| Os professores e
a "frieza das estatísticas"
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Durante o meu mestrado, tive uma aula sobre sistemas de governo e crescimento
econômico. Ministrada por um professor brasileiro em Yale, José Antonio
Cheibub, começava, se me lembro bem, municiando os alunos com vários
artigos de pensadores políticos defendendo as vantagens da democracia como
indutora do crescimento. Finda a primeira metade do semestre, tivemos uma semana
de férias, para a qual saímos convencidos de que a democracia é
o regime mais propício para o crescimento econômico sustentado. Na
segunda metade do semestre, lemos outra batelada de pensadores, para os quais
a ditadura seria o regime mais indicado para gerar crescimento econômico.
A argumentação desses teóricos, assim como aquela de seus
antagonistas, era extremamente convincente, recheada de exemplos, com lógica
impecável. Tenho certeza de que qualquer pessoa que fosse exposta a apenas
um lado da argumentação sairia convencida. No final do semestre,
líamos então um livro, Democracy and Development: Political Institutions
and Well-Being in the World, 1950-1990, que compilava as taxas reais de crescimento
econômico de uma centena de países ao longo de quarenta anos, dividia-os
entre ditadura e democracia durante esse intervalo de tempo e dava, então,
a resposta definitiva sobre qual sistema tinha maior impacto sobre o crescimento
econômico (quem quiser saber, leia o livro).
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| "Recebo essas críticas
por seu valor de face, sem acreditar que há aí malícia ou conspiração, e me espanto." |
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Não tenho nenhum treinamento em pedagogia, mas essa me parece
a aula perfeita: fornece uma vasta quantidade de informações, de
qualidade, sobre uma questão. Logo depois fornece o seu oposto, forçando
o aluno à dúvida, e então arremata ensinando ao futuro pesquisador
como resolver suas dúvidas: pesquisando, obtendo dados e cotejando-os da
forma mais rigorosa possível para estabelecer (ou refutar) uma hipótese. É
por isso que fiquei bastante frustrado com a enxurrada de e-mails (uns trezentos)
que recebi desde a publicação do artigo "Professor não
é coitado". Não porque a maioria dessas missivas é de
professores raivosos, com comentários quase que unanimemente negativos,
mas sim pela natureza da crítica, que aparece em alguns dos e-mails publicados
neste
espaço na semana passada: uma recusa a aceitar a veracidade
dos fatos. A grande maioria dos professores que escreveram dizem que os dados
estão errados, que eu não vivo nesse país, que as minhas
posições só podem ser reflexo de nunca ter entrado em uma
escola pública de periferia ou que este autor deve ter algum sério
transtorno psicológico para denegrir a categoria dos professores dessa
maneira. Críticas e mais críticas ao uso "indiscriminado"
e "manipulativo" da "frieza dos números", que não
traduzem a realidade que ele(a), professor(a), vive no seu dia-a-dia e que portanto
não podem ser verdadeiros.
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| "São totalmente
sem sentido as perguntas dos professores sobre se este autor já passou uma tarde
ou um dia ou um mês em uma escola de periferia." |
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Recebo essas críticas por seu valor de face, sem acreditar que
há aí malícia ou conspiração, e me espanto.
Não houve sequer uma menção, que me lembre, de qual teria
sido a manipulação de que os números foram vítimas,
uma indicação de erro das fontes usadas, um questionamento metodológico
sobre os estudos mencionados ou uma indicação de qual seria a estatística
"certa" a ser usada. E isso mesmo em um formato de total transparência,
em que todas as fontes
de informação usadas foram citadas e referenciadas
no pé do artigo e estão disponíveis em um clicar do mouse.
Creio que nenhum dos missivistas se deu ao trabalho de ao menos ler e checar os
dados. Esse é um tratamento preocupante por duas razões. Primeiro,
porque parece denotar que os professores vêem um dado como algo separado
da realidade que ele representa. Não se pode dizer que se "discorda"
que o número de alunos por sala de aula seja x ou que a jornada dos professores
seja y ou que o seu salário seja z% superior ou inferior à média
nacional. Essas não são questões opiniáticas, mas
factuais. Ou o dado está certo, ou está errado. O dado pode ser
de boa ou má qualidade, vir de fonte confiável ou não: isso
são outros quinhentos (e me preocupo com essas questões, daí
a decisão de usar apenas estatísticas oficiais ou estudos de instituições
imparciais como a Unesco, FGV, etc.). Essa confusão é perdoável
em uma correspondência pessoal, no calor de uma polêmica, mas foi
repetida com tal freqüência que me pergunto se nossos mestres não
cometem os mesmos equívocos em sala de aula, e não transmitem como
fato aos nossos alunos aquilo que não passa da sua opinião sobre
eventos, e transmite como se fossem opiniões alguns fatos incontestes.
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| "Essa inabilidade
de abstração e de encarar os dados de frente é preocupante naqueles que têm a
responsabilidade de transmitir o conhecimento às futuras gerações." |
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O segundo motivo de preocupação, que também revela
um desconhecimento preocupante, é a insistência na personificação
de fenômenos coletivos e a utilização da experiência
pessoal como métrica para a análise de uma questão pública.
Quando se escreve em uma publicação nacional, traçamos um
panorama do país todo, o que necessariamente implica a utilização
de totalizações, médias, etc. Me parecia desnecessário
dizer, mas vá lá: quando se fala em salário médio,
por exemplo, não quer dizer que todos os professores recebem aquele valor.
Mais especificamente ainda, quando se diz que a maioria trabalha um certo número
de horas, não se está dizendo que todos os professores trabalham
um certo número de horas. Portanto, a experiência pessoal de um professor
pode ser interessante como ilustração de um grupo (seja ele minoritário
ou majoritário, o elemento que se conforma à regra ou a exceção
que a comprova), mas jamais confirmará ou invalidará um contexto
nacional. Um professor pode ter 50 alunos em sua sala de aula, e mesmo assim a
média nacional pode continuar sendo 25. Cinco, dez, vinte, cem, mil professores
podem ter o mesmo problema: a média continua válida, continua verdadeira.
Uma amostra composta de um caso é uma amostra com representatividade praticamente
nula. Por isso são totalmente sem sentido as perguntas dos professores
sobre se este autor já passou uma tarde ou um dia ou um turno ou um mês
ou um ano em uma escola de periferia, pois por pior que fosse a minha experiência
e por mais distante que ela fosse da média nacional, ela jamais invalidaria
a média nacional. (Apenas por curiosidade, respondo: devoto parte do meu
tempo a viajar e palestrar a professores e autoridades educacionais em todo o
país e também fora dele, e vos asseguro que conheço mais
escolas, mais professores e mais diretores do que aqueles que mandaram suas invectivas.)
Essa inabilidade de abstração e de encarar os dados de frente é
igualmente preocupante naqueles que têm a responsabilidade de transmitir
o conhecimento acumulado ao longo dos séculos para as futuras gerações.
Será que em sala de aula o professor também se recusa a ensinar
aquilo que, através da sua vivência, ele "sabe" não
ser verdadeiro? Creio que ao fim e ao cabo esse diálogo poderia ser proveitoso.
O desprezo que a maioria dos professores, especialmente os das áreas de
humanas, têm pela quantificação da realidade certamente exprime
uma lacuna nos seus cursos de formação, que pode e deve ser sanada.
Finalmente, percebo nesse negacionismo antiestatístico mais um capítulo
da recusa dos atores do nosso sistema educacional de encarar a nossa - triste,
é verdade - realidade. Enquanto nossos professores tratam de erigir muros
à visualização das carências do sistema educacional
do qual eles são protagonistas, para manter a sua zona de conforto e isenção
de responsabilidades, não apenas esses profissionais se condenam ao opróbrio
social, mas, o que é mais importante, nosso sistema educacional continuará
produzindo os analfabetos e ignorantes que já saem condenados, desde a
sua primeira infância, a reproduzir a pobreza e desesperança de seus
antepassados. |