| Emenda 29 e CSS:
não e não |
Agência Brasil
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Anda
rondando pelo Congresso, prestes a ser votada, a emenda constitucional 29. É
um texto que vem desde o ano 2000, com o objetivo de estabelecer um percentual
mínimo para gastos na área da saúde de União, estados
e municípios. Segundo a proposta, o governo federal deveria investir 10%
da sua arrecadação na área da saúde, enquanto estados
precisariam gastar 12% e municípios, 15%. Junto com essa proposta, foi
embutida agora a criação a CSS. Sua sigla oficial é Contribuição
Social para Saúde. A Fiesp vem chamando-a de "Contra Seu Salário".
Para todos nós, ela é conhecida como a CPMF com outra roupagem.
Assim como sua antecessora, a CSS é um tributo em cascata sobre pagamentos:
cobra 0,1% sobre movimentações financeiras das pessoas que ganham
acima de R$ 3.080,00. O Congresso faria bem em rejeitar o pacote completo. O
caso contra a CSS é simples. Em primeiro lugar e mais importante, o Congresso
rejeitou a CPMF no ano passado. É um verdadeiro acinte às instituições
republicanas que o Executivo proponha o mesmo tributo ao mesmo Congresso menos
de um ano depois de sua rejeição. Faz o Congresso – e a população,
que ele representa – de palhaço: "Pode reprovar o que quiser, vou
continuar propondo até ser aceito". Em segundo lugar, é um
tributo visivelmente desnecessário. A arrecadação
de impostos da União bateu a fantástica cifra de R$ 603 bilhões
em 2007, o que representa um aumento real (descontada a inflação)
de 12% em relação a 2006. Também nos primeiros quatro meses
de 2008 – já sem a verba da CPMF, portanto – houve novo aumento
real, novamente da ordem de 12%, em relação ao mesmo período
do ano anterior. Com o crescimento econômico, aumenta a arrecadação.
A tese governista de que a saúde quebraria sem a CPMF, os hospitais ficariam
à míngua etc. e tal não passava de empulhe. Hoje o governo
tem mais dinheiro do que tinha no tempo da CPMF. Não precisa criar imposto
novo, portanto. Pelo contrário, seria muito bom se diminuísse impostos
e a nossa carga tributária.
Percentual
mínimo para educação: só no Brasil O que dizer da emenda 29? Vejo
o exemplo da educação e só posso acreditar que vinculações
orçamentárias são um tiro no pé. Muita gente não
sabe, mas também na área de educação há um
percentual mínimo que os governantes precisam gastar. Para a União,
18% dos impostos arrecadados devem ir para a área; para estados e municípios,
o patamar sobe a 25%. Já pesquisei muitos sistemas de financiamento da
educação mundo afora, especialmente daqueles países que têm
grande sucesso educacional (Coréia, Chile, Espanha, Alemanha, Inglaterra,
Irlanda etc.) e o Brasil é o único que tem esse tipo de mecanismo.
Nos outros países, o orçamento é negociado entre o Executivo
e o Legislativo, e as verbas para a educação são determinadas
da mesma maneira com que se determinam todos os outros gastos: levando-se em consideração
o interesse nacional. No Brasil, como havia um desleixo histórico dos governantes
com a educação e uma perspectiva de que se gastava pouco com o setor,
os defensores da área acharam que seria uma grande vitória exigir
um gasto mínimo em educação com a redemocratização
do país, o que foi feito através da Constituição de
1988.
Uma canetada
criou, outra destruiu
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| "A vinculação orçamentária
tem maior probabilidade de causar danos do que curar nosso quadro social" |
 | É
o caso típico da mania legislativa brasileira: ao invés de se travar
o trabalho árduo de discussão e convencimento, cria-se uma lei e
imagina-se que com isso a persuasão está feita e o objetivo, alcançado.
A realidade costuma ser mais nuançada do que isso, especialmente em um
país onde a capacidade de se fazer cumprir a lei é limitada. No
governo federal, aquilo que uma canetada criou, outra destruiu. Surgiu a DRU –
Desvinculação de Recursos da União – que retira 20% dos recursos
arrecadados pela União do cálculo das vinculações
orçamentárias. Nos estados e municípios, especialmente nesses
últimos, ocorre uma, digamos, "contabilidade criativa". Se o
prefeito asfalta uma avenida que passa por uma escola, a verba é lançada
como gasto de educação. Contratam funcionários da prefeitura
e locam-nos na área da educação, apesar de fazerem funções
diversas. Assim, se chega ao patamar dos 25% gastos em educação
que fará com que não haja dores de cabeça para prefeitos
e governadores com os seus tribunais de contas. Há um triplo prejuízo.
Em primeiro lugar, não ficamos sabendo quanto é efetivamente gasto
em educação, porque qualquer prefeito ou governador que se declarar
abaixo do piso constitucional estará cometendo um crime. Em segundo, mudamos
de uma perspectiva qualitativa para outra quantitativa: na cabeça do governante,
o importante não é onde o recurso será investido e quais
serão seus resultados, mas sim quanto será investido e se esse montante
cumpre as obrigações legais. Se o sujeito despejar os 25% na construção
de escolas lindas que produzam alunos analfabetos, será condecorado; se
gastar 20% em escolas em que os alunos saem craques, é um criminoso. Terceiro,
contribui para o esvaziamento da discussão cívica sobre o assunto.
Ao invés de o governante ter a necessidade, a cada ano, de mostrar o que
vem sendo feito e onde o dinheiro foi gasto, e provar que precisa mais ou menos,
que vale a pena tirar verba de uma área e colocar em educação,
há um engessamento, um automatismo: a lei já diz o que precisa ser
feito, portanto não há discussão. Cumpre-se a lei e estamos
conversados. O resultado está aí para todos verem: uma educação
de péssimos resultados, apesar de receber muito dinheiro. Com a
emenda 29, a saúde vai pelo mesmo caminho. Ainda que seja mais fácil
identificar uma saúde de qualidade do que uma educação boa
– quem se sente mal sabe que está com problema, enquanto que muita gente
sai ignorante da escola sem saber que aprendeu menos do que deveria – a vinculação
orçamentária tem maior probabilidade de causar danos do que curar
nosso quadro social. Seria oportuno se, na discussão da emenda 29, já
aproveitássemos e rediscutíssemos toda essa idéia de vinculações
orçamentárias. A saída da camisa-de-força não
funcionou. Quem sabe olhamos para os países que deram certo e nos perguntamos
se não temos nada a aprender com eles? |