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 VEJA, Agosto de 1945
Capitulação japonesa põe fim a seis anos de combates
no globo - Bombas atômicas obrigam imperador Hiroíto
a finalmente baixar as armas - Aliados saem vitoriosos
da mais sangrenta pugna já ocorrida em toda a História
Foto: museu Yad Vashem O horror atômico: os escombros de Nagasaki, alvo da última bomba detonada nesta guerra

ma pesada bengala ampara o ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, Mamoru Shigemitsu, que penosamente sobe a escada do portaló do USS Missouri. Depois de avançar pela ponte do navio de guerra norte-americano ancorado em Yokohama, o dignatário chega ao tombadilho. O clima é de luto na comissão nipônica. A delegação aliada, composta por uma dezena de membros, ainda esperava a chegada do General Douglas MacArthur, comandante das forças dos Estados Unidos no Pacífico. Ao chegar, o oficial, de improviso, faz um discurso celebrando a paz restaurada, associando vencedores e vencidos e repudiando todo espírito de desconfiança, malícia ou ódio. Nas palavras do diplomata Toshikazu Kase, MacArthur transforma o Missouri, colossal máquina de guerra aliada, em um inesperado altar da paz.

Os papéis da capitulação já estão sobre o pano esmeraldino da mesa ao redor da qual gravitam os comandantes. Shigemitsu toma seu assento, coloca a bengala de lado, tira o chapéu e as luvas e apanha os documentos. Após examiná-los por cerca de um minuto, subscreve-os em nome do Governo Imperial do Japão. Em seguida, MacArthur convida o general norte-americano Jonathan Wainwright e o general britânico Arthur Percival para colocar suas assinaturas pelas Forças Aliadas. Os papéis passam ainda pelo restante das delegações japonesa e aliada, chancelados pela firma de cada um dos presentes. São 9 horas e 25 minutos do dia 2 de setembro de 1945. Saudados pelo apito do primeiro-mestre e pelo Estado-Maior do Missouri, os visitantes retiram-se da embarcação. O Japão rendera-se oficialmente. É o ponto final.

Depois de 2.195 dias, acaba a maior guerra que o mundo já testemunhou. Entre 100 e 110 milhões de pessoas, originárias de 61 nações, participaram das hostilidades, que se desenrolaram sobre uma área total de 22 milhões de quilômetros quadrados. Cálculos preliminares indicam que entre 32 e 40 milhões de vidas foram ceifadas. As perdas materiais são incalculáveis. E certamente seriam maiores caso o Japão não baixasse suas armas. Justificando a rendição, o imperador Hiroíto afirmou: "O inimigo começou a lançar uma nova e aterrorizante bomba, capaz de matar muitas pessoas inocentes e cujo poder de destruição é inestimáveis. Se continuássemos a lutar, isto significaria não apenas o fim da nação japonesa, mas também levaria ao extermínio completo da civilização humana."
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Destruição total - A queda do Império já começava a se desenhar no final de julho, quando implacáveis bombardeios castigaram suas cinco principais cidades - Tóquio, Osaka, Nagoya, Kobe e Yokohama -, arrasando-as em proporções de 45% a 60% de sua área. Os principais alvos industriais foram destruídos, um a um. As cidades secundárias também não foram esquecidas pelos americanos, que mantiveram 60 delas sob um programa incendiário especial. A maioria foi consumida pelo fogo, em números que giram em torno dos 70% de destruição. Toyama, com seus 127.860 habitantes, teve nada menos do que 99,5% de sua área consumida pelas chamas. Entretanto, a propaganda japonesa continuava pregando a invencibilidade nipônica. Pelo raciocínio oficial, para vencer a batalha, os EUA deveriam matar os 100 milhões de habitantes do Japão. Entregar-se, jamais.

No crepúsculo do mês sete, Tóquio recebera uma proposta de rendição incondicional, porém com a promessa de repatriamento das tropas japonesas, a permanência das indústrias e uma participação nipônica no comércio mundial; além disso, o acordo compreenderia a instalação de uma monarquia constitucional sob a atual dinastia. Tal condescendência, que não se verificou no trato com a Alemanha, tinha uma contrapartida alarmante, no caso da proposta não ser aceita: "A alternativa para o Japão é a imediata e total destruição", diziam os termos aliados.

Ainda que considerada atraente por alguns integrantes do governo, a proposta acabou sendo rejeitada pelos radicais: em 29 de julho, transmite-se a resposta oficial dos amarelos: o Império decidira "ignorar" o ultimato. A declaração do estandarte da intransigência, o General Anami, explica a escolha. "Capitulação sem condições é para o Japão um termo não somente inaceitável, mas também inconcebível. Os Estados Unidos não estão preparados para pagar o aterrador preço de sangue que lhes custaria uma invasão. Eles ainda amolecerão e concordarão com condições mais favoráveis se continuarmos contrários às resoluções do desespero." Um desprezo, quase uma provocação. Em outras palavras: o Japão pagava para ver.
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'Garotinho' e 'Gordo' - No início de agosto, o general MacArthur começara a reunir as tropas para a invasão que acarretaria a conquista final no Pacífico. O comandante, que possuía 250 mil homens nas Filipinas, planejava mobilizar outros 500.000 nas Ilhas Ryukyu, que incluíam Okinawa. A expectativa era que, em 1º de novembro, 650.000 soldados estivessem prontos para invadir a ilha de Kyushu, a mais meridional do Império. Por esses planos, uma tropa auxiliar de um milhão de homens - australianos, britânicos e canadenses - desembarcaria na ilha principal do Japão, Honshu, em março próximo. Em 4 de agosto, um confiante MacArthur declarou, em Manila: "Uma força poderosa de invasão está sendo forjada."

O presidente americano Harry Truman, contudo, tinha algo ainda mais poderoso em mente. No dia seguinte à declaração do general, o Comandante-em-Chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos ordenou ao cabeça do 509º Grupamento Aéreo executar a missão para a qual, desde o dia 25 de julho, ele se preparava. Da sala do cruzador Augusta, Truman, em 5 de agosto, dava a ordem de execução que mudaria a história do planeta: a bomba atômica, filhote assassino do chamado Projeto Manhattan (leia reportagem nesta edição), seria empregada na guerra.

Assim, às 8h15 da manhã de 6 de agosto, uma bola de fogo materializou-se sobre o céu da cidade de Hiroshima, fruto da fatal e sinistra detonação de um artefato dotado de um poder de destruição equivalente ao de 20.000 toneladas de TNT - ou seja, 2.000 vezes maior do que a mais potente arma já utilizada. Com 3,6 toneladas e 3 metros de comprimento, a primeira bomba atômica - apelidada de Little Boy, ou "Garotinho", em homenagem ao finado presidente Roosevelt - foi lançada do B-29 Enola Gay, pilotado pelo coronel Paul Tibbets. A explosão, conseqüência da reação em cadeia em urânio-235, provocou cenas sinistras, jamais presenciadas pelo homem. Pássaros queimavam em pleno ar. Seres humanos perambulavam em carne viva, com cérebros, olhos e tripas em chamas.

"Garotinho" reduziu literalmente às cinzas uma área de 13 quilômetros quadrados. Dos 290.000 habitantes de Hiroshima, cerca de 100.000 morreram instantaneamente. Calcula-se que outras 200.000 pessoas podem fenecer num prazo de até cinco anos, em decorrência das queimaduras e da radiação. "É o maior evento de toda a história", definiu Truman, ainda no Augusta, enquanto retornava de Potsdam, onde participou da derradeira conferência aliada.

Não contente com o estrago feito pela primeira, o presidente resolveu repetir a dose. Três dias depois do estrépito em Hiroshima, Nagasaki, cidade portuária com 250.000 moradores, foi alvo de uma segunda bomba atômica - desta vez apelidada de Fat Man, ou "Gordo", cortesia com o antigo primeiro-ministro britânico, Winston Churchill (leia reportagem nesta edição). Mais poderoso que o primeiro, o artefato de 3,5 metros de comprimento e 4 toneladas contava com um poder de destruição equivalente ao de 22.000 toneladas de TNT. Entretanto, devido à topografia da região, a bomba - desta vez, de plutônio - devastou uma área menor, de 6,7 quilômetros quadrados. Matou 73.000 pessoas e feriu outras 74.000.
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Súditos em prantos - Para piorar a situação nipônica, no mesmo dia em que o cogumelo incandescente expandiu-se pelos céus de Nagasaki, a União Soviética, cumprindo o acordo feito com os americanos em Yalta, declarou guerra ao Japão. A força de ataque do Exército Vermelho era temerosa: 1,2 milhão de soldados, 3.900 aeronaves e 5.500 tanques, contra 780.000 soldados, mil aeronaves e 1.155 tanques do Exército de Kwantung.

Cercado por todos os lados, contando as pilhas de cadáveres em seu território antes mesmo da prometida invasão aliada, o Japão finalmente cedeu. Em 14 de agosto, a notícia da rendição incondicional do último adversário dos aliados foi transmitida simultaneamente para Londres, Washington e Moscou. Em Tóquio, do lado de fora do Palácio, onde a decisão de Hiroíto foi lida, uma audiência derramava-se em prantos; ajoelhados, os súditos pediam perdão ao divino imperador. Naquele momento, Hiroíto gravava uma mensagem ao povo japonês, pedindo lealdade para sua ordem de rendição. Um grupo de oficiais rebeldes invadiu o palácio naquela mesma noite para tentar fazer o imperador mudar de idéia e continuar com a guerra, mas não obteve sucesso.

Dessa forma, após a rendição oficial, o general Douglas MacArthur tornou-se o primeiro estrangeiro a controlar o Japão nos últimos mil anos. Admirador do sistema parlamentarista britânico, o militar tem em suas mãos uma autoridade quase absoluta, com plenas condições de fazer com que a democracia volte a imperar na terra do sol nascente. "Como comandante supremo das Forças Aliadas, declaro meu firme propósito, de acordo com a tradição dos países que represento, de proceder com justiça e tolerância no desempenho de minhas responsabilidades", declarou, no discurso a bordo do Missouri. Que assim seja.
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A destruição provocada pela bomba atômica
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A festa pela vitória dos países aliados nos EUA
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