Capitulação japonesa põe fim a seis anos de combates no
globo - Bombas atômicas obrigam imperador Hiroíto a finalmente
baixar as armas - Aliados saem vitoriosos da mais sangrenta pugna já
ocorrida em toda a História
O horror atômico: os escombros de Nagasaki,
alvo da última bomba detonada nesta guerra
ma pesada bengala ampara o ministro dos Negócios Estrangeiros do
Japão, Mamoru Shigemitsu, que penosamente sobe a escada do portaló
do USS Missouri. Depois de avançar pela ponte do navio de guerra
norte-americano ancorado em Yokohama, o dignatário chega ao tombadilho.
O clima é de luto na comissão nipônica. A delegação
aliada, composta por uma dezena de membros, ainda esperava a chegada do General
Douglas MacArthur, comandante das forças dos Estados Unidos no Pacífico.
Ao chegar, o oficial, de improviso, faz um discurso celebrando a paz restaurada,
associando vencedores e vencidos e repudiando todo espírito de desconfiança,
malícia ou ódio. Nas palavras do diplomata Toshikazu Kase, MacArthur
transforma o Missouri, colossal máquina de guerra aliada, em um
inesperado altar da paz.
Os papéis da capitulação
já estão sobre o pano esmeraldino da mesa ao redor da qual gravitam
os comandantes. Shigemitsu toma seu assento, coloca a bengala de lado, tira o
chapéu e as luvas e apanha os documentos. Após examiná-los
por cerca de um minuto, subscreve-os em nome do Governo Imperial do Japão.
Em seguida, MacArthur convida o general norte-americano Jonathan Wainwright e
o general britânico Arthur Percival para colocar suas assinaturas pelas
Forças Aliadas. Os papéis passam ainda pelo restante das delegações
japonesa e aliada, chancelados pela firma de cada um dos presentes. São
9 horas e 25 minutos do dia 2 de setembro de 1945. Saudados pelo apito do primeiro-mestre
e pelo Estado-Maior do Missouri, os visitantes retiram-se da embarcação.
O Japão rendera-se oficialmente. É o ponto final.
Depois
de 2.195 dias, acaba a maior guerra que o mundo já testemunhou. Entre 100
e 110 milhões de pessoas, originárias de 61 nações,
participaram das hostilidades, que se desenrolaram sobre uma área total
de 22 milhões de quilômetros quadrados. Cálculos preliminares
indicam que entre 32 e 40 milhões de vidas foram ceifadas. As perdas materiais
são incalculáveis. E certamente seriam maiores caso o Japão
não baixasse suas armas. Justificando a rendição, o imperador
Hiroíto afirmou: "O inimigo começou a lançar uma nova
e aterrorizante bomba, capaz de matar muitas pessoas inocentes e cujo poder de
destruição é inestimáveis. Se continuássemos
a lutar, isto significaria não apenas o fim da nação japonesa,
mas também levaria ao extermínio completo da civilização
humana."
...
Destruição total
- A queda do Império já começava a se desenhar no final
de julho, quando implacáveis bombardeios castigaram suas cinco principais
cidades - Tóquio, Osaka, Nagoya, Kobe e Yokohama -, arrasando-as em proporções
de 45% a 60% de sua área. Os principais alvos industriais foram destruídos,
um a um. As cidades secundárias também não foram esquecidas
pelos americanos, que mantiveram 60 delas sob um programa incendiário especial.
A maioria foi consumida pelo fogo, em números que giram em torno dos 70%
de destruição. Toyama, com seus 127.860 habitantes, teve nada menos
do que 99,5% de sua área consumida pelas chamas. Entretanto, a propaganda
japonesa continuava pregando a invencibilidade nipônica. Pelo raciocínio
oficial, para vencer a batalha, os EUA deveriam matar os 100 milhões de
habitantes do Japão. Entregar-se, jamais.
No crepúsculo do
mês sete, Tóquio recebera uma proposta de rendição
incondicional, porém com a promessa de repatriamento das tropas japonesas,
a permanência das indústrias e uma participação nipônica
no comércio mundial; além disso, o acordo compreenderia a instalação
de uma monarquia constitucional sob a atual dinastia. Tal condescendência,
que não se verificou no trato com a Alemanha, tinha uma contrapartida alarmante,
no caso da proposta não ser aceita: "A alternativa para o Japão
é a imediata e total destruição", diziam os termos aliados.
Ainda
que considerada atraente por alguns integrantes do governo, a proposta acabou
sendo rejeitada pelos radicais: em 29 de julho, transmite-se a resposta oficial
dos amarelos: o Império decidira "ignorar" o ultimato. A declaração
do estandarte da intransigência, o General Anami, explica a escolha. "Capitulação
sem condições é para o Japão um termo não somente
inaceitável, mas também inconcebível. Os Estados Unidos não
estão preparados para pagar o aterrador preço de sangue que lhes
custaria uma invasão. Eles ainda amolecerão e concordarão
com condições mais favoráveis se continuarmos contrários
às resoluções do desespero." Um desprezo, quase uma
provocação. Em outras palavras: o Japão pagava para ver.
...
'Garotinho' e 'Gordo' - No
início de agosto, o general MacArthur começara a reunir as tropas
para a invasão que acarretaria a conquista final no Pacífico. O
comandante, que possuía 250 mil homens nas Filipinas, planejava mobilizar
outros 500.000 nas Ilhas Ryukyu, que incluíam Okinawa. A expectativa era
que, em 1º de novembro, 650.000 soldados estivessem prontos para invadir
a ilha de Kyushu, a mais meridional do Império. Por esses planos, uma tropa
auxiliar de um milhão de homens - australianos, britânicos e canadenses
- desembarcaria na ilha principal do Japão, Honshu, em março próximo.
Em 4 de agosto, um confiante MacArthur declarou, em Manila: "Uma força
poderosa de invasão está sendo forjada."
O presidente
americano Harry Truman, contudo, tinha algo ainda mais poderoso em mente. No dia
seguinte à declaração do general, o Comandante-em-Chefe das
Forças Armadas dos Estados Unidos ordenou ao cabeça do 509º
Grupamento Aéreo executar a missão para a qual, desde o dia 25 de
julho, ele se preparava. Da sala do cruzador Augusta, Truman, em 5 de agosto,
dava a ordem de execução que mudaria a história do planeta:
a bomba atômica, filhote assassino do chamado Projeto Manhattan (leia
reportagem nesta edição), seria empregada na guerra.
Assim,
às 8h15 da manhã de 6 de agosto, uma bola de fogo materializou-se
sobre o céu da cidade de Hiroshima, fruto da fatal e sinistra detonação
de um artefato dotado de um poder de destruição equivalente ao de
20.000 toneladas de TNT - ou seja, 2.000 vezes maior do que a mais potente arma
já utilizada. Com 3,6 toneladas e 3 metros de comprimento, a primeira bomba
atômica - apelidada de Little Boy, ou "Garotinho", em homenagem
ao finado presidente Roosevelt - foi lançada do B-29 Enola Gay, pilotado
pelo coronel Paul Tibbets. A explosão, conseqüência da reação
em cadeia em urânio-235, provocou cenas sinistras, jamais presenciadas pelo
homem. Pássaros queimavam em pleno ar. Seres humanos perambulavam em carne
viva, com cérebros, olhos e tripas em chamas.
"Garotinho"
reduziu literalmente às cinzas uma área de 13 quilômetros
quadrados. Dos 290.000 habitantes de Hiroshima, cerca de 100.000 morreram instantaneamente.
Calcula-se que outras 200.000 pessoas podem fenecer num prazo de até cinco
anos, em decorrência das queimaduras e da radiação. "É
o maior evento de toda a história", definiu Truman, ainda no Augusta,
enquanto retornava de Potsdam, onde participou da derradeira conferência
aliada.
Não contente com o estrago feito pela primeira, o presidente
resolveu repetir a dose. Três dias depois do estrépito em Hiroshima,
Nagasaki, cidade portuária com 250.000 moradores, foi alvo de uma segunda
bomba atômica - desta vez apelidada de Fat Man, ou "Gordo",
cortesia com o antigo primeiro-ministro britânico, Winston Churchill (leia
reportagem nesta edição). Mais poderoso que o primeiro,
o artefato de 3,5 metros de comprimento e 4 toneladas contava com um poder de
destruição equivalente ao de 22.000 toneladas de TNT. Entretanto,
devido à topografia da região, a bomba - desta vez, de plutônio
- devastou uma área menor, de 6,7 quilômetros quadrados. Matou 73.000
pessoas e feriu outras 74.000.
...
Súditos em prantos
- Para piorar a situação nipônica, no mesmo dia em que o cogumelo
incandescente expandiu-se pelos céus de Nagasaki, a União Soviética,
cumprindo o acordo feito com os americanos em Yalta, declarou guerra ao Japão.
A força de ataque do Exército Vermelho era temerosa: 1,2 milhão
de soldados, 3.900 aeronaves e 5.500 tanques, contra 780.000 soldados, mil aeronaves
e 1.155 tanques do Exército de Kwantung.
Cercado por todos os lados,
contando as pilhas de cadáveres em seu território antes mesmo da
prometida invasão aliada, o Japão finalmente cedeu. Em 14 de agosto,
a notícia da rendição incondicional do último adversário
dos aliados foi transmitida simultaneamente para Londres, Washington e Moscou.
Em Tóquio, do lado de fora do Palácio, onde a decisão de
Hiroíto foi lida, uma audiência derramava-se em prantos; ajoelhados,
os súditos pediam perdão ao divino imperador. Naquele momento, Hiroíto
gravava uma mensagem ao povo japonês, pedindo lealdade para sua ordem de
rendição. Um grupo de oficiais rebeldes invadiu o palácio
naquela mesma noite para tentar fazer o imperador mudar de idéia e continuar
com a guerra, mas não obteve sucesso.
Dessa forma, após
a rendição oficial, o general Douglas MacArthur tornou-se o primeiro
estrangeiro a controlar o Japão nos últimos mil anos. Admirador
do sistema parlamentarista britânico, o militar tem em suas mãos
uma autoridade quase absoluta, com plenas condições de fazer com
que a democracia volte a imperar na terra do sol nascente. "Como comandante
supremo das Forças Aliadas, declaro meu firme propósito, de acordo
com a tradição dos países que represento, de proceder com
justiça e tolerância no desempenho de minhas responsabilidades",
declarou, no discurso a bordo do Missouri. Que assim seja.
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destruição provocada pela bomba atômica Baixar
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A
festa pela vitória dos países aliados nos EUA Baixar
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