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ENTREVISTA: Harry S. TrumanVEJA, Agosto de 1945
O sucessor de Roosevelt garante que o uso da bomba atômica foi necessário: sem ela, a longa agonia da guerra no mundo persistiria. Na presidência há só cinco meses, Truman afirma que a Alemanha será reabilitada, a Europa será reconstruída e a paz, enfim, virá: 'A perspectiva não é tão ruim assim.'
a manhã de 12 de abril de 1945, Harry Truman não sabia dos planos dos EUA para vencer a guerra, desconhecia os preparativos dos Aliados para a manutenção da paz, ignorava a existência da maior arma já construída pelo homem e mal conhecia seu próprio chefe - em 82 dias como vice-presidente, tivera apenas duas curtas reuniões com Franklin Delano Roosevelt. Às 19h09 daquele mesmo dia, Truman presidia a nação mais poderosa do mundo, liderava o bloco aliado na guerra e ditava o destino da humanidade ao assumir o controle sobre o uso da bomba atômica. A existência da revolucionária arma, aliás, só foi comunicada a ele depois da posse, pelo secretário Henry Stimson. Truman admitiu ter balançado ao ouvir da viúva de Roosevelt, Eleanor, que o presidente estava morto: "Foi como se a lua, as estrelas e todos os planetas caíssem sobre mim." Mas poucos perceberam: apesar da preocupação geral com sua inexperiência, o novo presidente vem conduzindo o país com segurança e serenidade. Nascido no Missouri, Truman não tem diploma universitário - a família não conseguiu custear sua educação. Conhecimento para liderar, porém, não falta: desde o início da adolescência, Truman lia quatro ou cinco livros por semana, quase sempre biografias de estadistas e relatos de grandes conflitos militares. Foi operário de ferrovia, fazendeiro, dono de confecção masculina e major na primeira Grande Guerra antes de entrar na política. Senador entre 1935 e 1944, foi escolhido para a chapa de Roosevelt pelo trabalho na Comissão Truman, que revelou fraudes e abusos nos contratos da indústria bélica - o país poupou 15 bilhões de dólares com seu relatório. Aos 61 anos, míope como um rinoceronte, casado com Bess (que conheceu aos 6 anos, na escola dominical da Igreja Presbiteriana), Truman fala nesta entrevista sobre a guerra, a bomba e a paz: "Se querem segurança, os homens devem se unir e se organizar".
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VEJA - A máquina de guerra japonesa estava praticamente destruída quando o senhor decidiu ordenar os ataques com bombas atômicas em Hiroxima e Nagasaki. O uso dessa nova bomba era mesmo necessário para acabar com a guerra?
Truman - Usamos a bomba para encurtar a agonia da guerra, para salvar milhares e milhares de vidas, em especial de soldados americanos. Você deve notar que a primeira bomba atômica foi lançada contra Hiroxima, uma base militar. Isso foi feito porque queríamos evitar ao máximo a morte de civis. Não queríamos destruir ou escravizar o povo japonês. Mas ainda enfrentávamos uma poderosa máquina militar. E não devemos nos esquecer de Pearl Harbor. Foram eles que cometeram aquele ataque infame. Os mesmos japoneses ordenaram a marcha da morte de Bataan. Os mesmos japoneses praticaram os bárbaros massacres de Manila. O mal cometido pelos senhores da guerra do Japão jamais será reparado ou esquecido. Mas agora seu poder de destruir e matar foi tirado deles.

 "A bomba atômica é perigosa demais para ficar solta por aí no mundo sem leis. Temos grande responsabilidade."
  

VEJA - Mas o surgimento dessa nova arma parece ameaçar desde já a paz no pós-guerra. O senhor não teme que a bomba atômica seja usada pelos inimigos dos Estados Unidos no futuro?
Truman - Conheço o trágico significado da bomba atômica. Sua produção e seu uso não foram decididas facilmente por nós. Mas sabíamos que nossos inimigos também buscavam obtê-la. Sabíamos o quanto estavam perto disso. E sabíamos o que aconteceria se eles a conseguissem primeiro. É por isso que nos sentimos obrigados a assumir a longa, incerta e custosa tarefa de descobri-la e produzi-la. De fato, a bomba atômica é perigosa demais para ficar solta por aí num mundo sem leis. É por isso que nós, que temos o segredo de sua produção, não pretendemos revelá-lo até que exista um meio de proteger o mundo do risco da destruição total. Devemos ser os tutores dessa nova força, impedindo que ela seja mal usada e fazendo que ela trabalhe a serviço da humanidade, como poderosa influência sobre a paz mundial. É uma grande responsabilidade. Mas agradeço a Deus por esse fardo ter caído sobre nós, e não sobre nossos inimigos.

VEJA - Por falar em responsabilidade, como o senhor recebeu a missão de chefiar a maior potência econômica do mundo depois da morte do presidente Roosevelt?
Truman - Homem nenhum seria capaz de preencher o vazio deixado pelo falecimento de alguém tão nobre. Era um heróico defensor da justiça e liberdade. Ele viveu até ver a garantia da vitória na guerra, mas não conseguiu comemorá-la. O trágico destino deixou-me uma tarefa gravíssima. Mas precisávamos seguir adiante. Nosso antigo líder jamais olhava para trás. Ele só olhava para frente. E é isso que ele pediria que eu fizesse. Como veterano da primeira Grande Guerra, eu vi a morte no campo de batalha. Vi ótimos soldados morrendo, e todos tiveram de ser substituídos. É a mesma coisa quando o comandante-em-chefe morre. Minhas missões e obrigações eram claras. Cumpri todas elas.

VEJA -Antes de Pearl Harbor, as Forças Armadas dos EUA eram relativamente pequenas e pouco equipadas. Sob a liderança de Roosevelt, seu país tornou-se rapidamente uma potência bélica, talvez a melhor máquina militar já vista no mundo. Como foi possível fazer isso?
Truman - Hoje nosso país está no auge de sua força militar. O soldado americano nesta guerra é tão capaz e corajoso quanto o soldado americano sempre foi. Mas agora ele é mais bem sucedido que nunca, pois foi à guerra com melhor treinamento, melhores equipamentos, melhor liderança. A guerra nos mostrou que temos recursos tremendos para obter todos os materiais de guerra. Ela mostrou que temos trabalhadores capacitados, generais hábeis e um bravo povo, pronto a erguer as armas. Mas já sabíamos de tudo isso. O que não sabíamos, que aprendemos agora e jamais devemos nos esquecer, é isso: uma sociedade de homens auto-governados é mais forte, criativa e longeva do que qualquer outra, por mais disciplinada e centralizada que essa outra seja.

"Hoje a Europa passa fome. Devemos ajudar até o limite de nossas forças. E faremos isso." 
  

VEJA - É este o significado do triunfo dos Aliados, a vitória da democracia?
Truman - Acredito que sim. Não é apenas uma vitória militar. É uma vitória da liberdade contra a tirania. É a vitória de um estilo de vida sobre o outro. É a vitória de um ideal baseado no direito do cidadão comum e na concepção do Estado como servo, não mestre, de seu povo. O povo livre mostrou ser capaz de derrotar soldados profissionais cujas únicas armas morais eram obediência e culto à força. Por trás da nossa vitória estão a vontade, o espírito e a determinação de um povo que sabe o que a liberdade é, e sabe que vale a pena pagar qualquer preço para preservá-la. Foi o espírito da liberdade que tornou os nossos homens invencíveis nas batalhas. E sabemos agora que o espírito da liberdade, a dignidade pessoal dos homens e o livre arbítrio do indivíduo são as mais fortes e duradouras forças em todo o mundo.

VEJA - O que acontecerá com a Alemanha, país que comandou a marcha do totalitarismo e provocou esse desastroso conflito?
Truman - Acabo de voltar de Berlim, a cidade de onde os alemães queriam governar o mundo. É uma cidade fantasma. Os prédios estão em ruínas, assim como a economia e o povo. Mulheres, crianças e idosos perambulam pelas estradas buscando comida e abrigo. O povo alemão começa a conhecer os crimes dos gângsteres que eles colocaram no poder, aprovaram cegamente e seguiram com obediência. Faremos o possível para fazer da Alemanha uma nação decente, para que ela eventualmente se recupere do caos em que se afundou e retorne ao mundo civilizado. Já estabelecemos os princípios políticos e econômicos sob os quais ela será governada. Eles buscam livrar o país do nazismo, do arsenal de guerra e de sua tradição militarista, além de reconstruir a democracia ao reorganizar o governo e encorajar a liberdade de imprensa, pensamento e religião. Mas os alemães não terão um padrão de vida superior ao de suas vítimas, povos dos países ocupados.

VEJA - O resto da Europa receberá algum pacote de ajuda dos americanos?
Truman - Quem vê a Europa hoje percebe que a vitória na guerra não é algo que você conquista de vez, como num jogo de beisebol. É uma vitória diferente, que deve ser conquistada e mantida. Pode até mesmo ser perdida depois, se formos negligentes ou indiferentes. Hoje a Europa passa fome. Não falo dos alemães, mas sim dos países atropelados e devastados pelos alemães. Faltam roupas, combustível, ferramentas, abrigo. Faltam meios de reconstruir suas cidades e fábricas. Se deixarmos a Europa passar frio e fome, perderemos a fundação que sustenta a esperança de paz no mundo. Precisamos ajudar até o limite de nossas forças. E faremos isso.

 "Nós não ficamos isolados na guerra. E não ousaremos ficar isolados na paz. É preciso se unir e organizar."
  

VEJA - Ao mesmo tempo, o senhor estuda instalar bases americanas em países derrotados. Não teme que essa presença militar no estrangeiro provoque novos atritos internacionais?
Truman - Sou muito grato a Deus por meu país ter sido poupado da destruição da guerra. Preciso fazer de tudo para poupá-lo da devastação em qualquer interrupção futura da paz. É por isso que, apesar de meu país não querer territórios, lucros ou vantagens próprias com o fim desta guerra, manterá as bases militares necessárias para a proteção completa de nossos interesses e da paz mundial. Bases que não estejam sob nosso controle mas sejam consideradas essenciais pelos especialistas militares serão adquiridas. Ninguém pode prever o que outra guerra significaria. O que fizemos com o Japão agora, mesmo com a bomba atômica, é só uma pequena fração do que pode ocorrer no mundo numa terceira Grande Guerra. É por isso que as Nações Unidas estão determinadas em impedir que haja uma outra guerra. Não podemos permitir que nenhum futuro agressor seja inteligente o bastante para nos dividir ou forte o bastante para nos derrotar.

VEJA - O senhor mencionou as Nações Unidas. Acredita mesmo que essa nova organização será capaz de impedir novos conflitos armados no mundo?
Truman - A tarefa de criar uma sólida organização internacional é complicada. Sem ela, porém, os direitos dos homens não poderão ser protegidos. É preciso achar mecanismos para resolver disputas de forma justa. Sem tais mecanismos, o mundo inteiro continuará sob armas. A guerra moderna pode esmagar toda a civilização. Temos duas alternativas: a continuação do caos ou o estabelecimento de uma organização para manter a paz. O homem aprendeu há muito tempo que é impossível viver em si mesmo. Esse mesmo princípio se aplica hoje às nações. Não ficamos isolados na guerra. Não ousaremos ficar isolados na paz. Todos admitem que, para ter um bom vizinho, também é preciso ser um bom vizinho. Se quiserem segurança, os homens de boa vontade devem se unir e se organizar. Se não quisermos morrer juntos na guerra, devemos aprender a viver juntos em paz.

VEJA - E o senhor acredita numa paz duradoura?
Truman - Sim. Pessoas sensatas sempre mantêm a fé no triunfo da justiça. O desespero dos dias atuais faz com que algumas pessoas pensem que as guerras são inevitáveis. Elas insistem que as guerras sempre existirão. Mas os homens de boa vontade não devem se curvar a tal derrotismo. A perspectiva para a humanidade não é tão ruim assim. Mesmo durante as horas mais negras desta horrível guerra, nações inteiras continuaram de pé por causa da esperança. Os agressores não conseguiram dominar a mente humana. Enquanto a esperança existir, o espírito do homem jamais será esmagado.
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Discurso de Harry Truman sobre fim da guerra
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