-inspirador da independência americana e
o estado liberal que dela surgiu. Hobbes é a fonte conceitual das ditaduras.
Pessoalmente, me parece que a percepção de Hobbes é mais
correta no que tange à descrição do estado natural, e acredito
que a biologia moderna e a psicologia evolucionista vêm dando cada vez mais
suporte empírico a essa proposição. Entendo, portanto, que
o caminho "natural", inercial, de uma comunidade humana é sucumbir
ou à barbárie ou à ditadura, mas obviamente esse não
é o cenário por mim desejado, e os países de inspiração
lockeana são testemunho da capacidade humana de superar algumas de nossas
tendências naturais, instintivas, pelo poder da nossa racionalidade. A
visão de Saramago, transposta por Meirelles, é francamente hobbesiana.
E o filme retrata esse universo de maneira bastante gráfica, dolorosa de
se ver. Até aí, tudo bem. A coisa começa a desandar, caindo
para o terreno do wishful thinking, quando a protagonista decide o que
fazer com seus superpoderes. Se em terra de cego quem tem um olho é rei,
imagine quem tem dois. Mas Moore não usa a sua visão para se aproveitar
dos seus colegas ou obter maior poder, e demora uma barbaridade para combater
aqueles que o usurpam, com fins francamente gananciosos, para se dizer o mínimo.
Pelo contrário: Moore se torna uma verdadeira Madre Teresa, correndo grandes
perigos e passando por enormes privações para ajudar um grupo de
cegos que ela não conhecia antes da epidemia e com os quais não
tem nenhum vínculo de parentesco nem nenhuma identidade ou afinidades eletivas
compartilhadas. Foi difícil não enxergar nessa escolha as tonalidades
rubras do comunismo professado até hoje por Saramago. Impossível
também não remeter a situação do Ensaio ao
mito da caverna, d’A República, de Platão. Naquele caso,
a pessoa com o dom da clarividência, um alter-ego do papel do filósofo
na sociedade, vê a luz e se liberta de sua ignorância mas, ao voltar
para a caverna e tentar iluminar seus colegas de grilhões, é rejeitado
e morto por eles. O visionário de Saramago não tenta libertar seus
colegas da cegueira, mas sim os ajuda a conviver com as suas deficiências
como elas são. Cria uma comuna de pessoas díspares – não
sei como era o original de Saramago, mas na versão do filme é uma
verdadeira Babel, com um casal de americanos, uma criança, uma jovem latina,
um velho negro e um casal de japoneses – e usa suas habilidades especiais para
prover o conforto de todos. Em um cenário, como esse, em que o mundo se
transformou num caos de brutalidade e barbárie e onde toda a atividade
produtiva cessou, a decisão de abrigar uma comuna, dentro de uma cidade,
é francamente suicida: toda comida que se dá ao estranho, em um
mundo de estoques não apenas finitos mas bastante limitados, é uma
caloria a menos que a heroína e seu marido vão ter para comer.
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| "O comunismo é um sistema
em que ninguém tem incentivo para produzir e o caminho natural é ou a exaustão
dos recursos coletivos e a pobreza geral ou a instituição de um governo tirânico
para compelir os recalcitrantes." |  |
Aqui a história perdeu, para mim, o realismo que era
sua atratividade principal, e a alegoria vira fantasia, surrealismo. Não
deixa de ser um bom contraste entre capitalismo e comunismo. Como dizia Adam Smith,
não é por bondade que o leiteiro entrega o leite, mas por ganho.
Da ganância individual é que nasce a pujança coletiva, trazida
à luz pela mão invisível do mercado. O comunismo é
um sistema em que ninguém tem incentivo para produzir, além de apelos
a uma humanidade que me parece estar aquém das nossas fronteiras biológico-evolutivamente
determinadas, e o caminho natural é ou a exaustão dos recursos coletivos
e a pobreza geral ou a instituição de um governo tirânico
para compelir os recalcitrantes. Ou, como mostrou a história do século
passado, uma mistura das duas coisas. Saramago, ao construir seu microcosmo de
felicidade e fraternidades terrestres na comuna urbana dos cegos, tem ao seu dispor
o superpoder que mesmo o reformista mais totalitário não dispunha
na vida real, que é o poder absoluto do ficcionista sobre sua obra. Saramago
deve ter percebido que, levada à sua conclusão lógica, o
desenrolar da sua história levaria à uma rápida morte coletiva
ou à dissolução da comuna e sua substituição
por unidades menores e egoístas. Sacou então de um deus ex-machina
para terminar a história de modo feliz, de modo que o altruísmo
da heroína fosse recompensado com a redenção de seu grupo. A
maneira como isso se dá, eu deixarei a aqueles que tem nervos de aço,
para que descubram nos cinemas. | | | |